A CAMINHO DA GRÉCIA, A CAMINHO DA LIBERTAÇÃO DA EUROPA – A LUTA CONTRA A AUSTERIDADE – 1. A DEMOCRACIA, «UM PROBLEMA DE TIPO GREGO», por XAVIER THÉRY.

Falareconomia1 Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A caminho  da Grécia, a caminho da libertação da Europa – a luta contra a austeridade

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1. A democracia, « um problema de tipo grego »

Xavier Théry, La démocratie, «un problème de type grec» – Syriza met la politique européenne au pied du mur

Revista Causeur, 26 de Janeiro de 2015

tsipras - IV

Para se desculpar de não vir receber o seu prémio no festival de Cannes em 2010, Jean-Luc Godard explicou que tinha “um problema de tipo grego”. Nunca ninguém chegou realmente a saber o que queria ele dizer com isso, mas a expressão ficou famosa. Hoje temos todos “um problema de tipo grego”. Porque a chegada ao poder da esquerda que é Syriza vai encostar a política europeia contra a parede.

Primeira hipótese, Syriza chega a colocar em causa diversos dogmas liberais que estão ligados à política europeia: o comércio livre integral e o seu corolário que é a precarização dos salários, a baixa dos investimentos públicos e a privatização dos serviços públicos, a deflação e o decrescimento, a desregulação financeira e o seu produto mais novo e agora famoso que é a concentração dos rendimentos e dos capitais entre muito poucas mãos… Se Syriza atingir estes objectivos e se os deixarem fazer a nível da Comissão europeia, então sim, poder-se-á dizer que os dogmas liberais não estão intrinsecamente ligados às instituições e à política europeias.

Segunda hipótese, Syriza vê assumir pela Comissão uma recusa sistemática sobre todas as vertentes da sua política. Saber-se-á então o que é a soberania democrática e a capacidade de um povo em escolher o seu destino. Entender-se-á sem dúvida ainda Christophe Barbier apelar a que se coloque a Grécia sob tutela. Nesta hipótese, será interessante avaliar o tom utilizado pela Comissão: o tom de quem quer ser conselheira e benevolente? Surda e intransigente? Ameaçadora e humilhante? Saber-se-á assim se as instituições que é suposto estarem a representar-nos constituem com efeito uma instância democrática, um Comité tecnocrático, ou um imperium autocrático. A questão é muito importante.

Terceira hipótese, Syriza negocia um compromisso com a Comissão. Em troca do desbloqueio de diversos milhares de milhões para prover às necessidades mais urgentes do povo grego à beira da asfixia, Syriza renuncia a contestar os dogmas liberais. Pode-se já prever que esta é hipótese mais provável: Syriza fez saber que não quer deixar a zona euro (sem estar a dizer porquê) e por conseguinte indica por esta via que se submeterá de facto aos princípios mais fundamentais da União Europeia. Será neste caso interessante aqui também ver até onde é que Syriza vai engolir o seu chapéu e como é que os seus líderes se instalarão confortavelmente no círculo das elites que europeias que nos governam.

A via que vier a ser utilizada de entre estas três hipóteses será esclarecedora para compreender em que mundo político vivemos. É possível na Europa pôr em causa os dogmas liberais, é possível propor uma alternativa às regras supostas sacrossantas e quase que naturalmente evidentes? Recordemos algumas quer sejam elas explícitas nos tratados ou implícitas na prática:

  • A Pauta Externa Comum no entanto prevista pelo tratado de Roma para proteger os produtos europeus de produtos em dumping socialmente já não existe na prática. Está mesmo previsto alargar a livre circulação de tudo e com todos .

  • Os serviços públicos geridos pelo Estado devem ser reduzidos ao seu estrito mínimo em todos os países da União.

  • A fracção marginal de tributação dos rendimentos não deve exceder os 40% (em França estava em 80% sob de Gaulle e de 90% nos EUA sob Nixon).

  • A inflação deve ser a mais baixa possível, com o risco de provocar da deflação.

  • A Europa deve caminhar para uma integração cada vez mais forte com os EUA, no plano económico com a assinatura do Tafta, no plano militar com o reforço das estruturas da OTAN.

Se a Grécia consegue abrir algumas brechas neste muro tão pacientemente construído pelos tecnocratas europeus e por todos os que os apoiam desde há trinta anos, então os nossos países poderão retomar o gosto pela política e sair do marasmo civilizacional no qual nos estamos a enfiar e a afundar . Se a Grécia de Syriza for obrigada a recuar e se assistirmos ao desencadear contra ela todos os demónios do partido da renúncia, então saberemos todos nós que “estamos encurralados num problema de tipo grego”. O mesmo é dizer, temos um enorme problema com a democracia.

Xavier Théry, La démocratie, «un problème de type grec» :  Syriza met la politique européenne au pied du mur. Revista Causeur.

Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/author/xthery

ou

http://www.causeur.fr/grece-alexis-tsipras-europe-31238.html

 

 *Photo: wikicommons.

 

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