A IDEIA – CARTA INÉDITA DE TEIXEIRA DE PASCOAES A ALBERT VIGOLEIS THELEN

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São João de Gatão, 18 d Abril, 1951 (1)

Querido Thelen (2)

Ainda bem que a Madame venceu essa nova crise! Que ela readquira completamente a saúde, é o que eu mais desejo. A Festa (3) correu muito bem! Tão bem, que um grupo de campónios, no Largo de São Gonçalo, comentou: Caramba! Uma festa tão grande para um homem tão pequeno!

Já saiu os Dois Jornalistas (4), Vou enviar-lhe um exemplar pelo correio.

No dia 24 deste mês vou ao Porto fazer uma conferência na Escola de Belas Artes, sobre o António Carneiro (5). E de Lisboa querem que eu lá vá conferenciar também. A velhice do Poeta será o assunto da conferência (6).

Fiz um resumo de toda a minha obra, isto é, do meu pensamento teológico-filosófico-social. Chama-se A minha Cartilha e tem apenas 32 páginas (7). Hei-de mandar-lhe um exemplar passado à máquina pela Zezinha, minha actual secretária. É o que se chama meter 32 pipas em 32 gotas! A minha cartilha será dedicada a Albert Talhoff (8), um Homem que me contempla através duma lente que excede a do telescópio do Monte Wilson!

O pior é a minha velhice! Tenho 173 anos, ó Thelen! Saudades de todos os desta sua casa! Beijos da Adelaidinha! Dois grandes abraços do

Pascoaes

P.S. Brevemente lhe enviarei fotografias da festa. Além dos de cá, vieram 6 fotógrafos do Porto!

NOTAS

  1. Esta carta foi-nos cedida por Ana Andreia Maia, que pesquisa o epistolário de Teixeira de Pascoaes na Biblioteca Nacional e no arquivo da Casa de Pascoaes. A correspondência epistolar de Albert Vigoleis Thelen para T. de Pascoaes foi publicada por Manuel Hermínio Monteiro no volume Cartas para Teixeira de Pascoaes (Assírio & Alvim, 1997). Falta agora conhecer a correspondência do escritor português para o seu tradutor tudesco; é esta, ao que de momento se sabe, a primeira carta que dela se dá a conhecer.

  2. Albert Vigoleis Thelen (1903-1989) é um dos mais importantes escritores alemães do século XX. Em 1953 deu a lume o seu mais conhecido romance, Die Insel des zweiten Gesichts [A ilha do segundo rosto], traduzido hoje em francês, italiano e espanhol. Conheceu por acaso na ilha de Maiorca, em 1936, através duma tradução castelhana, prefaciada por Miguel de Unamuno, o livro São Paulo (1934) de Teixeira de Pascoaes. Consagrou-se a partir daí à tradução da obra do português para o alemão e para o holandês (com Hendrick Marsman). Em 1939, com a invasão da Polónia pela Alemanha, Thelen e a sua companheira Beatrice refugiam-se em Amarante, na Casa de Pascoaes, onde vivem até 1947. Thelen foi um dos elos da privilegiada ligação de Mário Cesariny com Teixeira de Pascoaes. Na secção “Arquivo & Registo” com a colaboração de Nuno Galandim pode o leitor encontrar informação complementar sobre o escritor tudesco.

  3. A festa a que o remetente se refere pode ter sido a apresentação que Teixeira de Pascoaes fez no cine-teatro amarantino do Teatro dos Estudantes de Coimbra no início de Janeiro de 1951 e que deu origem ao folheto, Apresentação do Teatro dos Estudantes de Coimbra, no cine-teatro amarantino, na noite de Reis de 1951. É mais crível porém que se trate da homenagem que teve lugar em Amarante em 31 de Março de 1951, que contou com uma conferência de Joaquim de Carvalho, “Teixeira de Pascoaes, Poeta e Pensador”, e prosseguiu depois em Coimbra, em 12 de Maio, com uma recepção geral ao Poeta pela academia. Saiu na altura um número especial do jornal Via Latina (Ano XI, n.º52) inteiramente dedicado a Teixeira de Pascoaes.

  4. Dois Jornalistas, romance publicado em Março de 1951, no Porto, pela editora de Álvaro Bordalo, Gazeta do Bibliófilo.

  5. O primeiro número de Arte Portuguesa. Boletim da Escola Superior de Belas Artes (Porto, 1952) traz um texto de Teixeira de Pascoaes “António Carneiro”, que teve separata. O texto traz data final, 18 de Outubro de 1950.

  6. Em 14 de Março de 1952, Teixeira de Pascoaes esteve em Lisboa para conferenciar no Conservatório Nacional, a pedido do Centro Nacional de Cultura. A conferência não foi “a velhice do poeta”, cuja redacção ficou incompleta, mas um texto chamado “Da Saudade”, que só veio a ser publicado em 1973.

  7. A minha Cartilha, trinta e duas gotas que valem trinta e duas pipas, verdadeiro testamento de ideias do Poeta, só teve publicação póstuma (Figueira da Foz, 1954). Teixeira de Pascoaes faz aí profissão de fé social num género muito pessoal de anarco-comunismo. Citamos (pp. 28 e 32-3): Tenhamos o culto cristão da liberdade espiritual e da fraternidade amorosa, isto é, da liberdade anarquista e da fraternidade comunista, para empregarmos a linguagem moderna. (…) O anarquismo cheira ao manto esfarrado de São Paulo; e o comunismo ao peixe de São Pedro, esse eterno pescador, como Paulo, esse eterno pregador. Descendem do Cristianismo Primitivo todos os movimentos sociais libertadores. (…) Essa tremenda agitação cristã só findará quando cair, no mundo, aquela estrela abrasadora, de que fala o autor do Apocalipse. (…) Repelimos o culto da miséria material como ofensivo da justiça económica. E repelimos o da miséria intelectual, que nos pretende reduzir a simples máquinas de consumo (alimento) e produção (trabalho).(…) Ser anarco-comunista ou cristão-pagão é defender a justiça espiritual e a económica, o direito à liberdade de pensar em voz alta, e ao pão nosso de cada dia. Tocamos sempre a questão do pão: o do corpo e o da alma. Para os corpos, o mesmo pão; e a cada alma, o pão da sua fome. Espiritualmente há várias fomes; materialmente há uma, que a matéria é unidade, e o espírito multiplicidade. Se os corpos são redutíveis a um só corpo, as almas são irredutíveis a uma só alma. Do mesmo instrumento se exalam as mais diversas notas musicais.

  8. Albert Talhoff (1888-1956), escritor suíço, que entendeu fazer uma síntese entre o teatro grego e a antroposofia de Rudolfo Steiner, interessou-se muito pelas traduções que Albert Vigoleis Thelen fez das obras de Teixeira de Pascoaes. Na homenagem de 1951 da academia de Coimbra ao autor de A minha cartilha foi publicada uma carta de Talhoff: “Carta a Albert Thelen sobre Teixeira de Pascoaes” (Via Latina, Coimbra, Ano XI, n.º52, Maio, 1951). [ACF]

 

 

 

 

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