BISCATES – “O país do Oi e a consagração de Portugal ao Espírito Santo”- por Carlos de Matos Gomes

 

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A propósito das audições parlamentares do BES. As outras, pela amostra não devem ser muito diferentes, mas nunca tinha visto. Agora tenho uma ideia do que é uma comissão de inquérito. A primeira diz respeito ao cenário. Estou sempre à espera que chegue alguém daquele corredor em trompe l’oeil e atropele o depoente. Às vezes imagino o emplastro do Porto a fazer caretas à porta. Um cauteleiro a vender lotaria também já me apeteceu ver. Mas, dando-se o caso de agradar a um público mais exigente, podiam exibir o Clooney a beber café em vez do Negrão. A Shakira aos berros em vez da Mariana Mortágua. Uns golos do Ronaldo, uns saltos para a água de golfinhos amestrados. Dêem vida ao corredor! Um cão a passear, a mijar para a parede. O Portas a discursar a sério. Depois do corredor em perspectiva, vem a mesa. Nem para o retrato da última ceia. É claro que os deputados são mais que os apóstolos, mas aquilo é de uma tristeza de pôr os portugueses a dar vivas ao Passos Coelho. Não há umas bolachinhas? Um chazinho? Um sumo? Aquilo é trabalho a seco? É que não se percebe o que estão aquelas pessoas a fazer ali.

