CARTA DE LISBOA – O islamismo contém o mais perigoso dos fundamentalismos – por Pedro Godinho

lisboa

A religião, enquanto forma organizada, tem menos a ver com a crença espiritual que com o acesso ao poder material, embora o faça usando para tal a fé dos devotos arregimentados.

Respondendo à necessidade de muitos, a estrutura religiosa promete a ligação a um poder superior, supremo, capaz de, a seu tempo, tudo explicar e tudo resolver, oferecendo aos incapazes de compreender o natural ou insatisfeitos com a sua realidade -uma promessa de solução simples para todos os males ou dificuldades.

Por convicção assumida ou temor de negar tal força, na eventualidade que ela possa mesmo existir, multidões seguem os designados – por si próprios ou pelos seus apóstolos – representantes terrestres dessa potência celeste. É dessa pretensa representação da força, da verdade e da salvação que os clérigos extraem o seu poder, sobre as pessoas e as coisas – sem ela seriam nada, por isso ela conta tanto e não admite ser posta em causa.

Pela natureza dos alicerces sobre os quais constroem o seu poder, as religiões institucionalizadas têm propensão para a exclusividade – umas local outras universal. E para ver quem não os segue – não crentes e, mesmo, crentes na concorrência – como uma ameaça, a converter ou combater.

Em cada tempo, a liberdade, social e individual, foi sempre ganha contra a vontade das igrejas dominantes – mesmo a liberdade de existência e culto de outras fés – para quem o essencial foi, sempre que pode, impor – com recurso a maior ou menor repressão e violência – o seu modo e verdade como os únicos aceitáveis e a que todos se tinham de vergar.

Foi essa luta continuada contra uma sacralização literal das fontes do poder e da vida – a secularização – que conteve uma propensão totalitária de clericalismos vários e trouxe as igrejas para um mundo mais livre e liberto.

Em todas, nos seus livros e mandamentos sagrados se podem encontrar – basta procurar – afirmações ou propósitos que, levados à letra, são base possível para a opressão e a violência.

Não é por ser melhor ou pior que as outras religiões, mas por lhe faltar esse aggiornamento, que outros já conheceram, que o islamismo persiste com uma influência significativa do seu próprio fundamentalismo, que o torna o mais perigoso para a atual ordem internacional.

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