A IDEIA – I – VISÕES DA NÉVOA: SURREALISMO & BRASIL[1] -por FLORIANO MARTINS

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Em agosto de 2001, escreveu o jornalista Sérgio Augusto que “dois dos mais notórios apóstolos do Surrealismo no Brasil, Ismael Nery e Murilo Mendes, não só acreditavam em Deus como iam à missa aos domingos – onde vez por outra comungavam ao lado de um e outro comunista, pois não há limites para o absurdo neste país irremediavelmente surreal”. Lembrava ainda Sérgio Augusto que, “de qualquer modo, nosso maior pensador católico, Alceu Amoroso Lima (1893-1983),[2] nem esperou a tinta do primeiro manifesto de Breton secar direito para excomungá-lo”.[3]

Temos assim uma ambientação da complexidade que seria a presença do Surrealismo em terras brasileiras. Não são raros os momentos em que Surrealismo e catolicismo protagonizaram alguma polêmica em nossa cultura. Quando em 1934 Flávio de Carvalho teve tanto uma exposição quanto a montagem de uma peça interditadas pela polícia, declarou, como recorda Rui Moreira Leite, que “católicos tradicionalistas teriam sido os responsáveis pela intervenção da Delegacia de Costumes, tanto no Teatro da Experiência quanto na exposição à rua Barão de Itapetininga”.[4] E o crítico Carlos Lima chega a afirmar que “em Ismael Nery, Jorge de Lima e Murilo Mendes vemos a influência surrealista se dissolver em um catolicismo radical, que pretendia restaurar a poesia em Cristo”, concluindo enfaticamente que “todos três são grandes artistas, mas não têm nada a ver com o Surrealismo!”.[5]

Não resta dúvida quanto ao fato de que vivemos em um país católico, mesmo considerando as oscilações desse catolicismo nos dias de hoje. Contudo, isto não quer dizer que não tenha se verificado, entre nós, a presença do Surrealismo. Significa apenas que seus obstáculos foram de natureza distinta daqueles encontrados em outros países, o que resulta em uma aclimatação igualmente distinta. Basta pensar no quanto o Surrealismo era repudiado por Alceu Amoroso Lima e na consequente maneira como esse repúdio interferiu na formação de nossa cultura. Acrescente-se a isto que o Modernismo no Brasil era pautado por duas ações estratégicas peculiares, o sequestro da realidade cultural em Mário de Andrade e a antropofagia de Oswald de Andrade. Ambos ficaram a dever em honestidade intelectual no sentido de fazer referências às fontes onde foram tecer suas bandeiras essenciais. A escrava que não era Isaura, de Mário de Andrade, traça um percurso de identificações com as preocupações essenciais do Surrealismo e, no entanto, como bem recorda Carlos Lima, não há ali “nenhuma palavra sobre Breton que, no mesmo ano em Paris, publicava o primeiro manifesto do Surrealismo e fazia de Rimbaud o ponto de partida de uma nova poética que juntava poesia e utopia”. E logo complementa Carlos Lima que “ele, Mário, tinha chegado às mesmas descobertas, àquilo que ele chamou de ‘polifonia poética’”.

Breton e Mário de Andrade tinham pensamentos opostos acerca da analogia, por exemplo. O que em um era pleno exercício de liberdade, no outro não passava de mera substituição da “coisa vista pela imagem evocada”, constituindo-se assim, a analogia, segundo Mário, em “um dos maiores perigos da poesia modernista”. Ele, Mário, manifestou-se acerca da beleza apenas compreendendo a distinção existente entre o “belo artístico” e a “beleza da natureza”, jamais percebendo a condição convulsiva que lhe indicara Breton. Havia, no geral, certo acanhamento em nossa ruptura, em nossa transgressão.

Evidente que não se encontra aí o impedimento único para um diálogo mais franco entre Surrealismo e a elite cultural no Brasil. Vencida uma primeira etapa, os anos iniciais do Modernismo, vemos aos poucos se desvanecerem aqueles princípios cosmopolitas e internacionalistas que de alguma maneira norteavam a aventura modernista. A rigor, o ponto central desse desvanecimento seria a implantação de uma ideologia nacionalista. Como recorda Wilson Martins, “a consciência nacionalista foi a atmosfera em que se envolviam todos os espíritos, a partir de 1916: é para o nacionalismo que enveredará o Modernismo logo depois da Semana de Arte Moderna, passado o seu instante cosmopolita”.[6] Do nacionalismo exacerbado, por exemplo, do grupo Anta, ao regionalismo, que era um retorno à literatura realista, não houve propriamente um salto, mas antes uma profunda identificação. O que poderia ser visto como uma trajetória estética, fica melhor entendido quando atentamos para as palavras de Valentin Facioli, ao situar que “a intersecção da política nacionalista do Estado, com a força difusa, mas presente em quase todos os níveis da vida cultural letrada, do positivismo, mais o peso extraordinário da Igreja Católica conservadora e mais a simpatia do Partido Comunista, operou uma mudança significativa de rumos na arte moderna no Brasil a partir de 1930”.[7] Considerando todos estes aspectos, cabe ainda acrescentar que os vínculos estéticos estabelecidos pelo Modernismo no Brasil foram muito mais fortes em relação ao Futurismo e ao Cubismo, do que propriamente em relação ao Surrealismo. Este foi penetrando em nossa cultura de forma indireta, tendo como pontos de costura tanto as afirmações de Flávio de Carvalho, Jorge de Lima, Aníbal Machado, quanto as simpatias de Pagu e Murilo Mendes e, posteriormente, a participação mais entranhável de Maria Martins. Talvez se nos concentrássemos mais nesses nomes encontraríamos um melhor ponto de defesa não exatamente de uma influência do Surrealismo, mas antes – e este é um aspecto que me parece sempre mais substancioso – de um diálogo entre partes, pois, como salienta Valentin Facioli, “o Surrealismo nos enriqueceu e nós o enriquecemos”. De outra maneira estaríamos aqui apenas tratando de um predomínio, o que não interessa nem ao Surrealismo nem à cultura em seu aspecto geral.

NOTAS

[1] Conferência dada na Academia Brasileira de Letras. Rio de Janeiro, novembro de 2003. Posteriormente incluída em Escolas literárias no Brasil (coord. Ivan Junqueira). 2 tomos. Rio de Janeiro: Edições Academia Brasileira de Letras, 2004. Texto consideravelmente ampliado para inclusão no livro Um novo continente – Surrealismo e poesia na América (ainda inédito), o que se apresenta aqui é uma versão compacta de sua primeira parte, uma abordagem da primeira metade do século XX.

[2] Alceu Amoroso Lima adotou desde cedo o pseudônimo de Tristão de Atahyde.

[3] “Surrealismo, uma loucura que não deu muito certo no Brasil”. Caderno 2, jornal O Estado de S. Paulo. 18/08/2001.

[4] “Flávio de Carvalho, artista plástico e animador cultural”. Web, portal virtual da University of Essex.

[5] “Vanguarda e utopia – Surrealismo e modernidade no Brasil”. Revista Poesia Sempre # 9. Rio de Janeiro, março de 1998.

[6] Wilson Martins, A ideia modernista. 2a. edição. Rio de Janeiro: Ed. Topbooks, 2002.

[7] “Modernismo, vanguardas e Surrealismo no Brasil”. Conferência proferida no colóquio Surrealismo Nuevo Mundo. Buenos Aires, outubro de 1992.

(Continua)

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