UM DIÁLOGO DE ESPANTAR – por JÚLIO MARQUES MOTA

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Um diálogo de espantar, por Júlio Marques Mota

Não gosto de Piketty. Escrevi muito sobre ele, não me vou repetir. Hoje analiso apenas os efeitos perigosos da maquilhagem que a multiplicidade de autores como ele geram sobre pessoas inteligentes, honestas e de elevada formação cultural mas que não são economistas.

Estou na Avenida Calouste Gulbenkian em Coimbra. Venho para casa. No caminho, e de  passagem por uma arcada de cafés vejo à minha frente sentada a minha filha com uma amiga e do outro lado, a tomar café,  um dos intelectuais desta cidade e deste país que conheço bem de longa data e com quem tivemos em tempos muitas afinidades políticas, num espectro à esquerda dentro do PS. Este convida-me a sentar, o que aceito. Então andas menos pessimista com o pais, pergunta ele. Não, disse-lhe eu, não há nenhum sinal de que se tenha parado na cavalgada wagneriana para o abismo, seja do país, seja da Europa.

Mas as nossas taxas de juro estão baixas. Um bom sinal, não? Não é sinal de que as agências de rating deixarão de contar neste drama? Sendo assim, não estamos nós a caminho de desbloquear a crise?

Tantos pontos de interrogação, pensei para com os meus botões. Olho o meu colega de mesa e de partido, já agora. E disparei: sabes, nós temos obrigações da dívida pública  cotadas ao nível de lixo e taxas de juro ao nível do luxo, do muito luxo mesmo. Não te interrogas sobre esta contradição?

Não há contradição. Significa que os mercados aprenderam e deixaram de ligar às agências de rating. Simplesmente isso.

Aqui, ao ouvir isto  irritei-me. Não meu caro, as agências de rating são hoje um dado estrutural do sistema e tal com o princípio da notação, da certificação, são fundamentais na informação base para a diferenciação, coisa que os nossos governos usam e abusam. Em vez de produzir e de responsabilizar, crias uma máquina de notação, de avaliação. É assim em tudo, e depois ninguém é responsável.   Permite-se assim que haja situações como as de legionelas, onde o Estado não se demitiu porque aí ele não existia sequer porque não havia para ele nenhuma função, uma vez que até a segurança dos cidadãos deixa de ser função do Estado, mas sim dos mercados, dos diversos agentes que supostamente são uns contra os outros; a segurança é então, agora, com os neoliberais e as suas agências privadas, uma questão de serviço privado. O meu amigo é médico e de alto gabarito. A questão posta assim afectou-o. Aproveito a indecisão e volto ao tema das taxas de juro. No caso que aqui interessa não vês que é o Banco Central que por mãos que não conhecemos anda a comprar dívida pública?

Pois, esses tipos haviam de chegar à conclusão que pelo caminham que andavam isto explodia. Ainda corrigiram a tempo, responde-me ele.

Corrigiram a tempo? O que queres dizer, questionei.

Bom, se o Banco Central Europeu anda a comprar dívida pública isso não é uma espécie de euro-bonds?  Claro que é, acrescenta ele bem convicto. E não é isso que é necessário?

Nem penses nisso, meu caro, respondi. O suposto em todo o esquema é o Banco Central Europeu comprar no mercado secundário. Isto significa, portanto, que os homens do BCE apenas têm como objectivo andar a reboque do que querem os mercados e mais ainda … a intervenção pressupõe que os Estados membros aceitem a lógica da condicionalidade, ou seja a lógica da austeridade até ao fim, para que o BCE possa estar no mercado secundário a apoiá-los. Só nessa condição são ajudados. Ou seja o importante é manter o modelo, essa é a função de Draghi, salvar as aparências. Dito de forma mais crua, Draghi quer salvar o euro, matando-o primeiro. Mas Ressureição só houve uma, é o que nos dizem! Por isso, o importante é salvar as aparências, apenas isso. De resto é o que muita gente anda a fazer, a soldo directo ou indirecto dos alemães.

O meu amigo olha-me espantado e pergunta-me: o que queres dizer com isso.

