LIVRO & LIVROS – POEMAS DE LISBOA E BORDA DE ÁGUA, DE JOSÉ DO CARMO FRANCISCO – por Manuel Simões


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Imagem1 A poesia de José do Carmo Francisco tem revelado uma grande coerência, quer do ponto de vista do “fazer poético”, quer das matérias que informam um discurso que começou com Iniciais (1981), prémio revelação da Associação Portuguesa de Escritores. Mas foi talvez com Transporte Sentimental (1987) que se desenhou claramente um percurso obstinado pelo quotidiano de Lisboa, contrapondo o espaço urbano a uma espécie de geografia sentimental de raiz camponesa, recuperada pela hermenêutica da memória. O que levou Fernando Venâncio, em artigo publicado no JL de 7-12-1993, a formular a interrogação retórica se não será José do Carmo Francisco «quem, de entre os hodiernos poetas, é o “nosso” Cesário, aquele que fará corar para sempre esta nossa cega geração». A evocação de Cesário Verde não é descabida e tem sido revisitada por outros críticos a propósito de alguma similitude no modo de olhar a cidade (Lisboa), sem que a nostalgia de tempos e lugares, rurais ou suburbanos, deixe de apresentar-se como marcas afectivas que condicionam a visão da voz poetante.

 De qualquer modo, é decerto pertinente a perspectiva de Ruy Ventura, no seu estudo sobre a poesia de José do Carmo Francisco, ao analisar precisamente as “Representações da Memória e do Quotidiano”. São dois aspectos omnipresentes na obra do poeta, a sugerir o interesse privilegiado por pessoas e coisas de um universo concreto que atinge, como seria de intuir, um elevado grau de incidência de elementos autobiográficos.

 O novo livro de José do Carmo Francisco, Poemas de Lisboa e Borda de Água (Apenas Livros, 2014) não se distancia de umaImagem2 estética consolidada contra As emboscadas do esquecimento, outro seu texto, este de 1999. E é por isso que o recurso à memória invoca um tempo e momentos de uma história tão fortemente impressa como, por exemplo, na “Balada da Calçada do Combro”, onde o “eu” é inscrito para conceder maior autenticidade ao discurso: «A Rua de todos os dias/ Onde eu ia quatro vezes/ E as noites mais sombrias/ Demoravam como meses//Polícia à porta da Escola/ A proteger as meninas/ O amor era uma esmola/ Pedida noutras esquinas// Poço dos Negros abaixo/ Em cima era o Calhariz/ Na memória que eu acho/ Tudo é escuro e infeliz// Havia a guerra e o medo/ Estava perto a inspecção/ Um poema era segredo/ Na Escola Veiga Beirão» (pp.8-9).

 De resto, é significativo que um importante grupo de poemas tenha como título “Balada” ou “Canção”, recuperando da tradição o seu teor narrativo: “Balada para Salgueiro Maia em São Torcato” ou “Balada do Cais das Colunas”, por exemplo. E um outro grupo, de alguma consistência, é dedicado a “retratos”, outra obsessão do autor já desde o livro de estreia e sem esquecer o volume mais directamente consagrado a uma galeria de personagens de convívio próprio ou imaginário, e que tem como título Pedro Barbosa, Jesus Correia, Vítor Damas e Outros Retratos (2004). Também neste grupo de poemas o discurso reassume os signos da memória, ainda que por vezes através do real transfigurado («Cesário Verde poderia comer aqui o bolo/ No caminho da sua Rua dos Fanqueiros», p. 39); ou na evocação que, porém, assenta em eventos que a História nem sempre resolveu, como na “Fala de Carlos Pato a Alves Redol, 60 anos depois”, onde se confirma o estatuto memorialista com incursão ao universo da “Borda de Água”: «Gerações sucessivas trabalham uma memória/ que há nos prelos das tipografias clandestinas» (p.43). E outros lugares textuais inscrevem este universo, como em “Lamentação da mondadeira de arroz” (pp. 47-48) ou “Retrato breve de Filipa em Vila Franca” («Flor da Lezíria, menina/ em Vila Franca, cidade/ …/ Entre gaibéus e avieiros», p. 61), exemplos, estes, de clara alusão à geografia redoliana.

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