A Liberdade, a cultura, a democracia e a justiça social são as nossas paixões.
DOIS ARTIGOS FINAIS E EM FORMA DE CONCLUSÃO PARA TERMINAR ESTA SÉRIE SOBRE A CHACINA EM CHARLIE HEBDO, UM DE MICHEL LHOMME, O CANTO DO CISNE DA ESQUERDA FRANCESA, E O OUTRO DE ZYGMUNT BAUMAN, O ATAQUE A CHARLIE HEBDO E O QUE ELE REVELA ACERCA DA SOCIEDADE, SERÃO PUBLICADOS EM BREVE EM A VIAGEM DOS ARGONAUTAS. – por JÚLIO MARQUES MOTA
Dois artigos finais e em forma de conclusão para terminar esta série sobre a chacina em Charlie Hebdo, um de Michel Lhomme, O canto do cisne da esquerda francesa, e o outro de Zygmunt Bauman, O ataque a Charlie Hebdo e o que ele revela acerca da sociedade, serão publicados em breve em A Viagem dos Argonautas.
Muito já se escreveu, muito mais se há-de ler ainda sobre o tema. Daqui referencio dois a três apontamentos. O primeiro é a vaga de islamofobia desencadeada na Europa e antes mesmo de Charlie Hebdo. No meu texto de entrada para esta série referimo-nos ao paralelo de se inventar um inimigo, de se inventar um incidente e o caos fica a seguir instalado. Foi assim com Hitler, foi assim com o incêndio do Reischstag, será assim possivelmente com esta Europa comandada por Frau Merkel. E é isto que se começa agora a pressentir. Com o caos instalado é a repressão que vai aparecer a seguir justificada e para tudo aquilo que a estabilidade do sistema exigir. Nesse mesmo texto referia-me a essa vergonha que foi a grande manifestação, ou a grande manipulação, orquestrada por um partido que corria o risco de quase desaparecer politicamente, o PS francês, e condenado eleitoralmente a reduzir-se a uma insignificante importância política exactamente porque ao invés da independência face a Berlim proposta na campanha de Hollande, este optou por ser criado de dois donos, de Merkel por um lado e de Obama por outro. Mas neste último caso interrogamo-nos se o próprio Obama não é ele mesmo fachada de outros poderes bem mais ocultos e sinistros.
E o que devemos salientar é que a opção francesa se traduziu então por uma dura política de austeridade no plano interno e por um belicismo quase que feroz no plano externo e em particular contra os regimes árabes.
Deixemos por agora a questão da austeridade, uma vez que é comum a muitos países e sobre a qual falaremos depois. Em jeito de revisão do belicismo da política externa de François Hollande citemos “A propósito de Charlie Hebdo-El regreso del fascismo” de Jorge Beinstein:
“Uma primeira constatação é a de que a França coloca actualmente de maneira formal cerca de 8 mil soldados em diferentes intervenções militares na periferia, mais de 5 mil na África e importantes contingentes na Ásia central e no Médio Oriente – sendo a sua intervenção mais recente a presença no Iraque com o argumento de combater “o Estado Islâmico”. A intervenção no Afeganistão subordinada às ordens do comando militar dos Estados Unidos terá implicado cerca de 4 mil soldados por volta de 2009.
Embora a operação mais ruidosa tenha sido efectuada contra a Líbia, os bombardeamentos franceses, factor decisivo na intervenção da OTAN, causaram milhares de mortos entre a população civil, importantes centros urbanos foram destruídos, o estado líbio foi desfeito. De acordo com diferentes avaliações após a derrocada de Kadafi de cerca de dois milhões de líbios, cerca de um terço da população total, deixou o país submerso no caos, disputado por bandos rivais. Também a França intervém activamente na operação da NATO contra a Síria introduzindo mercenários e armas.
