PIKETTY, O REVERSO DO REVERSO DA MEDALHA – A ESQUERDA ABANDONA O NAVIO – por RÉGIS DE CASTELNAU

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Piketty, o reverso  do reverso da medalha – A esquerda abandona o navio

Régis de Castelnau, Piketty, le revers du revers de la médaille. La gauche quitte le navire

Revista Metamag, 2 de Janeiro de 2015

O 1º de Janeiro de 2015 vem oferecer-nos como prenda uma destas pequenas controvérsias irrisórias de que o mainstream parisiense muito delira. Thomas Piketty, hoje um economista muito conhecido, figurando sobre os decretos de promoção da Legião de Honra do novo ano, recusou esta distinção. Com muito brio, é o que nos dizem. De espantar!

Não é certamente o primeiro, durante todo o dia os meios de comunicação social aqueceram as gargantas ao comunicarem-nos repetidamente a lista dos seus antecessores nesta recusa. Pessoalmente afirmei  nestas colunas há já algum tempo que a recusa da medalha tinha sempre o seu reverso.

Olhemos de mais perto para a pequena comédia que acabam de nos apresentar. À priori, a propósito do que alguns qualificam de argolada, para que as coisas sejam claras e ao mesmo tempo que se permanece no teatro, reportemo-nos a  Louis Jouvet, o professor de Arte dramática  no filme “ Entrée des artistes.”.  É a inesquecível sequência da lavandaria onde o referido Jouvet se aflige-se ao  constatar “que se lava em família a  roupa suja dos outros…”

 “Sou oficial da Legião de honra, não tenho disso nenhuma  vaidade. Digo-vos estas coisas porque aos olhos de certas pessoas este acessório de vestuário confere aos que o usam um certo prestígio. Este atributo dá-me o privilégio de ser ouvido respeitosamente pelos imbecis. Os outros não me concedem nenhuma atenção a não ser por causa do meu talento, da minha carreira e do meu passado. ”

Deixemos as cimeiras por uma primeira questão. Como é que Thomas Piketty poderia pretender não ter estado ao corrente da proposta de se ver nomeado para esta medalha? O procedimento efectuado sob a direcção da Grande Chancelaria é ao mesmo tempo longo e meticuloso. O processo de proposta deve ser extremamente completo e em parte preenchido pela pessoa indicada. O CV detalhado, relatório de apoio, registo criminal, padrinhos como apoios, etc. A lista dos membros da promoção, uma vez estabelecida pela Grande Chancelaria é aprovada em Conselho de Ministros. Thomas Piketty sabia que figurava na lista. Por conseguinte montou uma pequena operação. Ninguém pode acreditar nele quando este afirma na manhã do 1º de Janeiro: “Acabo de saber que estava proposto para a Legião de honra”.

Dando assim uma  ocasião ao Grande Chanceler, o general Georgelin, de lhe dar  uma pequena lição de saber viver republicano: “A maior parte dos que fazem conhecer a sua recusa publicamente agem assim para atrair a atenção sobre eles ou sobre os  combates em que andam envolvidos. Os que a recusam por boas razões – uma preocupação de independência, um excesso de humildade –, razões que compreendo perfeitamente, arranjam-se sempre para no-lo darem a saber discretamente, antes da publicação do seu nome no Jornal Oficial.”

“Discretamente” não é o registo escolhido por Thomas Piketty. E quais são por conseguinte as razões avançadas para  esta recusa de que ele  quis que seja levado ao conhecimento do bom povo?

“Recuso esta nomeação porque não penso que seja o papel de um governo decidir o que é honorável, o que é honroso”. Aqui, está-se mesmo assim com uma grande lata, para não dizer mais. Mas digam-me,  não será que Piketty faz parte dessa particularidade francesa (como Jean Tirole, aliás) do que se chamam “os economistas de Estado”? É este Estado, ou seja nós os contribuintes, que desde sempre lhes pagamos. É isto que lhes permite, a estes economistas de Estado, assim, fazer as suas investigações e publicar os seus livros. Pessoalmente, teria tendência a pensar que não somente o Estado legitimamente representado por este governo, tem o direito de apreciar o que fazem mas que tem mesmo o dever de o fazer. Acrescentar-se-á à atenção do libertariano de fresca data em que ele me parece ter-se tornado, que numa democracia representativa e republicana  é certamente também esse o trabalho do governo.

E o senhor Piketty terá acrescentado: “ O governo faria bem em se consagrar ao relançamento do crescimento em França e na Europa.» Agarremo-nos bem para não cair de costas. Piketty fez parte com outros destes economistas de Estado do grupo que  que preparou  a ascensão de François Hollande à Presidência. O senhor Piketty claramente e, por várias vezes, apelou a que se votasse em Hollande. Pertencendo a estes pequenos círculos, Piketty sabia pertinentemente o que nos esperava e qual seria a política que seria aplicada.

Ah sim, mas aquilo não é similar. A catástrofe aproxima-se, é inegável. Então é necessário abandonar o barco. Tentando pela recusa da medalha de ganhar um bom  penacho com  este abandono. E pela demagogia dos motivos procura fazer com  que acreditemos que  esta saída se faz por bombordo, pela esquerda, pelas boas razões.

La  Rochefoucauld tinha-nos dito há já muito tempo: “a recusa dos elogios, é querer ser elogiado duas vezes”. Thomas Piketty tentou a passagem por   três vezes. Deixar passar a nomeação no Jornal Oficial, recusar a medalha ao som de grandes trompas e sair pela  esquerda.

O Diabo sempre reconheceu que o defeito que prefere nos homens é a vaidade.

 

Régis de Castelnau, Piketty, le revers du revers de la médaille- La gauche quitte le navire, Revista Causeur .fr.

Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/thomas-piketty-legion-honneur-30870.html

Publicação autorizada pelo director da Revista.

 

 

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