Carta do Rio – 40 por Rachel Gutiérrez

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1565 – 2015. Primeiro de Março. Hoje é dia de celebrar, comemorar e festejar a Cidade de São Sebastião do RIO DE JANEIRO.

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Depois de ver os mundos que criara,

Cheios de força, cheios de esplendor,

Deus, em certa manhã formosa e clara,

Não bastando ser Deus, fez-se pintor. (…)

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são os primeiros versos de um soneto do escritor e diplomata Osvaldo Orico em homenagem à nossa cidade. Por sua vez Manuel Bandeira, igualmente reverente, ao festejar há cinquenta anos o quarto centenário, começa um poema deste modo:

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Louvo o Padre, louvo o Filho

E louvo o Espírito Santo (…)

Rio de Janeiro, agora

De quatrocentos janeiros (450 agora!)

Ó Rio dos meus primeiros

Sonhos! (…)

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Para terminar, musicalmente, com a louvação inicial:

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Jamais capital nenhuma,

Rio, empanará teu brilho,

Igualará teu encanto.

Louvo o Padre, louvo o Filho

E louvo o Espírito Santo.

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E Carlos Drummond de Andrade, em Rio em Flor de Janeiro, confessa:

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A gente passa, a gente olha, a gente pára

e se extasia.

Que aconteceu com esta cidade da noite para o dia?(…)

a ela rendo meu tributo apaixonado. (…)

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Andou mais devagar para curtir

essa inefável fonte de prazer

a forma organizada

rigorosa

           esculpintura da natureza em festa, puro agrado

           da Terra para os homens e mulheres

           que faz do mundo obra de arte

           total universal para quem sabe

(e é tão simples)

ver?

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Cidade Maravilhosa, sim, exaltada, cantada e homenageada. Mas também maltratada, sofrida, agredida e profundamente ferida em sua integridade e em sua beleza. Continua mal gerida e mal preservada. No dia de seu aniversário, o ambientalista Pedro da Cunha e Menezes, escritor e diplomata, escreve no jornal O Globo: “Ao longo de nossos 450 anos, tivemos uma relação dicotômica com ela. Ora a destruímos e renegamos, ora a reinventamos em esforços impressionantes.” Além de todas as alterações e mutilações que o Rio sofreu ao longo de sua vida, “… no século XX, houve outras ações de automutilação. Favelas subiram desordenadamente as fradas de nossas montanhas, e nossa incomparável Guanabara virou destino do despejo intermitente de toneladas de esgoto in natura, transformando-a em um dos corpos d’água mais repugnantes do planeta.” E lê-se hoje no editorial do mesmo jornal que o número de moradores das favelas “saltou da faixa de 300 mil, em 1960 ( 15% da população da cidade) para 1,4 milhão em 2010 ( 22% da população)” ! E mesmo que não se possa dizer que existe um apartheid entre os favelados e os moradores “do asfalto”, a desigualdade é gritante e o sacrifício dos que moram nas periferias, com a precariedade do saneamento, a falta da água, e o transporte insuficiente e de má qualidade continua inaceitável. Sem falarmos na violência e na ameaça constante das balas perdidas, nos tiroteios entre policiais e traficantes, que matam cada dia mais inocentes: trabalhadores, mulheres e crianças.

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E a cidade toda podia ser mais limpa, mais verde, mais saudável. Nem tudo está perdido, porém. Graças ao Major Archer, cujo nome, Manuel Gomes Archer, estará para sempre vinculado ao replantio da floresta da Tijuca em 1862, por ordem do Imperador D.Pedro II, ecologista visionário avant la lettre. Talvez a maior floresta urbana do mundo (com 32km²), é a prova viva de que os homens podem reverter os processos de desmatamento para evitar problemas ambientais. Esse feito histórico inspira atualmente “a implementação dos Corredores Verdes na Zona Oeste e o Mutirão Reflorestamento, que já plantou mais de um milhão de mudas em 20 anos”, recuperou e transfigurou as encostas da cidade. Existe também o projeto da “Trilha Transcarioca, que pretende ligar com corredores ecológicos as matas cariocas desde o Pão de Açúcar até Guaratiba.” Não foi por acaso que o Rio de Janeiro sediou Rio-92 e Rio+20, “as duas principais conferências sobre meio ambiente da história planetária”, como diz o ativista Cunha e Menezes.

Apesar dos problemas, não se pode esquecer que o Rio possui encantos muito peculiares e sedutores: o bom humor e a espontaneidade de seu povo são realmente surpreendentes. Sua criatividade e seu engenho muitas vezes compensam o baixo grau de escolaridade e a falta de recursos.

E até o carnaval, festa do povo por excelência, pode ter também seus escândalos, como o do último financiamento da Escola de Samba Beija-Flor pelo tirano milhardário da Guiné equatorial, que deixa morrer de fome seu próprio povo. Mas o contraste compensatório vem logo: a inventividade de outra Escola, que transformou tecnologicamente seu símbolo, a Águia, em monumental pomba da paz ou Cristo alado, como a definiu a escritora e acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira, que também a chamou de redentora. E tem-se vontade de gritar: Viva a Águia da Portela! E viva o Rio de Janeiro, que é mar e é sol e é luz, e hoje e sempre, para cariocas e não cariocas, irresistível resplendor.

Como disse outro poeta, Geir Campos:

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cidade minha

quase digo

e pauso

e penso

em verdade

sou eu

que a ti

pertenço.

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E quem melhor do que Tom Jobim para cantá-la?

1 Comment

  1. Está quase a fazer quinze anos que, pela primeira vez, espero que não venha a ser também a última, estive no Rio de Janeiro. Entre o Rio e a Foz do Iguaçu, estive 12 dias no Brasil. Foram das melhores férias que alguma vez tive. Estávamos em Maio, e as gentes e os lugares ficaram-me para sempre gravados.
    Rio, cidade maravilhosa.
    Um abraço, do outro lado do Atlântico.

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