ENTRE A FORÇA ASSASSINA DE UM GOLIAS (A ALEMANHA) E A RECTIDÃO MORAL DE UM DAVID (A GRÉCIA DE SYRIZA)… – UMA NOTA INTRODUTÓRIA DE JÚLIO MARQUES MOTA A UM TEXTO DE ALEXIOS ARVANITIS

Falareconomia1

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

mapagrecia

Nota introdutória sobre o texto de Alexios Arvanitis

O texto de Alexios Arvanitis será publicado amanhã, segunda-feira, 2 de Março de 2015, em A Viagem dos Argonautas

Um texto estranho, um texto diria eu  de alguém que se projecta para um Leopardo na situação grega e a mostrar-se disponível à União para seu sherpa ou mesmo “para cargo  ainda melhor remunerado . Um texto de um especialista em negociações  e nas relações inter-grupos.

No caso presente não  deixa de ser estranho este texto, texto de um grego e   escrito sobre a actual situação grega, onde ele considera:

“O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble não estava errado quando disse: “as eleições nada mudam. Há regras”. O que o povo grego quer durante as negociações, não é isso que interessa. “

Por outras palavras, o ministro alemão tem razão e, portanto, digamos adeus à democracia, porque regras são regras e estas estão estabelecidas antes das eleições gregas. Não vale sequer a pena fazê-las. Dito assim e por um grego, é coisa que custa a engolir. Mas podemos ir mais longe. Se regras são regras e portanto independentes da  dinâmica social e histórica  não seria mais correcto que este nosso autor então  apelasse  para que a  Alemanha pague  o que Hitler roubou com o empréstimo forçado que obrigou a  pobre Grécia a conceder-lhe?

Como sublinha Domenico Mario Nuti:

“O acordo de Londres de 1953, relativo à  dívida externa alemã, entre a República Federal da Alemanha e os países credores, estipula   que as   obrigações de pagamento resultantes da II Guerra Mundial, seriam  adiadas para  “depois da assinatura  de um tratado de paz” e 3) à parte do custo enorme do sofrimento da guerra, de vítimas e perda de bens materiais, houve um empréstimo que o Banco Central grego foi  obrigado a conceder ao regime nazi, em 1942, de 476 milhões de reichsmarks que os ocupantes não só reconheciam  como  realmente tinham já começado a reembolsar um pouco antes do final da  guerra. Mesmo à modesta taxa de juro de 3% ao ano (embora os empréstimos alemães depois da guerra terão tido normalmente taxas de juros na ordem dos 6%) depois de 70 anos um tal empréstimo teria gerado uma soma considerável de três dígitos expressos em milhares de milhões de euros de hoje. O professor Hagen Fleischer, um historiador da Universidade de Atenas, explica que “Antes de 1990, a Alemanha teve a tendência de referir [que] era muito cedo, porque a Alemanha estava dividida e que era o país como um todo que tinha feito a guerra não apenas uma metade. Assim,  o problema era suposto ser  deixado em aberto  até que a Alemanha, fosse de novo reunificada. Depois da reunificação, contudo, a resposta da Alemanha mudou completamente: já passou muito tempo – agora é tarde demais.”

Regras são regras, mas estas afinal, mesmo na boca deste intelectual grego, só serão exigíveis se  forem convenientes para os alemães. Se forem desfavoráveis, então  tarde demais e não se fala mais nisso. É isso que ele próprio faz!

Mas continuemos. O nosso autor  trata a negociação como um neoliberal trata o mercado, como espaço onde parceiros iguais discutem  e resolvem os problemas comuns. Um espaço entre iguais. Diz-nos o autor:

“De qualquer forma, estas tácticas de negociação duras estavam perfeitamente adequadas na  arena de negociação internacional, quando foi escrito o livro de Schelling, durante a guerra fria. Desde então, eles colocaram definitivamente o pé sobre o travão  dando lugar a uma visão mais cooperativa de negociação. Os resultados mutuamente benéficos, mesmo resultados com ganhos para os dois lados, são agora retratados como o resultado final das negociações”

Como se estes últimos quatro anos não mostrassem à evidência que não se trata de espaço de discussão entre iguais mas sim entre desiguais, onde a lei do mais mais forte necessariamente impera. Basta seguir a trajectória de Sarkozy durante a crise  para perceber como é que ele se vergou às exigências alemães, muitas vezes previamente estabelecidas pelos seus sherpas ou ainda por cimeiras paralelas a anteceder as cimeiras europeias. Que descaramento! Veja-se a mesma sequência com  Hollande, veja-se a mesma sequência com Renzi. Com os diabos,  fazer teoria sobre a realidade e ignorar a realidade é, no mínimo, nojento.

