MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 48 – por José Brandão

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No campo oposto, o jornal República procura nessa mesma efeméride responder às interrogações colocadas pelo órgão monárquico. Recomenda vários livros que «podem ser lidos com proveito por quem queira esclarecer-se sobre esse ponto da nossa história contemporânea e neles se encontra cabal resposta às interrogações que A Época fazia há quarenta e cinco anos».

Quem não gostou da sugestão foi A Voz, que, no dia seguinte, 20 de Outubro de 1966, responde assim ao seu rival histórico: «Pelo menos podia o República pôr agora o caso a limpo, sem insinuações, nem tergiversações. Já lá vão 45 anos, mas valia a pena. Desembuche, pois.»

Quem matou? Quem mandou matar? Será legítimo levantar ainda estas interrogações?

Existem opiniões de que jamais se saberá a verdade e que o mistério perdurará por toda a eternidade.

 Em 1924, Consiglieri Sá Pereira escreveu que a «Noite Sangrenta não é analisável em si, isoladamente, destacadamente. Quem o queira fazer não encontrará nem certezas nem hipóteses. Treva apenas. Ela marca o ponto extremo de uma colossal maré de ódios que cresce, ano pós ano, desde velhos tempos. Há que ver estes acontecimentos no seu conjunto, detalhando dezoito anos de crimes inúteis e de violências desumanas. A sociedade portuguesa, porventura saciada da sua tradicional brandura de costumes, está inchada de sangue – tem-no bebido à larga»

Nas páginas da Seara Nova, de 24 de Dezembro de 1921, Jaime Cortesão deixara já expressa opinião idêntica: «Os últimos acontecimentos revolucionários tiveram uma virtude: patentear à evidência a nossa desorganização social e as ameaças de morte que cercam a nação. […]

Atingimos o extremo em que uma ligeira oscilação pode provocar a última derrocada. […]

Não é o regime, nem a agricultura, nem a indústria, nem as finanças que verdadeiramente estão em crise. O que em Portugal, há alguns séculos, está em crise é o português.

[…] Num país onde as classes dominantes têm horror ao trabalho honrado e independente, até um Governo de Bismarks, Cavours e Pombais havia de falir por incapaz.»

Os homens da Seara não se cansavam de apontar os males. No número dois da mesma revista, de 5 de Novembro de 1921, aparecera logo esta advertência: «Não foram bastantes os mortos. Não é ainda bastante grave a desorganização da sociedade portuguesa. É preciso que nos afundemos mais. Outros homens têm de cair varados pelas balas. Outros assassinos têm de surgir.»

O 19 de Outubro fora trágico em todos os aspetos. «Nunca passei dias tão amargos como estes dias de Entrudo», lamentava-se Raul Brandão, em Fevereiro de 1922. «A Pátria vai acabar? Isto vai acabar? […] Não estamos à beira do abismo – resvalamos já no abismo.»

Nessa mesma data, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Augusto Casimiro, Jaime Cortesão, Câmara Reis, Faria de Vasconcelos e Raul Proença assinam um manifesto Ao País, insurgindo-se contra as tentativas de libertação dos oficiais comprometidos com o 19 de Outubro e contra o clima insurrecional e conspiratório que se vive em Portugal.

As consequências da Noite Sangrenta corriam para a fatalidade. Reinava a escuridão na consciência coletiva – dizia Leote do Rego. No Parlamento, o deputado apresentava as suas queixas:

– Sr. Presidente: estou farto, cansado, de ouvir a sua campainha a chamar os deputados ao hemiciclo e farto de ver outros, inquietos, aflitos, para se conseguir número suficiente para as votações…

Quatro dias depois, Leote do Rego morre em plena sessão parlamentar. Uma síncope fatal acabara com as suas angústias.

Caminhava-se a passo largo para o 28 de Maio de 1926. «Depois do 19 de outubro de 1921, a República agonizava», recorda Cunha Leal. «Preparavam-se novas lutas internas e o estrangeiro aguçava o dente. A Província, exausta de paciência, teimava em marchar sobre Lisboa, a má cidade do vício.»

Logo após os acontecimentos de 1921, o general Gomes da Costa anunciara perante alguns representantes diplomáticos acreditados em Lisboa o seu propósito de levar a cabo com urgência um «movimento de carácter republicano-conservador contra o atual Governo».

Era o 28 de Maio que apresentava já o seu cartão-de-visita.

Ia conseguir apanhar a República de calças na mão. A conjuntura estava ao jeito. Estava como diz César Oliveira: «E se até Outubro de 1921 as contradições e conflitos no interior do republicanismo se desenvolviam sem o recurso à violência e ao sectarismo, após os episódios sangrentos da noite de 19 de Outubro de 1921 algo mudou no campo republicano. Com efeito, o radicalismo da sedição de 19 de Outubro marca o início de um período no qual não vai ser mais possível conciliar as várias fações que não só dividiam e opunham entre si os vários partidos como se digladiavam, também, no interior de cada um dos partidos.»

Ao fim de tudo o que atrás fica dito, a que conclusão se pode chegar?

Em 1954, Damião Peres, historiador prestigiado e autor de volumosa obra, considera o segredo dos crimes da Noite Sangrenta ainda por desvendar e afirma: «Qual o motivo ou os motivos desses quatro crimes? Eis uma pergunta a que nunca pôde ser dada uma resposta positivamente concreta.»

Damião Peres é na realidade um investigador desafeto à República e a sua História de Portugal uma obra monumental, mas «ressentindo-se dos preconceitos ideológicos do autor.»

Todavia, em posição ideológica totalmente oposta está Carlos Ferrão – o último republicano –, que em 1969 admite inequivocamente não estarem ainda esclarecidos esses mesmos segredos: «A Noite Sangrenta é, porém, um mistério que provavelmente nunca se esclarecerá por completo.»

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