CONTOS & CRÓNICAS – A MORTE CAI DO CÉU – por Sérgio Madeira

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Sábado, 16 de, Dezembro de 1972: aldeia de Xuvalu, província de Tete, Norte de Moçambique.

 

Eram agora cerca de duas da tarde e o calor era mais que muito.

Como se fossem setas uivantes, os dois «ginas» passaram com um ronco plangente rasando as árvores e foram largar os seus ovos de morte sobre as aldeias vizinhas. Da aldeia de Xuvalu, viam-se as palhotas a arder e, com o forte cheiro a óleo queimado, o vento trazia também o clamor dos gritos dos aldeãos. A parelha de Fiat G-91 passava e voltava a passar, metralhando com as suas quatro 12,7 mm ou largando bidões de napalme sobre as duas aldeias. Em poucos minutos, ambas as localidades estavam mergulhadas num mar de chamas. Os de Xuvalu, atónitos com a visão aterradora daqueles pássaros mortais que destruíam tudo à sua passagem, parecendo sugar a vida com o uivo dos seus reactores, abandonaram as palhotas e foram reuniram-se no pátio do machambeiro que tinha o nome da aldeia, Xuvalu. Havia muito poucos homens novos, eram mais as mulheres, os velhos e as crianças. Estavam todos aterrorizados, embora alguns tentassem manter um ar calmo. Um dos mais velhos, como se estivesse numa assembleia, quis impor com o peso da sua condição de madala e a correspondente sabedoria alguma calma, mas desta vez, apesar do atávico respeito devido aos mais velhos, ninguém ouviu as suas ordens e conselhos.

Descontroladas pelo medo, as mulheres e as crianças choravam. Um grupo de homens discutia, tentando chegar a um consenso sobre o que fazer. Tentavam parecer calmos, mas as suas vozes, inusitadamente agudas, traíam o pavor que também sentiam. E, naquela situação, todas as ideias pareciam más. Luciano, o primogénito da família Mixoni, já com 18 anos, juntara-se ao pai e aos outros homens. Nada se resolvia – uns queriam ficar e defender a aldeia. Defender como? Perguntavam outros – Com as mãos nuas contra as metralhadoras? Atirando pedras aos aviões?, aventou um conseguindo ironizar. Havia os que eram da sensata opinião de que deviam fugir para lá das machambas, para o mato e esconder-se. Opinião sensata, mas talvez tardia. Vendo que sob aquela tensão nada se iria resolver, Mixoni fez sinal a Luciano e a Firina. Iam fugir os seis para o mato, para lá dos limites do aldeamento, já que colectivamente nada de concreto se decidia. Outras famílias tinham já feito o mesmo, como era o caso de Irisoni e de Ramadi, seu primogénito já casado, de Batista… Por cima do clamor dos gritos, choros e exaltadas discussões, Mixoni conseguiu fazer-se ouvir pela sua mulher Firina, gritando-lhe para que reunisse a família. O segundo filho, Antoni, com 15 anos, ajudou a mãe na tarefa e logo pegou ao colo o irmão mais pequeno, Domingos, de quatro anos. Entretanto, Firina conseguira agarrar Rita, de sete anos.

Porém, com o ruído dos bombardeamentos e com os gritos, não ouviram os rotores dos cinco helicópteros que traziam no ventre dezenas de soldados comandos. Xuvalu estava cercada. Quando Mixoni e a família chegaram ao limite da aldeia viram os tugas e os GEPs, dispostos em círculo em torno do aglomerado de palhotas como uma sinistra mão de fogo fechando-se. Viram os soldados correndo e disparando, tapando todas as saídas. Mixoni gritou para que voltassem para trás. Regressaram ao pátio. Ali a inútil discussão continuava e o berreiro das mulheres e crianças também.

As G-3 começaram a ladrar.

(in A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL)

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