A vida do lado de lá da nossa “zona de conforto” faz-se de pessoas que sobrevivem porque há alguém que lhes dá comida, roupas, dinheiro. Estes alguém são voluntários que abdicam do seu conforto para combater a pobreza que se vai alastrando por todos os países, mas a pobreza continua, os sem-abrigo continuam sem nada, apenas têm o tempo de espera por outro voluntário.
Vêm vagas de frio e as autarquias abrem as portas do metro, armam tendas de campanha, alimentam os sem abrigos com a comida tradicional desta época natalícia….e nos outros dias em que está muito frio, mas que não é classificado como onda de frio?
Quando vamos na rua e vemos um homem ou uma mulher vestidos com trapos e deitados em cima de cartões, ficamos incomodados e até nos desviamos com repulsa ou incomodados com a estranha sensação de não saber o que fazer, damos uma moeda e ficamos mais descansados, não mais pensamos nele.
Não temos a quem atribuir culpas, mas se calhar somos demasiado lestos em atribuir-lhes a culpa, são assim porque querem, não querem trabalhar!
Eu pergunto qual de nós empregaria um sem abrigo?
Ninguém é pobre por opção, é-se pobre porque as circunstâncias empurram algumas pessoas para a pobreza, para a pobreza extrema.
Quando não há recursos materiais nem afectivos, o sentimento de exclusão é muito forte. A sociedade lida muito mal com os excluídos, aprofunda, ainda mais o sentimento de excluído, levando, muitas vezes, a que sejam as pessoas a auto excluírem-se para não se sentirem “Zé ninguém”.
Ninguém escolhe ser pobre, mas podemos escolher ser sem-abrigo. Eu posso optar pela minha total obrigação de não ter horários, de dormir onde quero, como os gatos, de não obedecer a burocracias, de sair da norma, de sair da minha zona de conforto. A opção de ser sem-abrigo não depende da idade, do género, da condição social, da cultura social.
Os sem abrigo têm em comum uma vida difícil em termos familiares, de relação com o mundo e um grande amigo, um cão. Por ele deixam de comer.
Em Portugal, em 2013, havia 852 pessoas sem-abrigo.
É chocante o que as políticas sociais não fazem ao ponto de levar alguns cidadãos e cidadãs à exibição involuntária da sua degradação humana.
Não lhes é permitido o indispensável para viverem. Cada país decreta quais as condições mínimas para se viver com dignidade.
Será que os Portugueses têm as mesmas condições mínimas que os Alemães? As políticas sociais violam, cada vez mais, os Direitos Humanos.
É chocante termos estes conhecimentos e não os transformarmos em acção.
Há muitas definições de “sem-abrigo”, como se isso fosse importante para lhes dar melhores condições de vida.
É curioso que estas pessoas tentem, a todo o custo, manter um resto de dignidade, têm os seus valores e as suas regras. A carga insuportável da miséria povoa-lhes a alma, o que quer que esta seja.
Cruzamo-nos com eles na rua apanhamos o transporte público, chegamos a casa, mais ou menos confortável e não nos lembramos mais do homem que dorme na rua e passa fome e frio. Será que a obsessão de baixar a dívida perante os mercados não vai transformar estas pessoas também em sem-abrigo?
Aconselho a leitura do artigo do Público de 21 de Dezembro, O BUNKER E O PALÁCIO, NÃO HÁ HOMENS SEM ABRIGO, de Paulo Moura.