O plano Draghi, uma farsa, poeira para olhos do povo grego e de todos nós, nada mais que isso
Introdução
Aos argonautas que se inquietam com a central de intoxicação sediada em Bruxelas, Frankfurt e Washington, ou mais precisamente na Comissão Europeia, nas caves do BCE e nos salões polidos do FMI, organismo que não responde perante a ONU, a todos eles a manifestação da minha mais profunda revolta pela campanha desencadeada agora contra a Grécia a partir da mão do mago Mário Draghi e da quantitative easing que acaba de anunciar ao mundo para salvar o euro. Como quem diz para salvar a Grécia também! De forma simples, os gregos não precisam de correr riscos, votando em Alexis Tsipras, votando no Syriza, será pois a conclusão a que se poderia chegar. Abram-se pois alas aos magos, aos homens como Draghi que contornam Tratados marcados a ferros pelo poder alemão a moldar uma Europa às suas necessidades, abram-se alas porque aa crise vai estalar sob o peso dos morteiros disparos de bazooka lançados a partir de território alemão. Não faltarão ignorantes a vender a ciência de que se reclamam, não faltarão políticos como Francisco Assis, a falarem-nos da grandeza do projecto europeu que os políticos actuais estão apostados em defender. A prova? A quantitative easing declarada ao mundo por Draghi, ontem.
Preparamos ontem algumas peças para saudar a vitória da esquerda na Grécia, um texto que analisa in fine o descalabro da política imposta pela Troika e praticada na Grécia por homens sem espinha e sem moral contra os interesses do seu povo, seguida esta peça depois por um outro artigo do principal líder da Oposição a Samaras e, por fim, um texto de Domenico Mario Nuti, um antigo homem da Comissão, conselheiro ao que penso de Delors sobre as questões de Leste, que com algum desespero nos diz que a Europa é uma vaca. Diz-nos Nuti por exemplo:
“O reaparecimento do crescimento, contudo, pôde acontecer demasiado tarde para impedir a desintegração do Euro (exactamente como aconteceu com a ruinosa desintegração da URSS e do rublo em 1992).
Se isto acontecer, então esta nossa Europa terá traído a visão e os valores dos seus fundadores. E nós nem poderíamos sequer ser capazes de gritar sobre o fim inglório do projecto europeu porque a Europa que nós temos hoje não nos serve para nada e o mais certo é que nem mereça as nossas lágrimas.”
Pegando no texto do líder de Syriza podemos ler:
“Uma vez que a austeridade causou o sobre-endividamento sobre toda a Europa, nós apelamos agora para que haja uma conferência sobre a dívida europeia, que estamos certos que contribuirá com um forte impulso para crescimento económico europeu (1). Este não é um exercício a criar o risco moral. É sim um dever moral.
Nós esperamos que o próprio Banco Central Europeu lance um forte programa de quantitative easing (2). Desde há muito tempo que o deveria ter lançado. Este programa deve ser feito a uma escala suficientemente grande para curar a zona euro e assim fazer da frase que se segue uma realidade “faremos tudo o que for necessário” para salvar a moeda única.”
A estes dois parágrafos tomámos a liberdade de acrescentar duas notas. Ei-las:
Nota de Tradutor (1) Esta hipótese deve ser articulada com o quantitative easing de que o autor fala no parágrafo seguinte. A leitura do parágrafo seguinte do texto só por si pode dar ao leitor do blog a ideia simplista de que o aumento de liquidez é suficiente para a saída da crise. Como se alguma vez fosse possível que a solução venha apenas do Banco Central Europeu! A este respeito lembro aqui a afirmação de Domenico Mário Nuti numa mesa redonda, sob o tema “Perspective of European Economic Policy”, que decorreu em Roma, em Dezembro último:“A política monetária por si só não é suficiente para relançar a economia europeia, apesar das iniciativas originais e corajosas do Presidente do BCE Mario Draghi (LTRO, OMTs e outras iniciativas não convencionais), também por causa das restrições de políticas impostas pelos tratados e/ou pelas pressões dos Estados do Norte. É suficiente para isso considerar e compreender as razões do fracasso das política japonesas ditas Abenomics, ou seja, a expansão monetária acompanhada por modestos estímulos orçamentais e reformas estruturais.” |
Nota de Tradutor (2) Nota de Tradutor. Quantitative easing expressão que o Banco Central Europeu (BCE) traduz como “menor restritividade quantitativa”. Não deixa de ser curioso. Pessoalmente traduzia por maior acomodação monetária, por política monetária acomodatícia, pois trata-se de aumentar, de acomodar, a liquidez face às necessidades da economia real, como seria, por exemplo, o caso com o BCE a comprar títulos da dívida pública no mercado primário, injectando assim liquidez na economia. |