Dito de outra maneira, o estado francês é hoje uma componente decisiva do dispositivo operacional da NATO embarcado numa estratégia de intervenção global destinada à recolonização ocidental do planeta. O comando supremo corresponde evidentemente aos Estados Unidos e que a estrutura deste comando operacional e desta agressão não é limitada a um pequeno conjunto de acções militares de tipo clássico mas trata-se sim de um complexo leque de dispositivos destinado à desestruturação, à instalação do caos em diferentes sectores “do resto do mundo”, à sua transformação numa massa informe e passiva facilmente prisioneira da depredação[1]. Assim o demonstra a longa série de intervenções ocidentais recentes na Ásia, na África e na América Latina, nalguns casos através de invasões militares como no Afeganistão e no Iraque, noutros combinando bombardeamentos e/a introdução de mercenários como na Líbia e na Síria ou instalando bases militares e inflamando os exércitos locais e bandos paramilitares como na Colômbia mas em todos os casos estimulando maneiras caóticas e ultraviolentas que desarticulam o tecido social incluindo daqueles de que as realidades actuais do México, da Líbia ou do Iraque são um bom exemplo”
Relembremos que o ataque a Charlie Hebdo foi executado a 8 de Janeiro. Sobre esta data e sobretudo sobre a véspera deste dia, a 7 de Janeiro, diz-nos Michel Lhomme:
“Lancemos um olhar sobre o calendário e simplesmente sobre a data de 7 de Janeiro de 2015. Os Palestinianos tornaram-se oficialmente membros do Tribunal penal internacional (CPI) na quarta-feira 7 de Janeiro, apesar das objecções dos Estados Unidos. O facto é de importância porque permitirá a Palestina colocar Israel sob acusação face a este órgão jurisdicional competente para julgar os crimes de guerra. O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, aceitou na quarta-feira 7 de Janeiro o pedido palestino de adesão ao Tribunal penal internacional (CPI) apresentado na sexta-feira, 2 de Janeiro. A adesão da Palestina enquanto que Estado deveria intervir no dia 1º de Abril. Antes deste pedido de adesão, o presidente palestino Mahmoud Abbas tinha feito uma declaração prévia que reconhece a competência do Tribunal para os crimes de guerra cometidos por Israel, aquando da ofensiva militar de Julho de 2014. Autorizando a Autoridade palestina a aderir ao CPI, reconhece-se o seu estatuto de Estado, porque só um Estado pode a este Tribunal aderir. A Palestina tem agora a obrigação de colocar em conformidade o seu direito nacional com o do estatuto de Roma e deve ratificar o acordo sobre “os privilégios e imunidades” que permitirá aos membros CPI trabalhar sobre o território palestino em toda a liberdade. Benjamin Netanyahu arrisca-se a ser procurado por crimes de guerra. Ora, nunca Israel aceitaria que um dos seus soldados fique sob a alçada do CPI. A batalha situa-se agora sobre o terreno político. Assim, a Palestina desejaria que os países europeus, em nome da União europeia, façam uma declaração em que se felicitariam pela adesão deste Estado ao estatuto de Roma, como é o caso cada vez que um Estado adere ao CPI. Esperava-se esta declaração em breve. Os atentados de Paris tornam-na impossível. Bombardear-se-á de novo Gaza.
A 7 de Janeiro de 2015, ou seja cerca de algumas horas apenas antes do atentado contra Charlie Hebdo, uma curta manhã, aparelhava-se discretamente para as costas do Levante um dos nossos submersíveis nucleares de ataque. Com efeito, a 6 de Janeiro, “Mer et Marine” anunciou a partida iminente em missão operacional do porta-aviões Charles de Gaulle com a sua flotilha de acompanhamento para as águas do Golfo, ao com a Síria ao alcance dos seus tiros. O Estado islâmico é o alvo claramente designado. Notar-se-á aqui a notável concordância dos acontecimentos. Ora, o envio dos nossos melhores elementos de combate para uma zona de operação potencial não se improvisa. Levantemos então a questão seguinte: haverá uma relação qualquer entre a chacina parisiense, o electrochoque nacional e ocidental que esta desencadeou e os preparativos de ofensiva em Iraque e Levante tendo como objectivo real a destituição do poder em damasco? Explicámos aqui e largamente argumentámos sobre a questão que a instrumentalização de Daesh visava apenas uma inversão táctica contra Damasco. A decisão de terminar com Damasco no início do ano não teria sido ela já tomada?”
Mas ainda relativamente a esta data fatídica de 8 de Janeiro. Neste mesmo dia noticia o jornal electrónico de Limoges. Lepopulaire.fr pelas 12 horas:
“Um comissário da polícia de Limoges suicidou-se no seu gabinete
O número 2 do serviço regional de polícia judicial de Limoges suicidou-se no seu gabinete, na noite de quarta-feira, dia a7 de Janeiro, disparando uma bala na cabeça…
Trabalhava sobre uma missão da polícia judiciária no âmbito do caso Charlie Hebdo. Este suicídio acontece a pouco mais de um ano após a morte de um outro responsável do serviço regional da polícia judiciária de Limoges. Em Novembro de 2013, o número 3 deste serviço também se tinha suicidado e é o Comissário falecido na noite passada que o tinha descoberto.
Originário de Limoges, este homem de 44 anos tinha começado a sua carreira em 1997 como oficial de polícia judiciária na Direção Regional da Polícia Judiciária em Versalles, antes de regressar a Limoges. Em 2007, tinha-se alcançado o posto de Comissário, após dois anos de formação na escola Saint-Cyr do Monte-Dourar.
