EDITORIAL – A ALEMANHA PERANTE OS SEUS FANTASMAS

logo editorialA chanceler Angela Merkel, na sua tradicional alocução de Ano Novo, causou surpresa ao condenar os apoiantes da Pegida e ao aconselhar os cidadãos a não se deixarem influenciar por quem alberga no coração preconceitos, frieza e até mesmo ódios. “Somos um povo”. dizem os islamofóbicos, usando noutro contexto a palavra de ordem dominante em 1989. Mas serão os alemães, de facto, um povo?

O nacionalismo alemão não é um sentimento de amor pátrio, pois um estado formado por tantas nações dificilmente, menos de um século e meio após o mosaico germânico ter sido amalgamado, gera patriotismo genuíno. O nacionalismo alemão é uma tese política assente em princípios de superioridade étnica que de 1870 aos nossos dias provocou três guerras, ruínas, milhões de mortos, holocaustos…

São estes fantasmas que estão a assustar muitos alemães. O movimento Pegida está a obrigar a Alemanha a ver-se ao espelho e a imagem que se lhe depara não é a que mais gostaria de ver. Sucedem-se as manifestações islamofóbicas – em Dresden 18 mil pessoas sairam às ruas agitando a palavra de ordem Somos um povo, a mesma ao ritmo de cujo silabar o Muro de Berlim foi destruído em 1989. Esta vaga de xenofobia teve porém o condão de acordar os que querem que a Alemanha seja um país de acolhimento. Manifestações de rua em Berlim e um documento subscrito por 50 destacados cidadãos – políticos, artistas, escritores, religiosos – aparece na primeira página do Bild, o diário com maior venda na Europa – Não à Pegida, diz o título- No interior depoimentos dos ex-chanceleres Helmut Schmidt e Gerhard Schröder, dos ministros Sigmar Gabriel (Economia) Frank-Walter Steinmeier (Negócios Estrangeiros), Wolfgang Schäuble (Finanças), Ursula von der Leyen (Defesa) e Manuela Schwesig (Família), além de personalidades de outras áreas, tais como o popular Oliver Bierhoff, seleccionador da equipa de futebol, campeã do mundo. Todos renegando a intolerância. Defensores dos direitos civis dizem num comunicado – «Jesus vomitaria caso se encontrasse convosco».

Sem duvidar que alguns dos signatários deste e doutros documentos de repúdio pela xenofobia crescente, possam estar animados de genuínos sentimentos democráticos, o democrata-cristão Schäuble põe o dedo na ferida «Os slogans não substituem as realidades – a Alemanha necessita de imigrantes». . E o arcebispo de Colónia, Rainer Maria Woelki, reforça – “A nossa credibilidade depende de sermos uma sociedade aberta”.

Ressuscitar os fantasmas é mau para a imagem de uma Alemanha que, derrotada nas duas guerras mundiais, sempre tem sido ajudada a recuperar. O passo de ganso e a saudação romana são inconvenientes e prejudicam a credibilidade. Mas por detrás das juras de abertura democrática, ninguém se esquece das contorções do rosto de Adolf Hitler, ladrando o seu ódio. Foi há oitenta anos. Foi ontem.

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