CRÓNICAS DO QUOTIDIANO – URGÊNCIAS, OU CORREDORES DA MORTE? – por Mário de Oliveira

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Por este andar, as urgências hospitalares correm o risco de converter-se em outros tantos corredores da morte anunciada. Nas quais quem entra por recuperação da sua saúde, acaba cadáver, depois de horas, dias e noites sem um sorriso, um afecto, uma presença, um simples copo de água, acompanhado duma carícia nos cabelos, dum beijo na face, nas mãos. E não tanto por culpa dos médicos/enfermeiros, ainda que também por culpa deles, hoje, a milhas de distância dos de outrora, quando as máquinas ainda não tinham substituído os afectos, a proximidade, o contacto físico, o cuidado, a conversa, a carícia do olhar. E os doentes eram acolhidos como mães, pais, avós, avôs, filhas, filhos, numa palavra, como família, membros da grande família humana. O mais grave é que os governos das nações e os ministérios da saúde, estão a transformar-se em governos e ministérios da morte. E tudo, apesar de subirem os impostos, as taxas moderadoras, o número de hospitais, coisa nunca vista, há menos de um século. Quando alguém caísse doente, muito raramente era retirado da sua casa/família, porque era o médico que saía ao seu encontro. Hoje, o Estado, senhor de tudo, cultiva o mais completo desprezo pelas pessoas mais fragilizadas, mais empobrecidas. Gasta fortunas em assessores, carros de alta cilindrada, secretárias acompanhantes de luxo, viagens inúteis, palácios, deputados, clientelas, num despudor que perfaz um crime de lesa-populações, que nunca chega aos tribunais, porque os senhores juízes também são altos figurantes do Estado, uma espécie de deuses infalíveis, carregados de mordomias, não vá deixarem-se corromper! Tecnologias e máquinas são bem-vindas. Quando não substituem o acolhimento, os afectos, as relações humanas, o cuidado. Urge regressarmos ao elementar: Sem deixarmos de apostar em máquinas, hospitais, tecnologias, apostemos, antes de mais, em médicos orgânicos, formadores das populações, para que sejam médicas de si próprias e umas das outras. Para tanto, matemos, primeiro, o Mercado, em vez de lhe darmos a comer as vidas, os bens, os cadáveres, a alma!

7 Janº 2015

 

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