UMA SOLUÇÃO MONETÁRIA EXISTE PARA REABSORVER A CRISE DO CRESCIMENTO E DA DÍVIDA – por BERNARD DUGUÉ

Falareconomia1Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Uma solução monetária existe para reabsorver a crise do crescimento e da dívida

 

Bernard DuguéUne solution monétaire existe pour résorber la crise de la croissance et de la dette

Agora Vox, 17 de Outubro de 2014

dólar - II

Existe uma solução para reduzir os défices, para reabsorver a dívida e que ao mesmo tempo favorece o crescimento. É simples mas para o fazer, é necessário sair das ideias recebidas, sair dos quadros mentais convencionais e querer uma sociedade republicana, ultrapassando os desejos individualistas. Esta simplicidade está fora de alcance para as elites e para os cidadãos que complicam as coisas ao simplifica-las.

 (I) O BCE e a inflação. Nos seus estatutos, está previsto que o BCE deve determinar a sua política monetária tendo como principal objectivo o de controlar a inflação na zona euro. A relação entre a política monetária e a inflação é na verdade uma espécie de mito. A inflação tem muitas causas. Nomeadamente estruturais. Com o funcionamento aberto ou fechado mercados e a concorrência internacional. Com a pressão sobre os salários que aumentam os preços na produção. Com o aumento das matérias-primas que aumentam também os preços. Por último com o diferencial entre o poder de compra e a quantidade de mercadorias disponíveis, esta quantidade depende fortemente do aparelho produtivo. Nos anos de 1980, o petróleo aumentava, a pressão salarial acentuava-se, o mercado estava menos aberto e o aparelho produtivo não estava tão desenvolvido como agora. Em 2010, os factores inflacionistas praticamente desapareceram. Eis a nova situação, agora é a deflação que nos levanta problemas e não a inflação. E a política do BCE contra isto não pode nada porque os processos de inflação e de deflação estão praticamente desligados da injecção de moeda pelo BCE. Em certos limites, pelo menos. Um temor de inflação será estudado pelos meios autorizados. Se é este o caso, esta inflação não aproveitará aos trabalhadores, contrariamente à inflação dos anos 1970.

(II). O BCE enriquece os bancos, os especuladores, a finança e os rentistas. No ano passado, o poder de compra das pessoas não aumentou, com os rendimentos estáveis. Em contrapartida, a fortuna dos multimilionários europeus aumentou-se de 12%. E esta realidade dura há mais de trinta anos, esta captação das riquezas criadas e que é feita por uma casta superior. Esta política acomodatícia inunda os mercados financeiros de uma qualquer moeda com taxas de juro muito baixas. Esta moeda não vai directamente para a economia real e é por isso que não há inflação. No máximo, leva a uma baixa limitada do euro face ao dólar. Jacques Attali surpreende-se nas emissões de televisão que a França possa levantar dinheiro nos mercados obrigacionistas a uma taxa assim tão baixa, apesar do nível de dívida. Ou Attali não sabe nada de economia ou finge não compreender o que se passa para nos atirar fumo para os olhos. Se as taxas são assim tão baixas, é porque os prestamistas são cada vez menos os habituais aforradores e são cada vez mais os banqueiros. Se a França quiser contrair empréstimos, esta coloca a sua procura de fundos em face dos eventuais credores, os prestamistas. Os banqueiros só têm que contrair empréstimos junto do BCE a uma taxa zero para seguidamente emprestar à França à uma taxa entre um e dois pontos, para maturidades a dez anos. Para a Alemanha, está-se mesmo abaixo de um por cento. Como se vê, o BCE sabe ser benevolente com os empréstimo concedidos a taxas zero, com milhares de milhões de euros em jogo. Para o simples campónio que quer comprar um alojamento, a taxa zero, é exactamente 10 à 20.000 euros, com uma tonelada de documento a preencher. Esta manipulação permite aos bancos obter lucros que estão ligados indirectamente com a economia real através do  dinheiro público que irriga a economia graças às despesas públicas. Seria mais simples contornar os estabelecimentos bancários mas a lei proíbe ao banco central (que era o da França e é agora o da Europa) que empreste aos Estados.

