Mais uma época de Natal se aproxima. A do consumismo desenfreado, a da hipocrisia do amor ao próximo, a da reunião familiar mesmo sem amor. Desculpem, mas isto de amor e ajuda só em dias especiais não me entusiasma. Será também a oportunidade celebrada de verdadeira reunião. Sim, será.
E é a dos que estão sozinhos e nesses dias, mais sentindo a falta dos que amaram e se suicidam. E é a dos que não têm possibilidades de tornar esse dia mais cheio de coisas boas (fui invadida por imagens que assinalam, sobretudo o aumento de peso depois das festas…).
Lembro o poema de António Gedeão, “ Dia de Natal”:
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
[…]
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.” […]
Para os crentes, a alegria do nascimento de Cristo na terra. Em termos pagãos, a celebração do Solstício de Inverno, ou seja, o renascimento simbólico do Sol após a sua simbólica morte, inaugurando a fase ascendente do ciclo anual.
Fiquemos com a ideia do renascimento perpétuo da vida, a hipótese de criação, a esperança de algo de novo.