Sei que este meu amigo foi um apoiante em absoluto de Sócrates, sei que é um apoiante em absoluto de Costa. Aproveito este dado e carrego no acelerador. Repara meu amigo, sinceramente vivemos um momento difícil da história em que sendo verdade que não temos nenhum político de jeito à escala nacional, não é menos verdade que também não os temos sequer à escala europeia. Repara em Portugal. De Sócrates passámos  a  Passos Coelho  que prolonga ao infinito o PEC IV, em múltiplas versões cada uma pior que a anterior,  em contradição absoluta com o que foi a sua campanha eleitoral. Vem Seguro e sente-se enfiado num colete de forças sem nenhuma margem de manobra,  aterrado possivelmente com o medo de que poderia ter de  assumir o poder e ter que fazer exactamente o mesmo, governar contra a democracia, na base de uma folha de cálculo, Excel por exemplo, com os resultados fixados  à priori e  sem qualquer aderência à realidade, estabelecidos  pela Troika. É assim na Europa de hoje. Com as políticas cegas praticadas sobre a Troika o país abana,  é  preciso encontrar um substituto para mudar as perspectivas do povo e poder com essa ilusão de mudança manter tudo na mesma: e aí tens o nosso amigo António Costa, disponível para Bruxelas, como Renzi em Itália, como Manuel Valls em França e assim sucessivamente. Não é por acaso que há uma certa cobertura a  estes dois crápulas iniciada por Francisco Assis. Nem que seja necessário vender a alma ao Diabo para conservar o modelo, tudo serve, é este o novo paradigma da clique que está ou quer estar no  Poder ao serviço da lógica do Bundesbank e do neoliberalismo versão alemã. Isto politicamente dá fortes dividendos e mais tarde renumera monetariamente ainda melhor. É o que se tem visto, é o que continuaremos a ver. As intervenções recentes dos deputados do  PS na Assembleia da República  para restabelecimento dos privilégios à classe  política mostram-nos que actualmente pelo Largo do Rato também ainda não há muito a esperar.

O meu amigo pareceu saltar da cadeira, pareceu sentir-se atingido nas suas fidelidades políticas  e possesso diz-me:  mas não te basta acabar com a alta finança? Não foram eles que geraram a crise? O que queres tu dizer com a necessidade de mudar de modelo?

Ao fazer esta segunda pergunta senti-lhe um certo ar sarcástico, como se não possa haver outro modelo económico e social que não este. Meu caro P.A. sejamos claros, a crise não é financeira, a crise actual é a crise de um sistema como um todo, tendo rebentado pelo lado da finança. Mantendo o sistema, é então impossível acabar com a alta finança uma vez que esta é produto daquele. Pura e simplesmente assim.  Apenas isso, nada  mais. Ou será que tu és  um Leopardo como o é Piketty? Mudas a forma e manténs o sistema. A ser assim, o sistema cria  automaticamente uma outra forma. É a velha máxima de Salinas do “mudar alguma coisa para que fique tudo na mesma.”. Revê o filme O Leopardo de Visconti.

Pensar que o problema da crise  é a alta finança e não o sistema que a gera  é pensar que o problema actual é então um problema de liquidez. Nada de mais errado.  Repara que pela via Mario Draghi o sistema tem estado a fazer a sua quantitative easing para o lado errado mas é aquela que coerentemente pode  mesmo  fazer, aumentando com isso a desigualdade. Como assinala um dos mais importantes peritos mundiais, Branko Milanovic,  sobre a desigualdade a propósito de um recente debate em Boston :

Economic theories, says Stiglitz, dealing with inequality fall into two groups. First,  those that are based on marginal productivity and neoclassical production function where the earnings of the factors of production are supposed to be determined impersonally by the market, or where returns to capital are explained by “abstinence” as in the case of Nassau Senior (explicitly mentioned by Stiglitz), or “waiting” (as in the case of Marshall).  The second group of theories regards incomes as determined largely by exploitation, political or economic power, rent-seeking, cronyism, imperfect information, monopolies.

Only Marx’s theory of exploitation among those listed by Stiglitz would be different, because capital earnings do not appear there as unfair, or due to some departure from a “normal” functioning of capitalism, as in rent-seeking, but are indeed part of the normal functioning of capitalism, moreover its very definition.

Tens duas perspectivas, duas visões alternativas da dinâmica social,  duas teorias económicas alternativas de suporte,  para sermos bem claros: ou pretendes que um sistema se alimente da desigualdade de rendimentos, alargando-a, e esta é a situação presente, alargada inclusive pela injecção monetária massiva que o BCE tem feito para salvar os bancos, mas não a economia sublinhe-se uma vez que a tranca da austeridade não é levantada  ou queres, alternativamente, que a dinâmica do sistema   seja exactamente o seu inverso, ou seja, que a dinâmica seja a redução das desigualdades e esta dinâmica foi a que foi seguida por Roosevelt com o New Deal, ou seja a quantitative easing destina-se a outros destinatários, ao  país, ao seu povo  e ao seu futuro. Na primeira hipótese tens como corpo teórico a teoria neoclássica, todos aqueles que têm como base o  conceito chave de produtividade marginal e de função de produção, ou seja os teoremas da teoria dominante. Tens assim um mundo representado por uma dinâmica que tem como motor a desigualdade e onde esta desigualdade é harmonia ! Na segunda hipótese  tens como corpo teórico a teoria marxista, a neo-ricardiana e a keynesiana   em que a repartição depende fundamentalmente das relações e conflitos entre classes  em cada momento e em que ela mesma é representativa destas relações de conflito.

