EDITORIAL – Os impérios não são eternos… mas às vezes são substituídos por outro império

logo editorialOntem, 29 de Dezembro, a China surpreendeu o mundo com um violento ataque desferido contra o dólar, o aparentemente inofensivo soldadinho verde com que os Estados Unidos têm invadido e dominado o mundo desde o fim da Segunda Guerra Mundial – O Banco Popular da China lançou o comércio bilateral em ienes e rublos. Um acordo cambial com o Banco Central Russo, pode vir a reduzir substancialmente o papel do dólar no comércio internacional.

Não sabemos avaliar o impacto real desta medida. Parece, no entanto, esboçar-se um acordo tácito entre Pequim e Moscovo no sentido de retirar à moeda norte-americana o papel de protagonista da economia mundial. Pequim e Moscovo, herdeiros remotos de maoísmos e de leninismos, com pressupostos políticos diferentes estão a entender-se, não numa base ideológica (o que interessa tal coisa?), mas em ordem a enfrentar e, se possível, derrotar um inimigo comum.

No editorial de 7 de Julho deste ano, aludindo ao Tratado de Tordesilhas cujo aniversário passava nessa data, dizíamos: «Os impérios parecem eternos, mas são perecíveis. Feitas as contas, o Império Romano do Ocidente, durou 500 anos – numerosas gerações se sucederam pelo mundo que se aninhava em torno do Mediterrâneo». E, adiante acrescentávamos «Foi em 7 de Julho de 1494 que o Tratado de Tordesilhas, assinado entre as coroas de Portugal e Castela e Aragão veio sancionar com a benção papal uma situação que os estados europeus tradicionalmente poderosos contestavam. Francisco I de França pediu ao papa que lhe mostrasse o Testamento de Adão que excluía o seu estado da partilha do mundo. Tordesilhas consagrou a política de Mare Clausum. Os orgulhosos estados europeus – Inglaterra, França, Flandres, as repúblicas de Veneza e de Génova, tiveram de se resignar ou recorrer à pirataria.» «Do rescaldo da II Guerra Mundial, emergiu uma nova superpotência. Nas primeiras quatro décadas da sua vigência, o império americano teve na União Soviética uma força que impunha algum equilíbrio. Vários tratados de tordesilhas foram assinados entre as duas potências. Pelas razões históricas que se conhecem, os Estados Unidos estão hoje aparentemente sozinhos na liderança do planeta. Para quem nunca conheceu outros amos, parece eterno este império – fomos obrigados a aprender a língua imperial, a adoptar hábitos que vão do consumo de cereais ao pequeno-almoço aos serões televisivos com estúpidos talk shows. […] sabemos que este império está em contagem decrescente. Provavelmente, outro império se esboça na sombra deste. Poderá ser que os nossos netos ou bisnetos tenham de aprender mandarim e comer arroz… »

A estas palavras de há meses atrás acrescentamos que a queda do maldito império ianque é um acontecimento que, nós os que sonhamos com uma terra sem amos, acolhemos com satisfação. Porém, não é uma vitória – o chicote muda de mãos – mas o dorso continua a ser o nosso.

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