A GALIZA COMO TAREFA – d’um livro velho – Ernesto V. Souza

É muita a tarefa, o tempo pouco, a concentração escassa e as atenções diversas; e vão passando os dias, os meses e os anos. Contribuem a gastá-lo, as frustrações, os desgostos, as cavilações. Os livros, como conversas de amigos ao sol de inverno, ajudam a aproveitá-lo.

Tenho diante ambas as cousas à luz da tarde castelhana: um velho livro amigo. Velho, diria Otero Pedrayo, sem aquela dignidade dos do século XVIII, impresso em tipos muito usados, fazendo irregular mancha na plana, sobre um papel cativo, já mecânico e industrial, e cuja conservação depende mais do lugar onde se encontre que do cuidado das mãos por que passou. Amigo, porque já são muitas as vezes que o venho encontrando nas mais diversas Bibliotecas.

É um manual médico da segunda metade do XIX, para ser mais exatos de 1867. Não é uma dessas joias bibliográficas, ainda que a ruindade e o escasso do livro galego dessas datas faz que adquira o valor – e cotização hoje – do antigo.

b6144e4d1dbd5f128fd01ae36eacfeabGalicia médica. Apuntes para servir al estudio de la geografía médica de Galicia / por el dr. Ramon Otero .- Est. Tip. de José R. Ruibal : Santiago, 1867 (266 + 166 p., 21 cm).

Obra de Ramon Otero Acuña, aquele gaditano de galeguíssimos sobrenomes e ancestrais, que em 1854, chegou como catedrático de Patologia cirúrgica a Fonseca e onde permaneceu, até a sua morte, em 1875. Positivista, romântico, católico e contrário à homeopatia, deixou escola e sentou cátedra naquela fase de consolidação da Universidade Compostelana na modernidade.

Nas escolas francesa e alemã à moda, companheiro do Grande Varela de Montes e de José Montero Ríos (irmão do famoso Eugénio) e colaborador da Revista de ciencias médicas (Santiago, 1856-7) deixou obra médica dispersa e publicada da sua especialidade.

Em 1867, publica esta Galicia Médica…, obra vária, ou miscelânea erudita, interessante pelas questões geográfico, ambientais, botânicas, etnográficas, populacionais, culturais, sociais, que é uma verdadeira fonte de informações num momento capital e convulso da História da Galiza

Pertence, segundo Afonso Mato e González Guitián, ao género das topografias médicas. Que, em auge no século XIX, constituem a principal contribuição bibliográfica da Medicina (em bastantes casos rural) e da observação direta da prática. São representantes de um pensamento médico que começava a prestar demorada atenção aos aspectos ambientais e sociais, como elementos dos processos que afetavam à saúde das pessoas e das comunidades. São, por isso, um claro espelho da mentalidade médica e sócio-cultural do seu respectivo tempo. Daí o seu interesse histórico, e mais neste caso em que Galiza é o campo específico da análise.

Divide-se a obra em duas partes, cada uma com a sua paginação independente; na primeira parte da obra, “Apreciación del País”, Otero descreve a topografia médica galega: montes, rios, geologia , clima, zoologia, botânica, aguas e banhos minerais, vias de comunicação, habitats, condições das casas e edifícios públicos.

Na segunda parte, “Apreciación del Pueblo”, trata da Etiologia social (Historia, Antropologia, Paleontologia, Filologia, Etnografia) e da Fisiologia social (fisionomia física e moral, costumes, tipo geral da gente galega e dos naturais da Galiza, paixões, complexão, temperamento, espírito moral do povo), e termina com alguns dados estatísticos de interesse.

Além de um longo discurso patriarcalmente exemplar sobre a mulher galega comenta um par de vezes a respeito do amor a Terra e da Nostalgia patológica, por vezes violenta, que obriga a que no exército e na armada, seja mesmo necessário tocar ares do país para curar os soldados e marinheiros.

É uma obra interessante, para além do ano, porque os seus tópicos, emanados desde a Autoridade de uma cátedra de medicina, pensamento tiveram o seu impacto, e muitos depois converteram-se em lugares comuns, rastejáveis na época e muito depois.

Sem dúvida oferece, especialmente na primeira parte, um resumo das principais novidades, referencias e ideias, do conhecimento arqueológico, geológico, geográfico do seu tempo, deixando unha imagem idílica da Galiza e uma entusiasta apreciação dos seus habitantes e costumes.

A obra teve uma repercussão certa na época e as suas apreciações e descrições (nadas do mesmo ambiente e pulo nacional da geração de Murguia), podem rastrear-se no Tio Marcos da Portela, nas “ideias naturalistas” dos romances da Pardo Bazán ou nos de Valle-Inclán ou Otero Pedrayo e convertidas em “ideias populares” ainda ecoam como tópicos assumidos dos ensaios dos Vilar Ponte e Castelao.

Destaquemos o interessante capítulo “FILOLOGÍA” (II, pp. 23-56), pois são umas notas de gramática histórica geral, observações ao uso da época e uma pequena antologia literária galega.

Entre os poemas de Alberto Camino, Pondal, Añón, Macias, o prólogo a Cantares de Rosalia de Castro, e algumas das mais repetidas citações de trechos do galego medieval; na cópia de comentários, alguns interessantes outros obsoletos, chamam a atenção os seguintes trechos:

[p. 34] Hay en Gallego además de las consonantes dobles del castellano, las nh que equivale a ñ, y hl [sic no texto], igual a ll. Caminho se pronuncia camiño. Fihlo, fillo, Ohlos, ollos.

Todas las consonantes simples suenan como en castellano, menos la j y la g con las vocales e, i, y la x, en que suele transformarse la s al principio y médio de dicciones derivadas del latin. El sonido de estas consonantes es suave como el de la che francesa, italiana é inglesa, y aunque con cierta diferencia que no puede expresarse, sino de viva voz, todas se pronuncian igual a sch líquidas. […]

[p52] Galicia y Portugal, mientras formaban una sola provincia, no tenian otra léngua que la gallega, comun de las dos: pero luego que se separaron, formando Portugal distinta Monarquia, redujo su léngua vulgár, á arte y escritura, resultando un dialecto; el gallego. Esto explica porque, como dice Duarte Nuñez de Leon en su libro Origen da Lingoa portuguesa, hablando de su léngua, y de la de Galicia, As quaes ambas erao antigamente quasi húa mesma, nas palabras, et nos diphtongos, et pronunciazaó que as outras partes da Hespamha naó tem.

A perspectiva sobre o pais e a gente é positiva, mais próxima no Resumen final à de Miguel Anxo-Murado, que a tópica do vitimismo, a colonização e o atraso.

gm1Gm2gm3Enfim, pode hoje, o curioso leitor, se deter no livro e enxergar com os seus olhos, que não há ainda método melhor que a observação direta, só para deixar constância que algo aconteceu na Galiza após 1875, que muitos rumos mudaram e se apagaram caminhos e esperanças, não apenas em língua e literatura e que em certos aspectos, aqueles médicos do 1867 estavam para além dalgumas gentes e remédios de 100 e mais anos depois.

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