Inversão de modelo, portanto, uma vez que pressupõe exactamente o oposto do que tem sido praticado pelo neoliberalismo durante trinta anos. Reconfigurar, refazer, a sociedade actual é uma tarefa colectiva e de gigantes, é também uma tarefa que exige tempo e adesão colectiva, num jogo de verdade e não de mentiras e de manipulação  como agora se faz e como o mostram bem as tuas posições, tu que és um homem altamente esclarecido. E nestas  duas hipóteses de quantitative easing não abandonamos o capitalismo.  A primeira hipótese conduz-nos à cavalgada wagneriana para o abismo, a segunda leva-nos à possibilidade de reconstruir uma outra Europa, assente na dinâmica dos direitos dos cidadãos, da sociedade como um todo,  e não assente nos direitos dos especuladores, não assente na garantia dos  direitos garantidos,  assegurados,  pela soberania dos mercados. Uma  via exige a austeridade como tem sido praticada, a outra via, a que defendemos, exige um New Deal para a Europa. Esta é a inversão do modelo de que falava.

Há os Tratados a respeitar, responde-me com um sorriso irónico.

Sendo assim, então deixa-te morrer na agonia como está já a acontecer colectivamente mas não te esqueças que assim és cúmplice da morte dos outros, dos que não têm os teus meios bnem os teus conhecimentos  e morrem pois mais rapidamente. Porque assim é, é então  toda a Europa que vai rebentar, respondi.

Olho para o meu amigo de longa data, apoiante absoluto de Sócrates e agora de António Costa. Face à minha cara de espanto, responde-me. E a  Europa não vai rebentar assim. Os alemães não são assim tão estúpidos, vão corrigir o tiro…

Relembro a sua última frase: “ Os alemães não são estúpidos, vão corrigir o tiro”. Com tanto silêncio, o dele  e o que está à sua volta,  este meu amigo não imagina sequer que corrigir o tiro como ele pressupõe pode ser tarde demais. Foi assim na Alemanha em 1933 e os alemães corrigiram o tiro à sua maneira. Tanta gente a meter a cabeça na areia, tanta gente, mesmo psiquiatras, que preferem morrer na ilusão de que um dia o tiro há-de ser corrigido pela potência dominante e responsável em grande parte pela situação de mal-estar que precisa não de ser corrigida, que precisa, isso sim,  de ser profundamente alterada. Tanta gente que prefere a morte lenta  à espera da correcção do tiro  que há-de ser disparado pela Alemanha em vez de  pensar em  lutar para que na União Europeia não haja potência dominante, para não seja necessário o tiro alemão para reestabelecer a mesma ordem na Europa e que imperialmente lhe convém. . Em suma, mudar de modelo significa ser  necessário  que os cidadãos de hoje voltem a pensar a Europa como muitos outros a pensaram aquando do projecto inicial da reconstrução, como no-lo mostra o documentário Jours  Heureux sobre os homens da Resistência que em França e em 1943-1944 traçaram o futuro da França e de um modelo que viria a ser a base da reconstrução da Europa, desta Europa  que nestes últimos trinta anos de neoliberalismo tem andado a ser destruída.

Uma tarefa de gigantes à espera da lucidez e da participação de toda a gente . É pois  necessário uma Europa de diálogo colectivo. E aqui é bom lembrar as palavras de Montaigne, a de que  no nosso combate político tem que ser sempre  necessário “frotter et limer notre cervelle contre celle d’autrui”. Há pois um longo trabalho de esclarecimentos e de debates a fazer, é o que tudo isto  nos  mostra. Um diálogo constante se impõe e em termos colectivos, portanto, face a todos aqueles que manipulados pela central de intoxicação que é Bruxelas e pelos seus retransmissores nacionais, os governos dos Estados membros – e todos aqueles que aceitam vender‑se  por um prato de lentilhas para assegurar  a sua segurança pessoal-  acreditam que a via de sair da crise é pela  austeridade. E muitos milhões pensam assim. Depois uma segunda linha de trabalho crítico deve ser feito contra os Leopardos que se expõem a defender objectivamente a  mesma forma que os anteriores apenas de uma forma mais inteligente e mais difícil de contraposição, portanto bem mais perigosa. Estes aparentemente  oscilam entre os dois corpos de teorias económicas acima citadas mas basicamente fazem parte do primeiro grupo e protegem-se simulando defender o segundo grupo. Exemplo disso mesmo, Piketty que nunca é capaz de recusar o conceito de produtividade marginal! O trabalho destes Leopardos é extremamente perigoso. O diálogo verdadeiro aqui expresso com um amigo meu mostra o efeito de convencimento dos Leopardos sobre as pessoas inteligentes e honestas como este meu amigo, intelectual de reconhecida qualidade.    Mas um combate  frontal se impõe igualmente e em simultâneo contra os inimigos da Democracia para que estes implacável e democraticamente sejam vencidos pela única arma utilizável que os cidadãos podem utilizar:  o voto de cidadania, o voto da democracia real.

Não gosto de Piketty. Escrevi muito sobre ele, não me vou repetir. Vou apenas apresentar um texto  sobre este personagem.

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