Tinham-se passado escassos cinco meses da implantação da República em Portugal.
Martirizados, com a mesma ingratidão, viviam também Machado Santos e José Carlos da Maia.
Fundadores do novo sistema, desde logo assumiram posições de intransigência contra a orientação política dos que se colocaram ao leme da República.
Ignoravam que só a 19 de Outubro de 1921 terminariam esses martírios, e que até lá, muito iria acontecer.
A primeira experiência de República em Portugal não podia ir muito longe. Tinha mais quem lhe apontasse o dedo do que mãos estendidas. Nem Lenine parecia capaz de dar crédito ao novo regime revolucionário que governava este canto da Europa. As referências elogiosas do grande líder da Revolução Russa de Outubro de 1917 não chegavam para convencer os Portugueses da utilidade prática do Outubro revolucionário de Lisboa de 1910.
O povo dava mais atenção àquilo que um monárquico como Carlos Malheiro Dias dizia, quando afirmava: «Em Portugal não se mudou de regime, mas de homens. A revolução quase se limitou a confiscar o poder às oligarquias políticas da monarquia e trespassá-lo às oligarquias republicanas.».
Mas, como já se verificou, não era só dos monárquicos que vinham os grandes reparos críticos.
José Carlos da Maia, desde sempre um dos mais ativos lutadores no combate pela implantação da República, é uma das vozes que se levanta com todo o vigor:
– Raios partam a Revolução e a República, e os homens que a fingem servir – diz o bravo marinheiro, que apenas cinco meses antes tinha comandado o assalto ao cruzador D. Carlos, garantindo assim o triunfo do movimento revolucionário. – Uma revolução pode mudar as instituições mas em nada alterou o carácter dos homens. Eles continuarão sendo o que eram; perversos e imbecis.
– Não tenha dúvidas – diz Carlos da Maia na correspondência com João Chagas, em Fevereiro de 1911 – O que se fez no dia 5 não foi uma revolução, O que está sucedendo constitui ensinamento para o futuro. Tantos pontapés nos hão-de dar que um dia convidarei Machado Santos e outros e talvez consigamos fazer uma revolução que seja digna desse nome.
E o oficial da Marinha que o Dente de Ouro irá mais tarde arrancar para a morte, assegurava:
– O homem que um dia tomou o D. Carlos e o mesmo que amanhã tomara o Almirante Reis.
José Carlos da Maia não escondia a sua vontade de se manter em luta pelo seu ideal. Desconsolado pela forma como estava a ser tratado pelos novos dirigentes, desabafava para João Chagas:
– Veja meu querido amigo como eu estou sofrendo as consequências de haver praticado o horrível crime de combater pela República enquanto eles fugiam. Que desgostoso estou! Ao que havia eu de chegar!
Na correspondência com João Chagas é visível que Carlos da Maia irá permanecer para sempre como uma voz incómoda para quem estiver num mando contrário àquilo que são as perspetivas do seu pensamento político e social.
Em cartas da primeira metade de 1911, dizia:
«Também eu padeço da mesma descrença e se não fosse antipatriótico, pelo menos neste momento, anular desde já a influência destes politiqueiros de profissão, eu apelaria para um movimento revolucionário que teria a vantagem de extremar campos e definir individualidades.
Que quer? Eu sei combater nobremente, de armas na mão, desconheço a intriga, abomino a política mesquinha.»
Defendendo as suas conceções, Carlos da Maia prosseguia:
«As diferentes modelações por que passam as sociedades na sua ânsia progressiva, levam por vezes as populações ignaras a colocar na torre de marfim individualidades duvidosas mas que momentaneamente representam o bezerro de oiro da sua adoração.
Os entusiasmos, porém, são transitórios, passageiros.
As aclamações de hoje, serão amanhã protestos.
Os homens passam, as ideias ficam.
– Confesso que não tenho jeito algum para político. – Revelava o marinheiro revolucionário do 5 de Outubro. – Inclino-me muito mais para os estudos sociais. Há necessidade de fazer leis para o cooperativismo, direitos dos operários, tribunais arbitrais para solução de conflitos entre operários e patrões, formas de conseguir que o operário se transforme num coproprietário das empresas; subsídios a inválidos e operários inutilizados na oficina; trabalhos das mulheres e crianças, princípios sobre sindicalismo, enfim tudo quanto diga respeito à melhoria dos operários; relatórios justificativos e leis votadas e propostas feitas.»
Quem assim pensava, foi escolhido para morrer numa noite de Outubro do ano de 1921. Não era um político. Tinha tomado parte ativa na maior transformação política do século, mas não era político:
«A política, a pérfida política atormenta-me… Tem a volubilidade de uma mulher fácil. Sorri quando quer chorar. Faz-nos sofrer, amando-a e desprezando-a ao mesmo tempo.»
E, para melhor se dar a perceber, apresenta exemplos:
«A estrutura desta primeira Câmara da República é tudo o que há de mais enigmático.
Os homens que a constituem não têm politicamente individualidade definida. Caminham ao acaso segundo orientações contraditórias que só podem ser explicadas pela ambição pessoal.
Nota-se em toda esta gente a ânsia de querer ser. Dai, a mobilidade de opiniões defendidas sempre com igual calor e todas apoiadas em argumentos de sólida contextura.
Ser ministro, eis a ambição suprema, o ideal a atingir. Sacrifica-se tudo a esta ambição efémera, tudo até a própria dignidade.
De resto, nada me espanta esta atitude. Os homens que não tiveram dignidade para fazer a República menos a podem ter para a consolidar.
[…]
Onde irão estes homens buscar a dignidade e o carácter que tanto lhes escasseou quando o País deles tanto carecia?»
Interrogava-se José Carlos da Maia em 3 de Julho de 1911. No dia seguinte fazia dez meses que o cruzador D. Carlos tinha passado a hastear a bandeira da revolução pela República.
Agora era tempo de vaticinar:
«Não há dúvida – se não lhe acudimos a tempo a República afunda-se. Ou eu me engano muito ou teremos uma nova revolução seguida dum golpe de estado, muito mais cedo do que se imagina.
O assalto de certos homens ao poder é inevitável.
O povo que os não viu na Revolução e lhes conhece a cobardia, indignar-se-á; habituado a conspirar e não tendo perdido ainda o hábito de fazer bombas, iniciará um dia nova revolta, que será bastante prejudicial para a República mas que será até certo ponto legítimo porque é o único elemento de repressão de que sabe dispor.»