Depois do cenário vem a representação. O conteúdo. Pergunta uma deputada, da mesa: Então o senhor… responde o senhor: Não me lembro! E quanto àquela coisa… Está em segredo de justiça! E daquela vez… Isso não era comigo, era com o doutor Salgado. E a propósito do doutor Salgado… De quem? Havia uns empréstimos… Devia haver… E o senhor… Eu recebia ordens do doutor Salgado… Mas… Era um com malas do doutor Salgado e o Perna com malas do engenheiro Sócrates… é assim a vida… Não era administrador… eu era o Espírito Santo, não salgado, sabe… E o senhor Espírito Santo não era administrador? O senhor Espírito Santo anda em procissões…O administrador era o Salgado… Então e o senhor recebeu 1 milhão dos submarinos… Submarinos? Eu só tenho um barquito na marina de Cascais, à vela… não me diga que se afundou… tenho de ir ver… E o milhão? … Isso é com o contabilista… o contable… eu só uso cartão de crédito… E quanto às acções… Na família só o José Maria é que é de más acções… Já ouviu falar num tal Zeinal Bava? Não oiço música… Era o melhor CEO do mundo… Muitos parabéns. Temos gente de valor… O Zeinal Bava diz que também não o conhece… Tivemos um rapaz a trabalhar connosco que era dos serviços secretos esse é que tratava dos desconhecidos… E quanto à PT… Nunca gostei do nome… tive uma cadela a Patucha… também lhe chamavam a PT… Estes da PT vendiam telefones… Quem tratava de telefones era esse tal das secretas… dizia-nos para não falarmos… mas se não falássemos o negócio não andava… Voltando aos telefones e ao senhor Zeinal Bava, já ouviu falar da Oi… Eu peço muita desculpa, ilustres representes do povo, mas não vejo telenovelas brasileiras… isso é para o povo e nós, por muito que gostássemos, não somos povo… O Zeinal Bava não é ator de telenovelas… Acredito, mas é por causa do Oi… Oi é o nome de uma companhia de telefones! Não me diga, mas acredito, o meu neto o Ricardinho apareceu-me outro dia, no Verão, a pedir-me um gelado Épá! Nós não tratamos por tu, nem os gelados. Sabe. Na nossa família nem aos cães chamamos por tu… somos mais de dizer “ó king venha cá e traga a trela sefaxefavor… “ somos assim. O senhor Zeinal Bava diz que empenhou a PT para comprar acções da Rioforte para depois alavancar a posição da PT junto da Oi… Se consegui perceber o que o senhor deputado me disse o senhor deputado e o tal senhor Zeinal são uns génios… além do meu primo Salgado… eu não percebo nada desses planos cruzados… quem sabia era o contabilista e um outro amigo do meu primo Ricardo, uma daquelas sombras que andavam por entre a avenida da Liberdade e Picoas à nossa volta, que nunca soube o que fazia nem quem o recomendara para mandarete, um tal Granadeiro. E só o distingo entre os nossos colaboradores por causa da melena dele a cair sobre os olhos me lembrar o caniche da minha prima Titó… Portanto, insisto, senhor Espírito Santo, quanto à Oi… Pois quanto à Oi eu estou como deve estar o senhor Bava e o senhor Granadeiro a propósito dos diminutivos dos nossos sobrinhos, os nomes dos nossos cavalos, dos nossos iates… não percebem donde vem tanta Kiki e tanto Manecas… Temos também aqui na comissão umas suspeitas… suspeitas só, porque certeza só existe na justiça portuguesa quanto ao engenheiro Sócrates, sobre uma herdade referida nos autos como dos Pinheiros, que por acaso tinha sobreiros e era para construir um campo de golfe… Pois, senhores deputados é consabido internacionalmente que os sobreiros atrapalham os golfistas… é o que sei…o meu primo Salgado é que tratava desses assuntos, eu não distingo um sobreiro de um pinheiro… e sou mais da caça do que do golfe… E quanto a lavagem de dinheiro, tem a algo a dizer-nos?… Sou absolutamente… Absolutamente o quê? Absolutamente a favor… eu nem uso dinheiro… só cartões e de platina… são cartões e dentaduras… só platina…tudo lavadíssimo… E lavavam o dinheiro no Luxemburgo, nas Ilhas Britânicas, nas Ilhas Caimão, na Flórida… Acredite o senhor deputado que não fazia a mínima ideia que o meu primo Salgado andava aí pelo mundo feito uma lavadeira de Caneças com uma trouxa de dinheiro à cabeça a lavar dinheiro… por acaso não lhe tiraram uma fotografia dele disfarçado de Beatriz Costa? O senhor Espírito Santo está a querer dizer a esta tão digna comissão que até representa o povo português que os senhores Espírito Santo tratavam os portugueses como saloios? Eu seja pobrezinho de ir pedir à dona Jonet se quis dizer tal… o que quis dizer foi que nós, os Espírito Santo, estivemos mal acompanhados… com Salgados, vejam os senhores deputados, espíritos salgados… e trocámos tudo… nos negócios dos armamentos, em vez de lá colocarmos um Granadeiro, mandámos um Horta, que devia ter ido para o ramo agrícola da família… enquanto o Granadeiro ficou a dançar o samba com o tal rapaz que diz Oi… que devia ter ido fazer telenovelas… nos submarinos, que deviam fechar hermeticamente para não meterem água, foi colocado um Portas, um portas abertas, dizem, como nos standes dos automóveis… Portanto, posso concluir que o senhor não quer colaborar com esta comissão…. Eu sou um colaborante nato, senhor deputado… ilustres representantes da nação… a questão é que eu não entendo, tal como a maioria dos portugueses não entende,excepto, talvez, a doutora Albuquerque,a respeitável contabilista do governo e o doutor Costa, o simpático gerente da agência do Banco da Alemanha, o que era isso do GES, do BES, do ESFG, da ESI, a não ser que tudo era Espírito Santo… Sim, é voz corrente que eram os donos disto tudo… Uma mentira. Na verdade, ilustres deputados, a verdade é que o Espírito Santo nos abandonou… Eu diria, senhor Espírito Santo, que nos roubou… A senhora deputada Mortágua blasfema… Blasfemo? Mas estamos a falar de religião? Pois estamos minha jovem senhora. Relativamente ao que se diz dos Espíritos Santos, banco e grupo, financeiro e internacional, rioforte e casas de saúde, estamos como os muçulmanos do Estado Islâmico com o turbante e o nariz do Profeta Maomé. Não se pode falar disso. Nem os juízes se atrevem. Nem os dois arcanjos da justiça – o arcanjo Alexandre e Arcanjo Teixeira se aproximam deles a não ser às arrecuas, depois deles terem saído com as malinhas de fazer bulas. Mas se a questão é religiosa… Invejas celestes, senhoras e senhores deputados… Está a querer dizer a esta republicana comissão que os 4 mil milhões que desaparecerem ou subiram aos céus ou foram queimados no inferno? Nem mais ilustre deputada Mariana Mortágua! O senhor Espírito Santo quer dizer então que podíamos resolver o problema chamando o Zeinal Bava com um aparelho da OI e convocar a conferência episcopal e assim resolver o problema? … Se os bispos já responderem ao Oi do tal Zeinal Bava é uma excelente sugestão. O que recomendaria para reabilitar o Espírito Santo e, já agora, recuperar o BES das garras do governo e do Novo Banco, para ressuscitar o papel comercial, que parece ser mais do tipo higiénico do que comercial? Eu recomendaria, se Vossas Excelências forem crentes e não necessitarem de se limpar nas partes baixas, que ressarcissem o Espírito Santo das ofensas a que tem sido sujeito. Portugal, os portugueses, os seus crentes, fiéis e sacerdotes devem aproveitar os fundos estruturais, o dinheirito dos trocos de Bruxelas, para erigirem um santuário ao Espírito Santo, que o redima da atenção que têm dado de forma ostensiva e ofensiva à Senhora de Fátima! Como assim? A Assembleia Nacional, mesmo que republicana e laica, tem de decretar a consagração de Portugal ao Divino Espírito Santo, como fizeram os Açores. Reparem, ilustríssimos e preclaros membros da comissão de investigação aos males da Pátria e do BES se nos Açores o Espirito faliu! E como fazer isso na prática? …Senhor deputado Amorim, essa é a pergunta que a sua respeitável tonelagem nos fazia esperar… Tonelagem… O senhor deputado Amorim pesa aqui nesta comissão tanto quanto os outros…excepto nos dotes naturais… que são voláteis. Os deputados, mesmo para um Espirito como o senhor não se distinguem pelo peso, à arroba… O que eu queria dizer, sem ofender nem o peso nem o discernimento do ilustre tribuno nortenho é que nós, os Espirito Santo, temos uma proposta de resolução do caso BES e correlativos… Depois da dona Branca e do senhor Vitor Gaspar estamos por tudo, até em emprenhar o busto da República com inseminação artificial e entregar o rebento ao senhor Schauble, para o fazer feliz na Alemanha… Venha o milagre que todos temos de fazer um intervalo para aliviar as águas. Qual é a proposta dos Espirito Santo? Fazer notas redondas… Não senhora deputada Mortágua… a nossa proposta é o grupo Espirito Santo estabelecer uma parceria público privada com o governo para utilizar durante 50 anos os terrenos da Rioforte, ali para os lados de Alcácer, para aí instalar uma basílica, com terreiro e infraestruturas adequadas a um lugar de peregrinação que exceda Fátima! A nossa proposta é que a Rioforte, finantialandtourism, Espírito Santo InternationalGroup, passe a ser o altar do Mundo e que o nosso primeiro ministro e o nosso venerando presidente, o nosso recém promovido cardeal consagrem Portugal e os portugueses ao Espírito Santo como o rei D. João Quarto fez com a Nossa Senhora da Conceição e Salazar fez com a senhora de Fátima! Que as dívidas se transformem em línguas de fogo, em cera para velas, alívio de dores, em cheiro de incenso… senhores deputados, esta comissão e vossas excelências estão a um passo de entrar na história e nos céus…

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