Os índios pré-colombianos que lavraram na costa do Brasil enxames de conchas, conhecidos por sambaquis, cuja cultura material parece ter sido das mais rudimentares, produziram uma arte que, pela sua simplicidade e pela sua pureza, aguenta qualquer comparação com as melhores obras de certas culturas maiores do Antigo e do Novo Mundo. Penso na arte gaulesa, no Egipto pré-dinástico, na Suméria, em Teotihuacan e na China arcaica. É verdade que até hoje nenhum rosto humano foi descoberto, mas erraríamos se daí concluíssemos que eles eram inábeis para o representar. A segurança do seu traço e o polimento perfeito das suas obras indicam que possuíam um domínio pleno da sua arte. Uma tal ausência de rosto humano deve ser assim imputada a crenças mágicas, que implicavam uma acção do homem sobre o meio e em especial sobre os seres de que dependia a sua subsistência.
O Brasil conheceu então, e muito antes da sua descoberta pelos Portugueses, um conjunto descontínuo de culturas, apresentando vagas relações entre si, cuja mais antiga é sem contestação a dos sambaquis. Um único traço as une: chegam todas já maduras ao Brasil e nenhuma é originária do lugar onde foi encontrada, que foi também o lugar da sua perdição. Todas com efeito são culturas sem passado, culturas para as quais não é possível encontrar nenhum traço de desenvolvimento, nenhuma fase arcaica. Todas chegaram ao lugar da sua dissolução no momento em que pareciam ter alcançado o seu apogeu; a linha de declínio é impossível de observar, como sucede com os sambaquis de Miracanguera. Podemos acusar os missionários portugueses de terem envenenado a cultura dos Tapajos e das tribos do Jamundá-Trombetas, mas não teriam elas sofrido, mesmo sem intervenção estrangeira, a sorte comum de todas as culturas arcaicas que se refugiaram no Brasil? Não que este país seja um lugar de morte; as suas regiões tropicais conhecem, porém, um estado onde a vida e a morte estão tão intimamente ligadas que não saberíamos dizer onde uma começa e a outra acaba. A recriação supõe a morte permanente. Duma árvore apodrecida pode nascer uma ilha; a árvore todavia teve de morrer e a ilha por seu lado deverá talvez morrer para que, das suas árvores, nasçam outras ilhas.
BENJAMIN PÉRET (Trecho final de Aspects précolombiens, 1956)