Os polícias, já duramente esgotados pelos acontecimentos destas últimas horas, estão numa situação de verdadeiro choque. “Todos estamos abatidos. Era alguém de muito humano e sempre muito próximo de todos nós”, testemunhou Pascal Cayla do sindicato Alliance police nationale”
Sobre este trágico acontecimento noticiava o jornal electrónico Mediapart, de acesso pago, o seguinte: “Suicide” d’un policier de la PJ de Limoges la nuit du 7 au 8 janvier 2015: Etrange SILENCE des médias Français”
Mas a manifestação era sobre a liberdade de expressão e deparamo-nos de imediato com um estranho silêncio. Afirmámos, relativamente a esta manifestação que se desencadeou em nome da liberdade de expressão, que esta representava o show off, em que os dirigentes políticos, os principais culpados da situação de crise que se atravessa na Europa e que muitas mortes tem gerado, se passeavam em protesto contra aqueles que são a sua própria imagem, os assassinos que se escondem por detrás do Islão. Em Paris deu-se uma chacina, muita gente morreu. Sobre isso milhões de franceses estavam sinceramente na rua mas nesse protesto estavam igualmente os responsáveis por muitas outras mortes, mortes sem sangue, mortes por asfixia lenta provocada pela austeridade imposta, muitas mortes contadas já até ao presente e sem estar a estimar as muitas mais que pelo mesmo motivo se hão-de ainda verificar. O pior, cumulativamente, está ainda para vir, avisou a Cruz Vermelha. Pois bem, nesse texto de entrada a explicar as razões das duas séries de textos dissemos que a presença dos políticos naquelas condições na grande Manifestação a sobreporem-se às famílias enlutadas era a violação de tudo o que é sentimento. Certo os políticos não se movem por sentimentos, movem-se por ganhos e, na verdade, os nossos lideres políticos vieram de muitos lados para se passearem cerca de 300 metros e irem depois para casa recolher os frutos políticos desse passeio, continuando a aplicar as políticas de austeridade.
Mas estes dirigentes tinham na boca um só credo, a liberdade de expressão, liberdade de expressão que muitos deles não praticam. Um exemplo bem simples vindo da pérfida Albion onde David Cameron se empenha activamente a defender os bónus da alta finança contra a hipotética regulação pretendida por Bruxelas. Ora falar em liberdade de expressão vindo deste senhor é passar uma enorme esponja sobre os escândalos que por aqueles lados se têm dado a propósito de manipulação de informação. Mais ainda, é esquecer o caso Wikileaks, é esquecer o exílio a que ele forçou Assange a ficar refugiado numa embaixada, portanto ao nível do melhor do comunismo dos anos 50-60, é esquecer a destruição dos computadores do jornal Guardian feita sob sua ordem, é esquecer que os jornais, por obra não sei de quem, talvez da liberdade de expressão destes senhores, nunca mais tenham transmitido documentos vindos de Wikileaks.
Se os efeitos, a provocação de muitas mortes, é o mesmo nos dois grupos de agentes, há, contudo, muitas e fortes diferenças entre eles: os assassinos de Charlie Hebdo são violentos e de espingarda na mão, e os nossos dirigentes vestidos nos melhores alfaiates e com os melhores tecidos fabricados no mundo não saberão possivelmente manejar uma espingarda. Uns, os terroristas, destroem o poder e para isso não hesitam em matar a sangue frio, os outros, os nossos políticos querem conservar o poder e não hesitam em destruir a sangue frio, mas lentamente, muito lentamente enormes estratos das populações, os mais velhos, os desempregados, os reformados. Uns, os terroristas, na sua maioria são crescidos e educados na escola da precariedade absoluta e num mundo sem valores que a riqueza dos outros vai sucessivamente gerando, enquanto os outros, os políticos actuais, vão aplicando modelos económicos e sociais de tal forma violentos para que a precariedade de uns se transforme quase que automaticamente na sua própria riqueza. Veja-se por exemplo a riqueza acumulada por Tony Blair desde que saiu do governo ou os milhões ganhos por Sarkozy a ensinar os homens de Goldman Sachs , depois de sair do governo. Hienas ou chacais, quem é o quê, questionava-me neste texto de apresentação das duas séries. A cada um a sua resposta. Precariedade e pobreza absoluta para uns riqueza para outros eis pois o universo bi-polar criado e pelos nossos políticos aparentemente bem justificado. A propósito de Portugal, como alguém me dizia há dias sobre a miséria no nosso país, onde o ministro da saúde tem sido elogiado por tanta gente e em que muita dela é culturalmente gente esclarecida:
“No domingo passado morreram em Portugal 464 pessoas e a média este ano e já desde Dezembro ultrapassa os 400 óbitos diários.
