REFLEXÃO – As mãos traiçoeiras da arte – por Adão Cruz

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Tenho conversado muito com os meus amigos Jean-Pierre Changeux, Thomas Insel e António Damásio, grandes cientistas das novas interrogações. Também eles se apaixonaram pela arte, também eles caíram nas suas mãos traiçoeiras. Mas não se meteram propriamente com ela, foram mais espertos. Não se deixaram levar pela tentação do seu corpo nem pelo calor das suas tintas, não tentaram penetrá-la e possuí-la de forma séria, profunda e infinita, agarrando-a pelo sexo numa cumplicidade de tragédia. Deixaram-se embevecer e atrair pela sua beleza, é certo, mas dentro de uma espécie de amor platónico, não ousando tocá-la, talvez por imposição profissional, talvez por medo, talvez por pudor. Daí o terem-se preocupado, essencialmente, com a razão estética e com a força ontológica da criação. Provavelmente, por isso, nunca lhes fora apresentada a amiga frustração, tendo-se eles livrado, assim, quem sabe, do valente frete que constitui a obscura consciência da inferioridade e da falsamente compensadora necessidade de uma indignada afirmação de si próprios.

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