MITO & REALIDADE – Terror e Morte em Lisboa – 59 – por José Brandão

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Debruçando-se sobre esta mesma questão, Raul Brandão escreveu o seguinte:

«Não podemos ser um país e fazem de nós um povo. Não fomos feitos para descobrir mundos – havemos de descobrir e criar novos mundos. Todos os fretes que não nos estavam destinados fazemo-los arrastados por essa elite que nos deslumbra: os reis e os fidalgos de outra raça – a raça nórdica.

Evidentemente, eram-nos precisas qualidades, e temo-las: a fidelidade do galego, a sobriedade e a obediência, a admiração pelo fidalgo e um cachaço de propósito para a canga. […]Nem soldados, nem marítimos, nem aventureiros. Erro de toda a nossa história chamar-nos povo de mareantes. Nunca fomos mais que um povo de pequenos labrostes, com costumes simples, fidelidade aos chefes e amarrados às leirinhas. Mas marchamos. Servimos sempre, servimos no cabo das Tormentas, na África, na Oceânia, nas terradas e sarguicéis do golfo Pérsico, nas naus a esbarrondarem-se; servimos onde eles quiseram e até onde quiseram. Pelo ano de 1600 o povo português – essa mescla de raças a que eles insuflaram coesão –, cruzado de cutiladas e queimaduras, dá a impressão dum velho guerreiro que batalhou até ao fim. Condenado à História, deixou os ossos pelas sete partidas do Mundo.»

É na verdade desesperante. Quem somos? O que somos? Quem fomos?

A Monarquia portuguesa foi confusa. A República portuguesa foi a confusão.

Imediatamente à proclamação da República, Ramalho Ortigão escreve mais uma das suas Farpas, agora destinadas ao lombo do novo poder reinante. Como sempre era implacável. Fora assim com a Monarquia, não seria diferente com a República:

«Pobres homens, mais dignos de piedade que de rancor, os que imaginam que é com um carapuço frígio, talhado à pressa em pano verde e vermelho, manchado no lodo de uma revolta num bairro de Lisboa, que mais dignamente se pode coroar a veneranda cabeça de uma pátria em que se geraram tantos grandes homens, a cuja memória imperecível, e não aos nossos mesquinhos feitos de hoje em dia, devemos ainda os últimos gestos de consideração a que podemos aspirar no mundo! Pobre gente! Pobre pátria!.»

Ramalho Ortigão, não estava para deitar foguetes na nova festa republicana. A «ramalhal figura» continuava a ser o grande mestre da palavra escrita, mas em política mantinha-se conservador. Ficara no seu tempo e não contemporizava com a revolução, de que ele havia sido um dos obreiros. Desencantado com o curso da política nacional, demitiu-se, logo após o 5 de Outubro de 1910, do cargo da Academia e do de bibliotecário da Ajuda, que ocupava desde 1895. Nenhuma obra revela tão bem um autor como as suas Farpas, que o colocam entre os maiores e melhores críticos da sociedade portuguesa. Se não gostou da República, e escreveu textos como o anterior, outros, que a essa causa dedicaram toda a vida, escreveram e exprimiram com igual fé aquilo que lhes ia na alma.

Um desses exemplos chamava-se Basílio Teles. Também ele deixou escritos que avançavam ideias audazes e delicadas, como as atrás referidas. Em 1907, no auge da ditadura franquista, Basílio Teles, republicano histórico, tinha proposto no opúsculo As Ditaduras:

«Sim, meus amigos, este povo é ignorante e é indolente, avesso a pensar e a proceder. Incrédulo na aparência, permaneceu sempre bom católico, e, como bom católico, acredita na Providência e nos milagres. A Providência, para ele, começa a surgir, há uns quantos anos, sob a forma, igualmente sobrenatural e maravilhosa, de República. Se, pois, a República, que a nossa deplorável retórica lhe tem apresentado, salvo poucas e louváveis exceções, como uma espécie de divindade, transcendente e tutelar, não fizer desde logo o milagre de lhe liberalizar sossego, bem-estar, fortuna, poderio, e lhe exigir, ao contrário, trabalho, inquietações, sofrimentos, sacrifícios, – a desilusão e o desânimo querem-me parecer inevitáveis. […] Não é o parlamentarismo, por enquanto; falta-lhe larga prática da vida pública, falta-lhe a polarização, em dois partidos, das suas duas tendências curiosas, singularmente equilibradas, conservadora e inovadora, tradicionalista e progressiva, e falta-lhe, sobretudo, essa considerável imprensa, esses bojudos e infatigáveis cadinhos onde as suas aspirações, os seus rostos e cobiças mesmo, são respeitosamente recolhidos e cuidadosamente transformados em ideias. […]Como se pretende então que Portugal, onde o jesuíta e o inquisidor floresceram, onde todos os senhores reis foram sempre humildemente obedecidos, e o Sr. D. Carlos pode, quando queira, proclamar-se rei absoluto; – que um país onde a ignorância corre parelhas com a cobardia e o servilismo, onde ninguém sentiu jamais um impulso sincero de revolta e de protesto, onde o jornalismo pouco mais é que bisbilhotice ou grilheta de forçado, jamais compreendesse a missão dum parlamento! E se o parlamento não é mais, entre nós, que ridícula paródia, não será preferível dispensá-lo quando haja um plano sério de governo a pôr em execução, sem demora e integralmente?»

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