DIA DE ÉVORA – Em Évora – texto de Fialho de Almeida – por Joaquim Palminha Silva

Imagem1O texto de Fialho de Almeida Em Évora (1), talvez inicialmente publicado nalguma revista da época, apareceu editado em livro na obra póstuma, Estâncias de Arte e de Saudade. Apesar de datado, e de o sabermos de forte carga interpretativa, o texto com mais de cem anos tem uma inegável e actual valia.

É hoje conhecido como o escritor alentejano Fialho de Almeida era um anotador do que via, sentia e ouvia pelos seus caminhos deImagem6 viajante: «De lápis na mão, Fialho percorria as ruas e os becos, demorava-se diante de tal ou tal prédio, fixava este ou aquele pormenor arquitectónico, entrava nesta ou naquela igreja em que, às vezes, lhe apetecia demorar-se, […]» (2).

Aos seus apontamentos o escritor juntava o escrúpulo avisado do erudito, procurando na localidade documentar-se pela «[…] bibliografia regional, artística ou novelística […]» (3). Daqui resulta que para escrever Em Évora, Fialho de Almeida tenha consultado largamente os Estudos Eborenses de Gabriel Pereira, trabalhos publicados entre 1886 e 1896, o que nos leva a concluir que foi, portanto, por esse fim-de-século XIX que o escritor visitou Évora.

Podendo ser visto hoje apenas como motivo ligeiro de expressão literária, o texto Em Évora não me parece ter sido apenas pretexto para o escritor tirar partido das virtualidades do seu génio na manipulação das palavras, além da inspiração que lhe deve ter provocado uma cidade com um acentuado substracto espiritual… Em meu entender, Em Évora adquire a categoria de texto pioneiro de divulgação do que se convencionou intitular, nos dias que correm, de “turismo cultural”, com a sua natural tendência descritiva e paisagística e, aqui e ali, algum comprazimento estético-sentimental.

O seu ensaio é, pois, o resultado do jogo impressivo causado pela visão directa dos ângulos, pelo registo flagrante das particularidades da Arte, da História, da Vida e da Natureza. Imagens e percepções de ordem física que revelam a predileção fialhiana pelas nomenclaturas técnicas da pintura e da arquitectura, embora à mercê dos ventos, essa sua base de improviso sempre disposta a deixar-se surpreender, como ele diz, numa «terra onde as ruínas góticas verdadeiras são, a cada passo, duma imponência a encher de assombro o mais romanesco peito de touriste».

Através de Fialho de Almeida pressentimos então, para além das paredes grossas (e da musculatura egocêntrica das muralhas), quanto a cidade apresentava já então, por assim dizer, uma linhagem plástica própria: – Évora há cem anos era já considerada pelos espíritos mais atentos património monumental!

Se lhe descontarmos alguns neologismos injustificados e estrangeirismos de irritante efeito, o colorista, o auditivo, o apreensor de perfumes do meio ambiente, o criador de vibrantes sinestesias, proporcionando-nos uma retrospectiva notável sobre a urbe adormecida e cábula na aparência. O texto de Fialho de Almeida, cem anos antes de nós, já havia descortinado, premonitoriamente, o excepcional valor patrimonial da cidade de Évora!

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(1) – Este texto, inserido no título de obra citada, há muito esquecido, merecia uma edição única.

(2) e (3) – Fialho, Introdução ao Estudo da sua Estética (I e único vol.), Álvaro J. da Costa Pimpão, Coimbra, 1945.

 

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