Diz-nos ainda o autor:

“Pode parecer razoável falar sobre  os interesses da Grécia,  até mesmo dos da Alemanha, da Itália  ou da Espanha  mas também é razoável falar sobre as normas europeias que devem ser aplicadas e os acordos anteriores a que o povo grego se comprometeu a respeitar. As discussões devem não só girar em torno dos desejos e das necessidades dos europeus, mas também à volta  dos termos com os quais concordaram em ser governados.

Estes termos estão indissoluvelmente ligados à visão de uma Europa unificada e governada através de  um lento processo de mudança em direcção à  integração política.”

Curiosamente o autor diz-nos que pode parecer razoável falar dos interesses da Grécia…pode, mas os acordos anteriores estão primeiro. Quanto à integração política os últimos 5 anos são de uma evidente demonstração de que a integração política  não existiu e não existe  mas se forçarmos as palavras diremos que  a existir só tem tido um sentido, a de integrar e de submeter os outros países aos interesses imperiais da Alemanha e ficamos com uma Europa germanizada. Como exemplo disso mesmo, sabemos hoje que o modelo europeu faliu por completo e o rebentar da crise da forma como o foi mostra isso mesmo. Os últimos cinco anos têm sido só o meio de a Alemanha fazer pagar à Europa como um  todo  o resgate da sua banca privada e da grande banca internacional. Veja-se a Islândia, a chantagem sobre ela, veja-se a banca alemã afundada na Irlanda e em Espanha tal como o esteve na Grécia em que os créditos públicos concedidos  estavam destinados à compra de títulos que estavam nas mãos da grande banca privada.

Exagero meu? Ouçamos Gesine Schwan, alta figura no SPD, proposta pelo Partido por duas vezes como candidata às eleições presidenciais federais:

“Porque é que os bancos alemães  concederam  à Grécia créditos tão volumosos muito  embora o país já então não pudesse ser de modo nenhum  considerado  como um paraíso de estabilidade financeira, mas sim o seu contrário pois já se agitava a questão de enormes dívidas? Estes créditos entre outras coisas ajudaram  o financiamento das importações gregas vindas da  Alemanha – bom para as  exportações alemãs mas, sabemo-lo agora, tratou-se de dinheiros utilizados  a financiar  contratos como  os que foram feitos com a  Siemens, Rheinmetall e Kraus-Maffei Wegmann, contratos alegadamente ganhos através da corrupção. As empresas alemãs terão alegadamente subornado  os  políticos gregos  do Ministério da Defesa  e ganharam ao mesmo tempo tanto quanto os bancos  alemães  no seu financiamento aos gregos para estas compras.

Em 2010 o governo federal alemão avisou  os gregos que estes  tinham de efectivar a compra dos submarinos contratados (mas supérfluos). Mesmo assim, a frase “os acordos devem ser mantidos” (pacta sunt servanda) poderia parecer normal – como se estes fossem comprados para serem normalmente utilizados  se entretanto tivessem sido  assinados  contratos equitativos.”

Mas o nosso autor tem medo, medo de que a extrema-direita monte o cavalo aguerrido da anti-UNIÃO. Diz-nos ele:

“Tendo em conta estas preocupações, a Grécia tem a responsabilidade de evitar o confronto, as ameaças e as estratégias da ultrapassada teoria dos jogos , que envenena as fundações da UE para  deleite dos  seus oponentes, tais como Marine Le Pen. Um possível acordo sobre a reestruturação da dívida encontra-se no reforço do quadro regulamentar da União Europeia e no apoio à sua integração política. É somente através de um futuro acordo inovador sobre a gestão central da dívida europeia  que a Grécia pode alcançar  o futuro económico sustentável pelo qual anseia. Para atingir este objectivo, a bandeira do  Euro  deve ser içada  ainda mais alto que a bandeira nacional”.

Bom,  as políticas são más, e face a elas a extrema-direita pode subir e ameaçar o belo edifício europeu. Que fazer? Deve calar-se, evitar o confronto,  submeter-se aos desígnios alemães e colocar a bandeira da zona euro bem mais alta que a bandeira nacional!

Este texto que não hesitámos em editar mostra que há gente de sólida formação e de fortes interesses pessoais disponível para servir os interesses propagandísticos da Troika. E não  se trata de gente intelectualmente fraca como a nossa ministra das Finanças a quer mostrar-se a Frau Merkel para que no futuro não se esqueça dela, não,  trata-se isso sim, de gente de sólida formação  mas disponível a entregar a alma ao Diabo e dele ser conselheiro.

Coimbra, 22 de Fevereiro de 2015.

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