FRATERNIZAR -Via-sacra apresentada numa igreja de Lisboa – por Mário de Oliveira

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Como, para crentes e não-crentes?!

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Um livrinho a duas mãos. De dois crentes assumidos. Cristãos católicos. Um filósofo e um gestor de empresas. O filósofo escreve para não-crentes e permite-se não ser tão rigoroso assim, já que o seu público-alvo, em seu entender, não percebe nada da temática e por isso os seus textos podem conter alguns disparates. É o próprio que o diz, numa entrevista televisiva na RTP 2, mas em tempo de antena da responsabilidade da igreja católica em Portugal. Já o gestor de empresas escreve para crentes. Os disparates também por lá abundam, mas o próprio não o assume, pelo menos, nas breves palavras que o mesmo programa Ecclesia regista da sessão de apresentação. Não se duvida que a intenção dos autores seja a melhor. É, com certeza. Mas não bastam boas intenções. É preciso qualidade, profundidade, honestidade intelectual com a realidade. E a realidade mais real, dentro da História da humanidade, são as vítimas, cada vez aí em maior número, sem que crentes e não-crentes, os auto-denominados ateus ou agnósticos, se preocupem tanto assim com elas e com as causas objectivas que as produzem. Desde que não sejam da sua própria casa. Da sua própria família. É o grande pecado dos filósofos e da generalidade dos intelectuais. Habitualmente, não integram o número das vítimas. Vêem-nas da janela da sua confortável casa, ou pelo retrovisor do seu carrão de alto custo. Não são vítimas, nem as frequentam. As suas práticas e posições políticas são cuidadosas, prudentes o bastante, para não lhes causarem sarilhos. São práticas muito cristãs, ainda que religiosamente ateias ou agnósticas. Não são jesuânicas. Não são orgânicas, vasos comunicantes. Apenas politicamente correctas. Como os textos-meditação deste livrinho, porventura, bem-intencionado, mas demasiado moralista, para ser fecundo, libertador.

 Diz-se, logo em título de capa, um livrinho para crentes e não-crentes. Como, para crentes e não-crentes, se até a sessão de apresentação acontece neste tempo que o calendário da igreja católica, completamente desfasado do calendário da sociedade portuguesa, europeia, ocidental, cada vez mais secular, laica, classifica grosseiramente de “quaresma”, por isso, coisa eclesiástica, clerical, de sacristia, e, cúmulo dos cúmulos do mau-gosto, no interior de um templo católico de Lisboa, exactamente, a igreja dos mártires? Acham os autores que os não-crentes se sentem motivados a sair a uma apresentação de um livro que se diz direccionado também para eles, quando ambos escolhem o espaço de um templo católico da capital para o fazer, ainda com a agravante dele ser apresentado pelo catolicão, Prof. Marcelo Rebelo de Sousa que opina sobre tudo e sobre nada, mete os pés pelas mãos, sempre que isso lhe dá jeito para subir na pirâmide do poder, nunca o calvário dos condenados, como Jesus Nazaré, o filho de Maria, exactamente, por recusar ser poder davídico, o da Bíblia judeo-cristã? Além disso, um livrinho, como este, escrito a duas mãos, de dois cristãos, não pedia, pelo menos, na sessão de apresentação, dois apresentadores, um deles, de preferência não-crente, entenda-se, não-cristão, já que crentes, até os que se dizem ateus e agnósticos, são, resta apenas explicitar de que Deus em concreto é que não são crentes?

As quatro narrativas da paixão e morte de Jesus Nazaré, o filho de Maria, em cada um dos 4 Evangelhos canónicos em 5 volumes, não constituem, de modo algum, o que a igreja católica veio a classificar como “via-sacra”. A designação já é uma interpretação. Autoritária. De cima para baixo. Por isso, interesseira. Não corresponde à verdade histórica. É puramente doutrinal, conceptual, dogmática. Os dois autores do livrinho parecem desconhecer este dado objectivo, que faz toda a diferença. Com Jesus Nazaré, não há nenhuma via-sacra. Há um crime, o maior crime da história da humanidade, que é simultaneamente de lesa-humanidade e de lesa-Deus que nunca ninguém viu. Chamar-lhe “via-sacra” é uma sacrílega tentativa de branqueamento do crime, desse modo, transmutado em sacrifício redentor, o que o torna ainda mais horrendo. O judeocristianismo precisa deste branqueamento, assim como precisa de impor esta sua interpretação dogmática aos povos do império romano e demais povos das nações, cujo inconsciente colectivo anda marcado pelo primitivo religioso que inclui, nas suas míticas narrativas das origens, a existência de um “pecado original” que teria sido praticado no início, e que é a causa de todo o sofrimento, inclusive, da própria existência da morte. Nada mais, científica e teologicamente, falso, pelo menos, à luz da teologia de Jesus. Nem os começos da vida humana são assim, nem Deus que nunca ninguém viu é assim, como rezam essas míticas narrativas religiosas, inclusive, bíblicas, das origens. O sofrimento dos seres humanos tem causas históricas bem concretas, científicas, da responsabilidade dos seres humanos, em especial das minorias privilegiadas, ilustradas, criadoras de sistemas de opressão, domínio, exploração. Já a morte, ocorrida no fim do outono da vida, faz parte do ciclo da vida, tal como o acto de nascer. Não tem a ver com castigos. Pelo contrário, tem a ver com a vida que, para poder prosseguir em dimensões outras, precisa de passar pelo parto, primeiro, da respectiva mãe e, finalmente, pelo parto da mãe-erra, mas a que, por oportunista terrorismo, se convencionou chamar morte, quando, bem vistas as coisas, é a plenitude da vida que se torna definitivamente invisível, porque reduzida ao essencial.

Por ver as coisas assim e por gastar toda a sua vida histórica, enquanto lhe foi possível, a praticar e fazer passar esta boa notícia às vítimas desses sistemas, que soa, obviamente, como má notícia aos ouvidos das minorias criadoras e beneficiários desses sistemas de iniquidade, é que Jesus Nazaré é vilmente perseguido, caluniado, traído, preso, julgado, condenado à morte pelos chefes religiosos, políticos e económico-financeiros e, por fim, executado na cruz do império. Como o maldito, segundo a Bíblia judeo-cristã, a mesma que fundamenta o judeocristianismo, a existência de igrejas cristãs, a católica romana e as protestantes, criadas e mantidas com o objectivo de continuarem a branquear o crime de lesa-humanidade e de lesa-Deus que nunca ninguém viu – a morte crucificada de Jesus – antípoda do Deus de Moisés, de David, dos profetas, dos salmos, numa palavra, do Deus da Bíblia judeocristã/Alcorão.

É pena, muita pena, que os autores deste livrinho desconheçam toda esta realidade. Pelo que a sua “via-sacra para crentes e não-crentes”, editada pelas Paulus Editora, resume-se a um chorrilho de sonantes palavras vazias de realidade, ainda que carregadas de fino e erudito moralismo, destinado a anestesiar consciências, antes de mais, as dos dois autores e respectivos editores. E neles, as consciências dos cristãos e dos ateus do deus das religiões, todos mais ou menos praticantes do deus que fundamenta, dá cobertura aos sistemas cientificamente criados para produzir vítimas em série, sofrimento em série, numa palavra, este tipo de mundo onde já nem sequer as crianças querem continuar a nascer. Se quiserem experimentar a verdade do que aqui fica escrito, manuseiam, por uns breves minutos, este livro, nalgum posto de venda de livros, sem necessidade de chegarem a adquiri-lo. Não merece a despesa.

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