Devíamos falar sobre a União Europeia que nos estão a impingir…
Dois comentários dos órgãos centrais da União Europeia sobre Portugal revelam como Bruxelas é hoje o ninho de serpentes que destruiu o projecto de uma Europa de cidadãos e fez da UE uma gruta (embora muito bem decorada) de gângsteres financeiros e de cabos de ordens dos grandes especuladores mundiais. Um regresso ao Terceiro Mundo.
Público de 22/12/2014:
«Comissão Europeia ataca aumento do salário mínimo em Portugal»
“Relatório diz que aumento para 505 Euros pode abrandar redução do desemprego e dificultar a entrada dos mais vulneráveis no mercado de trabalho.”
Para a Comissão Europeia o aumento de 15 euros no salário mínimo é a causa do grande mal que impede o progresso e o desenvolvimento de Portugal! Até no Luxemburgo uma barbaridade destas pagava imposto. Acontece que o presidente da Comissão Europeia é um Jean Claude Juncker, antigo primeiro ministro do Luxemburgo que, 5 dias depois de ter ocupado o cargo de presidente da Comissão Europeia, se viu confrontado com revelação feita pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação de que, entre 2002 e 2010, (anos em que foi primeiro ministro) 340 empresas multinacionais fizeram acordo fiscais secretos com o governo luxemburguês para obterem impostos inferiores a 1%. Entre as empresas implicadas estão gigantes como Apple, Deutsche Bank, Pepsi, Procter&Gamble, JP Morgan y Amazon, entre outras, incluindo o BES.
Responsável desses acordos, Juncker teve o mérito de os manter secretos, embora não fosse novidade para ninguém que Luxemburgo era um paraíso fiscal. Surpreendente foi a descoberta do grau de implicação do homem que está agora à frente da política da União Europeia, que tem por missão, entre outras, prosseguir uma política fiscal justa e transparente, de lutar contra a desigualdade, supervisionar a entrada em vigor da Taxa Tobin sobre transacções financeiras, melhorar as práticas financeiras e bancárias na UE, promovendo, entre outras medidas mais eficazes sobre os paraísos fiscais. Esta União Europeia entende, pelos vistos, que uma raposa é a melhor guarda para as galinhas! Nós somos as galinhas, claro e, para este comissionista social-cristão, os 15 euritos de aumento do salário mínimo de trabalhadores de um dos países mais pobres da UE é que impedem o desenvolvimento da União! Assim fica claro o que as raposas de União Europeia pretendem: trabalhadores miseráveis ao serviço de banqueiros e multinacionais.
A seguir à Comissão Europeia (mas acima dela em poder de facto) está o BCE. É o Banco Central que determina o “projecto europeu”. Título do JN de 26/12/2014:
«Estudo do BCE diz que trabalhadores têm poder a mais e prejudicam lucro das empresas »
“O poder negocial dos trabalhadores portugueses é demasiado elevado e prejudica os lucros das empresas, conclui um estudo de dois economistas do Banco Central Europeu, divulgado este mês.”
O presidente do BCE é Mario Draghi. Que tem uma ideia da Europa: uma Europa de banqueiros. Foi nos bancos e só aí que fez carreira. Foi Diretor-Executivo do Banco Mundial, Vice-Presidente e Diretor-Geral da Goldman Sachs International (o tal de onde saíram António Borges, Moedas, onde está José Luís Arnaut, por exemplo), foi membro do Conselho de Administração do Banco de Pagamentos Internacionais (Bank for International Settlements – BIS), o banco com sede na Suiça por onde passaram as compensações financeiras das duas grandes guerras europeias, onde os banqueiros da Alemanha nazi e da Itália fascista trocavam ouro por divisas com as potências ocidentais. (Foi através deste banco que a família Espírito Santo, recebeu o ouro nazi como pagamento do volfrâmio). Mario Draghi foi ainda presidente da Comissão de Privatizações italiana.
Em janeiro de 2012, poucos meses após ter tomado posse como presidente do BCE, questionado pelo Wall Street Journal se o modelo económico e social europeu conseguiria sobreviver a tantas reformas assentes na austeridade, Draghi foi categórico: “O modelo social europeu acabou”. Estava apenas a antecipar uma conclusão tirada da cartilha porque se rege. Como qualquer outro sistema, o capitalismo mantém-se graças a mecanismos que lhe permitem restabelecer o equilíbrio de cada vez que seus próprios processos lhe escapam. O Estado Social é um desvio em relação à norma do sistema da absoluta subordinação dos factores sociais como o trabalho, ao capital. Um desvio que foi admitido na Europa para contrabalançar o perigo do comunismo, durante a guerra fria. A queda do muro de Berlim permitiu iniciar o contra-movimento. O papel de Draghi no BCE é integrar a União Europeia na economia-mundo, num novo ciclo do capitalismo, de regresso às suas leis básicas!
A UE encontra-se na fase de transição de ciclo político e económico (ciclos de Kondratiev), num momento em que os detentores dos poderes transferem a liquidez do setor produtivo (menos lucrativo) para o da especulação, com a consequente crise de endividamento dos povos e dos Estados mais frágeis (que estamos a viver) e dos maciços deslocamentos dos capitais acumulados. A crise em que a UE está envolvida explica-se pelos exercícios especulativos a nível global típicos da substituição de antigos monopólios por novos, em resumo: como passar da exploração típica do tempo do colonialismo à exploração da época das tecnologias da informação, mantendo os sagrados princípios?
O actual projecto europeu tem sido camuflado com um patuá de pretensa bondade e racionalidade. Coisas como Pacto de Estabilidade e Crescimento, Tratado Orçamental, Programas de Ajustamento, Austeridade, Reformas dos Estado, Eliminação de Gorduras, Competitividade, vão todas dar ao mesmo. A finalidade é impor na Europa um programa equivalente ao que os EUA impuseram na década de 60 e 70 na América Latina, ou, que a Europa teve durante a época colonial: criar uma oligarquia detentora dos bens de capital que atue em rede com os seus financeiros e que reine sobre uma massa de assalariados sem direitos, apoiada numa tecnocracia fiel.
Parece assim claro caro que não são os 15 euritos de aumento do salário mínimo, nem o poder dos trabalhadores (abaixo os poderosos sindicatos dos precários!) que estão no centro das preocupações dos capos financeiros de Bruxelas.
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