No passado mês de Outubro houve um aumento anormal de falecimentos.
A continuar esta média, podemos chegar a mais de 140 mil óbitos no ano e uns 85 mil nascimentos. Uma diferença possível de 55 mil pessoas, o que aumenta o Pib per capita, mesmo sem crescimento global.”
Os terroristas matam, a austeridade mata e mata brutalmente. Igualdade de efeitos directos, portanto. Ainda agora, 18 de Janeiro, a televisão informa que um velho de 92 anos com problemas cardíacos morre depois de 4 horas de espera para ser visto por médico. Morre sentado numa cadeira porque não havia macas. Um vivo a menos, um inactivo, uma reforma a menos, economias no sistema de saúde em cuidados de saúde e medicamentos, uma ajuda à correcção da pirâmide populacional, diria um adepto do humor negro. Da nossa parte, reconhecemos aqui, no nosso país, mais um exemplo do que estamos a afirmar, de que a austeridade mata. Todos o sabemos, mas aos responsáveis não damos geralmente nenhum nome.
A austeridade mata e como assinala Bauman:
“Um enorme número de doenças está-se a espalhar. Actualmente muita gente sente o coração apertado pelo medo e pelo desespero, mesmo nos países chamados de ricos. A alegria da vida desvanece-se frequentemente, a falta do respeito pelos outros e a violência estão a aumentar e a desigualdade é cada vez mais evidente. É uma terrível luta para se conseguir viver e, frequentemente, para se viver com uma preciosa dignidade que cada vez mais se torna difícil de sustentar.
Tal como o mandamento “ Não matarás” estabelece um limite claro a fim de salvaguardar o valor da vida humana, hoje nós igualmente temos que dizer “ não matarás” a uma economia de exclusão e de desigualdade. Uma tal economia mata.
Como é que é possível que não haja nenhuma notícia quando uma pessoa idosa e sem abrigo morre pela sua exposição à precariedade absoluta, mas quando o mercado de valores de acções perde dois pontos isso já é notícia? Este é um exemplo da exclusão. Podemos nós continuar a estarmos calados quando, por exemplo, os produtos alimentares são atirados fora quando há tanta gente a passar fome ? Este é um exemplo da desigualdade. Hoje tudo está a ser submetido às leis da concorrência e à sobrevivência dos mais aptos, onde a riqueza é alimentada pela cada vez maior pobreza. Como consequência, as pessoas consideram-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem possibilidades, sem nenhum meio de escape à precariedade absoluta.
Os seres humanos são eles mesmos bens de consumo considerados para serem como tal utilizados e então descartados. Nós criámos “uma cultura de exclusão” que se está agora a difundir.. É já não é somente sobre a exploração e a opressão, mas é também algo de novo. A exclusão tem finalmente a ver com o que significa fazer parte da sociedade em que nós vivemos; aqueles que são excluídos já não são os que estão por baixo da sociedade ou nas suas franjas ou o conjunto das suas pessoas que estão privados do direito de voto – os excluídos estão excluídos de todo e de tudo, já nem sequer fazem parte da sociedade. . Os excluídos não são os “explorados” mas os proscritos, as “sobras”.
E com estes dois textos encerramos a série sobre Charlie Hebdo. Não somos Charlie, claramente que não, estamos profundamente revoltados com o que aconteceu. Creio que os autores que escreveram os artigos por nós publicados se contiveram, e muito, escrevendo o que escreveram, a quente, em cima do drama e onde se começava a insinuar que quem não é Charlie, é por eles, pelo outro lado. Tem razão Gabrielle Cluzel e faço minhas as suas palavras quando recusa o totalitarismo da emoção, não acreditando “que seja necessário sentir-se obrigada a repetir esta frase, toda ela feita como uma encantação, para ter o direito de exprimir a sua compaixão, ter pena das vítimas e das famílias, de falar da sua inquietação”.
Não se pense que foi fácil traduzir e montar esta série pela profunda tristeza e revolta que me ia desde o fundo da alma até à ponta dos dedos com que traduzi, escrevi, o que eu escrevi nesta longa série de artigos.
E é tudo.
Coimbra, 18 de Janeiro de 2015.
[1] Nota de Tradução. Mudança de tempos, Bush pai, a extrema-direita americana de então, impediu o juiz Criesa de avançar com o processo de Paul Singer na confiscação pretendida de bens do estado do Congo. Agora, o democrata Obama deixou que o mesmo juiz e o mesmo especulador abutre pusessem de joelhos a Argentina!