BISCATES – “Ir para o maneta” – por Carlos de Matos Gomes

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O Maneta foi a alcunha dada ao general Loison, do Corpo de Observação da Gironda, o exército de Junot da primeira invasão francesa a Portugal em 1807. Loison tinha perdido um braço em França, num acidente de caça e ficou conhecido pela brutalidade e impiedade com que tratava os portugueses que lhe caiam nas mãos. Eram torturados e mortos. Ir para o Maneta passou a significar tortura, morte e desaparecimento. Destino ao qual não se pode escapar. Foi para o Maneta, não há nada a fazer. Ficou sujeito a um poder totalitário, arbitrário e impiedoso.

Hoje em dia é o Maneta que governa Portugal. O Maneta chama-se Estado. Estamos constantemente a ir para o maneta. O Estado é o novo Maneta. É o Maneta sem rosto e multiplicado por ministérios, repartições, hospitais, tribunais e só não digo por quarteis porque o Maneta que é ministro da defesa os fez ir para o Maneta, isto é, desaparecer nos bolsos de construtores civis e sócios afins.

Um cidadão tem uma disputa com a administração fiscal e é garantido, vai para o Maneta. A chamada Autoridade Tributária devia chamar-se Esquadra do Maneta. Um paisano português atrasou-se no pagamento de um imposto, ou entende que está a ser extorquido, que houve um erro, reclama: vai para o Maneta. Penhorado, condenado, paga e não bufa. Paga antes de poder abrir a boca, que o Maneta das Finanças não tem serviço de reclamações.

O cidadão adoece, cai de um escadote, o filho sofre de um mal do crescimento, um velho está a necessitar de uma última vistoria antes de morrer sem muito sofrimento, vai às urgências hospitalares e foi para o Maneta. O Maneta das urgências é um armazém por onde se passeiam manetas com batas e olhares distantes. Estar doente é meio caminho andado para ir para o Maneta. O Maneta da saúde tem acampamentos no hospital de Vila Franca de Xira, com a legionela, nas salas de espera por urgências do Amadora-Sintra. Amanhã será num hospital PPP, numa farmacêutica. Até às morgues, o Paraíso do Maneta.

Os jovens que este ano queriam começar o ano com professores na escola também viram as aulas ir para o Maneta, assim como os professores. O actual Maneta da educação chama-se Crato. O Mário Nogueira já anda a gritar o Crato para o Maneta, sem sucesso. Pior, o feitiço voltou-se contra o feiticeiro: o Mário Nogueira é que está em riscos de ir para o Maneta.

Um condutor passa de carrinho por uma portagem eletrónica, o contador está avariado, por culpa da Brisa, não dele, mas lá se foram umas centenas de euros para o Maneta das autoestradas em coimas indevidas.

Nos tribunais a lei é a do Maneta. Cair nas mãos da Justiça é ir para o maneta sem termo certo. O Maneta fez-se procurador, meirinho, juiz, carcereiro. A imagem da justiça em vez de uma mulher vendada com uma espada devia ser um cágado maneta, com a administração do BPN sobre a carapaça. Os sócios do BPN são dos poucos que se riem do Maneta da justiça. O Maneta da Justiça mais conhecido chama-se Alexandre. Ir para o Alexandre é o mesmo que estar à pesca numa rocha e vir uma onda. Não há nada a fazer. O Alexandre é como o Mostrengo. O mostrengo que está no fim do mar. Na noite de breu ergueu-se a voar; À roda da nau voou três vezes, Voou três vezes a chiar, E disse: «Quem é que ousou entrar nas minhas cavernas que não desvendo, seus tectos negros do fim do mundo?» E o homem do leme disse, tremendo: «El-rei D. João Segundo!»

O problema é que temos o Maneta Alexandre, mas não temos o D. João Segundo.

Embora os tribunais sejam o paraíso do Maneta, o sem retorno, existem espalhadas pela administração pública várias sucursais, por vezes quase de vão de escada. Tentar obter um cartão do cidadão numa conservatória, uma carta de condução num dito Instituto da Mobilidade é ir para o Maneta por horas, dias, meses, com uma senha. O Maneta é avesso a certidões e cartões e é um viciado em senhas numeradas.

Os jornais estão cheios de coisas e pessoas que foram para o Maneta. 300 mil portugueses foram para o Maneta à procura de trabalho no estrangeiro. Um milhão viu o emprego ir para o Maneta. Destes 700 mil viram o subsídio ir para maneta. 200 portugueses vêem diariamente a casa ir para o Maneta, penhorada. A outros tantos, ou mais, é o salário que vai para o Maneta.

Que me lembre já foram para o Maneta as empresas dos telefones e internetes, as dos cimentos, as dos aeroportos, as das águas e lixos, a das estradas, as pousadas nacionais, as refinarias, os estaleiros, da electricidade, do gás, da aviação civil e militar. A RTP está entregue a um Maneta que fala por uma corneta, um maduro. Até uns inocentes feriados que alegravam os calendários foram para o Maneta!

Loison, o Maneta, esteve por duas vezes em Portugal, uma com Junot e outra com Soult, uma vez no sul e outra no norte, mas deixou prole que se reproduziu e tomou conta de Portugal inteiro. O Conselho de Ministros é hoje o estado-maior do Maneta. Todas as quintas-feiras os filhos do Maneta se reúnem para nos mandarem para o Maneta.

A coroa de glória é que até o nosso tempo está a ir para o Maneta. Por exemplo, o ano de 2014 já foi para o Maneta.

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