(III) Existe uma solução simples para reduzir a dívida e aumentar o crescimento através do aumento do poder de compra. Em vez de gastar este dinheiro que vai para o bolso dos bancos e das grandes fortunas, o BCE poderia emitir liquidez sem crédito. Cerca de 2 a 3 pontos de PIB. O que representa, mesmo assim, 200 a 300 mil milhões de euros. Este dinheiro seria distribuído sob a forma de imposto negativo aos cidadãos dos países da zona euro cujos rendimentos são mais baixos. Façam-se os cálculos. Tomando como valor de referência 250 mil milhões e cerca de 50 milhões de famílias europeias, isto faz 5000 euros por ano, ou seja em média 400 euros por mês. A repartir equitativamente. Digamos, 600 euros para uma família sem rendimento, seguidamente uma tarifa degressiva: 400 euros para completar um rendimento de tempos parcial a 800 euros. 200 euros para um smicard que terá líquido um pouco mais de 1500 euros por mês. E seguidamente para um rapaz modesto que ganha, digamos, 1500 euros, 100 euros a mais por mês. Hãn? Agora, reflicta-se no resultado.

Estes 250 mil milhões que são assim distribuídos vão imediatamente parar ao consumo. Isto resultará em 2 a 3 ponto de crescimento. Estes rendimentos complementares permitem reduzir as despesas sociais das quais uma parte é transferida sobre a liquidez “sem crédito” do BCE. Uma parte terminará nos cofres do Estado sob a forma de taxas diversas. Ao fim de dez anos, a dívida estaria reabsorvida. Tendo em conta que o crescimento aumenta, o desemprego é contido, até mesmo diminui. Pode acontecer que o euro baixe de valor face ao dólar. Isto vai no entanto no bom sentido para a competitividade. Resumidamente, com esta medida cujo tratado se escreve em meia página, todos os sinais vermelhos da economia passariam a verdes.

Podemo-nos questionar porque é que esta solução não é ao menos analisada pelos responsáveis do sistema. O princípio é simples. Consiste em resolver não a questão do crescimento e da dívida mas o problema da pobreza. Enriquecendo os pobres, resolve-se o crescimento e a dívida e mantém-se o estatuto das classes médias. Evidentemente, este credo não casa nada bem com a doxa neocapitalista que nos quer fazer acreditar que enriquecendo os ricos, as classes inferiores iam seguir o mesmo caminho e com estes os miseráveis também seguiriam a mesma trajectória. Este caminho foi válido á dez anos mas apenas para os países emergentes.

Actualmente, a bolsa é um caos. De acordo com os especialistas da alta finança, trata-se de um efeito correctivo. A bolsa estava sobreavaliada devido ao excesso de liquidez procedente do BCE. Esta bolsa em baixa não é uma boa notícia. Seria bom que ela suba, mas para isso, seria necessário que as empresas fizessem lucros vendendo o que elas podem produzir. Este descarrilar é sobretudo o sinal que as pessoas não têm bastante liquidez para comprar os produtos e fazer funcionar a economia real. Esta explicação, os economistas não a consideram. Tal como François Hollande que incrimina a situação internacional, o vírus Ebola e o fraco crescimento na Europa.

Em suma, há uma solução para resolver com disposições simples e globais a crise social. Estou mesmo pronto para a apresentar se me convidarem numa emissão televisa de grande audiência. O que  não acontecerá. Permaneço zen. Compreendo porque é que esta solução não é discutida. Não convém ao poder que, de resto, está  bem distante  das pessoas e ironiza sobre os sem-dentes. Permanecem os cidadãos iluminados mas infelizmente, estes tornaram-se um povo de mercado e não têm nenhuma preocupação com todos aqueles que são obrigados a estarem sempre em ajustamento. Uma solução existe, não será aplicada no estado actual da sociedade. Aleluia!

Bernard Dugué,

Une solution monétaire existe pour résorber la crise de la croissance et de la dette, Outubro de 2014. Texto publicado por Agora Vox, disponível em :

http://www.agoravox.fr/actualites/economie/article/une-solution-monetaire-existe-pour-158149

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