Também Raul Brandão, em novembro de 1918, no final do sidonismo, escreve sobre o assunto em causa. A sua convicção é a seguinte:
«Porque foi, por exemplo, morto D. Carlos? É fora de dúvida que até os monárquicos receberam com alegria a sua morte. «Não vi lágrimas» – diz Júlio de Vilhena. Eu avanço mais: só vi aplausos. E, no entanto, já hoje se pode afirmar sem erro que D. Carlos não foi morto pelos seus defeitos, mas pelas suas qualidades. Respirou-se! Respirou-se! – O que não impede que, a cada ano que passa, esta figura cresça, a ponto de me parecer um dos maiores reis da sua dinastia. Já redobra de proporções e não se tira do horizonte da vossa consciência. O rei tinha, na verdade, defeitos, mas – diga-se! Diga-se – não foram os seus defeitos que o mataram, foram as suas qualidades. Só o assassinaram quando ele tomou a sério o seu papel de reinar, e quando, com João Franco, quis realizar dentro da Monarquia o sonho de Portugal Maior. Foi esse o momento em que, pela primeira vez na História, os monárquicos aplaudiram um crime que os deixava sem chefe, e se abriram de par em par as portas das prisões, congraçando-se todos os políticos sobre os corpos ainda mornos dos dois desventurados.
O D. Luís pôde ir até ao fim do seu reinado porque, ele próprio o disse, – «um príncipe é um dissimulador». Mas D. Carlos é que não foi nunca um dissimulador. D. Carlos desprezava os políticos. Dizia: – Tu ouve-los falar? Se lesses as cartas que me escrevem, enchias-te de nojo. – Essas cartas existem… Na verdade, toda a gente dizia mal da política e desprezava os políticos: só ele os não podia desprezar. É autêntico também que no seu desdém chegou a envolver o País. Toda a gente, desde o literato ao homem rude, dizia mal do País.»
Também Francisco Manuel Homem Cristo, começando por ser um republicano inflamado, divergiu por vezes não deixando de vergastar amigos e correligionários quando se afastavam do seu pensamento, afirmando-se um verdadeiro “livre-pensador”, no sentido mais lato, mantendo as características fundamentais de um temperamento insubmisso. Fora companheiro de Teófilo Braga, Magalhães Lima, Manuel Arriaga e outros que em janeiro de 1891 dirigiam o Partido Republicano Português. Em princípios de 1910 as suas ideias políticas revelam-se de forma pouco ou nada preocupada com esse passado. Dois artigos; «Regicídio» e «Transigência» tornam bem claras as suas preferências:
«REGICÍDIO
«D. Carlos tinha defeitos graves. Mas era muito melhor e tinha muito mais qualidades do que aqueles que o mataram. Mas mataram-no precisamente quando ele procurava meter na ordem as quadrilhas partidárias. E só por isso o mataram.»
«O crime do Terreiro do Paço foi um crime comum. O mais horroroso crime comum. Tão horroroso que visava à inutilização de uma família inteira, o justo, com plena consciência dos bandidos, pagando pelo pecador. O mais abjeto crime comum porque foi um crime de ambiciosos, de ladrões, que procuravam inutilizar os que, no momento, não só se opunham à satisfação dos seus vícios e crimes, como ameaçavam inutilizá-los para uma futura vida viciosa, criminosa. O mais revoltante do crime comum, porque foram bandidos a matar em nome da moralidade, da verdade, e da justiça. É preciso prová-lo à Europa. Prová-lo ao mundo. E só se pode fazer prova quando se tornar público todo o trama que ainda está oculto. Venha o trama. Faça-se luz que ilumine a inocência dos que são inocentes e a criminalidade dos que são criminosos.»
«TRANSIGÊNCIA
A transigência em princípios representa a falta de convicções e o rebaixamento dos caracteres. Os espíritos da elite, as almas de fina têmpera, não transigem, porque a transigência é o reconhecimento do erro e do crime; transigem os frouxos, os perdulários, os ignorantes e os devassos. Transigem os comodistas e os especuladores de todos os partidos, porque a transigência serve-lhes de anzol admirável para pescar em águas turvas. Transigem os fracos, porque não têm a coragem necessária para lutar com o maior número. Transigem alguns bons, porque a sua ignorância os leva até ao absurdo de pretenderem um meio-termo entre a honra e a desonra, a virtude e o crime, a verdade e o erro. A transigência nunca conseguiu utilidades nas conquistas da ciência, da política, da religião; antes foi constantemente o mais poderoso empecilho do progresso. A transigência é fraca e a fraqueza não se impõe; a transigência é imoral, e a imoralidade revolta os corações honestos. Cristo nunca foi o papa-açorda que os modernos filósofos de água chilra, apontam à massa, sem critério.
O Povo de Aveiro, 6 de fevereiro de 1910.»
Por muito exagerado que pudesse ser, e era, a verdade é que o polémico jornalista de Aveiro expressava opiniões que colhiam muito boa gente do nosso burgo mais distinto. Bem vistas as coisas, aquilo que Homem Cristo defendia não estava muito longe do que, por exemplo, António Sérgio teorizava por essa mesma altura. A correspondência que mantém com Raul Proença testemunha essas posições de Sérgio, em muito semelhantes às do arrebatado panfletário aveirense. Basta referir a carta que envia de Londres, em 3 de dezembro de 1912, para verificar que assim é. Nela pode ler-se: «Quanto ao caso dos nossos últimos Braganças, continuo a considerá-los muito mais vítimas do estado do país do que outra coisa. D. Pedro V foi ao que julgo, das mais altas almas que produzimos; D. Luís e D. Carlos seriam tão bons monarcas ingleses, ou melhores, do que a rainha Vitória ou Eduardo VII. Pense bem o meu amigo na situação insolúvel que é a de um rei constitucional num país cuja vida política é um banditismo anárquico. Ou ele se porta legalmente, deixa jogar o banditismo e se deixa corromper, ou resiste à infâmia e é um tirano. […] Deixe-me dizer-lhe o todo das minhas dúvidas. Sem tirania governa-se e deve-se governar num país educado, constituído, organizado; mas temo bem que sem tirania não será possível meter na organização um país em que o governo, as classes dirigentes são uma súcia de bandidos, charlatães e parasitas, como entre nós. Eu peço a tirania, não a tirania de um, mas uma tirania trocada em miúdos. Em cada repartição, em cada escola, em cada quartel, em cada instituto, um pequeno tirano cheio de boa vontade e de saber concreto, capaz de resistir à força acumulada e asfixiante da imoralidade hereditária, que já deixou mesmo de ser imoral, de tal maneira entrou nos costumes.»
