NESTE DIA… Em 11 de Março de 1975 – 2

nestedia3Hoje é o dia 11 de Março.

Em 11 de Março de 1975, faz hoje quarenta anos, quase onze meses decorridos sobre a Revolução, aconteceu o que se previa desde que o regime ditatorial foi derrubado: uma reacção revanchista da direita. Sentia-se que essa reacção estava iminente, pois a instabilidade social, a luta entre partidos, a deriva para a esquerda… de dia para dia, a Revolução assumia contornos que os conservadores consideravam de um esquerdismo radical. Em alguns posts, distribuídos ao longo da edição de hoje, iremos lembrando o que de mais significativo aconteceu nesse dia em que a Revolução foi posta à prova. No primeiro post apresentámos muito sumariamente as razões que levaram a direita spinolista a desencadear o golpe. Vejamos como reagiu o MFA.

As forças fiéis preparam a defesa

11:15 – A B.A.6 (Montijo) entrou também em prevenção rigorosa.

11:30 — Todas as Unidades da Força Aérea passaram a prevenção rigorosa. A esta hora chegaram à B.A.5, num Aviocar vindo de Tancos, o coronel Orlando Amaral e o tenente-coronel Quintanilha. Recebidos pelo comandante da Base, e na presença dos majores Simões e Ayala, enunciaram os tópicos da operação. Invocando o general Spínola, pediram a Velhinho que enviasse aviões F-86F para fazer passagens baixas de intimidação sobre o RAL1, a Avenida da Liberdade e o quartel-general do COPCON. Desconfiado, o comandante telefonou CEMFA, não obtendo resposta conclusiva. Entretanto o major Simões fez um briefing com os pilotos da esquadra dos F-86F, repetindo o que escutara no gabinete do comandante da base. Alguns oficiais manifestaram-se imediata e abertamente contra, recusando-se a aderir àquilo que, desde logo, configurava um golpe de direita.

11:45 — Chegaram à B.A.3, de helicóptero, o brigadeiro Lemos Ferreira e o tenente-coronel Sacramento Marques, delegados do C.E.M.F.A. e C.E.M.E., procurando esclarecer a situação.

11:45,/11:50 – O RAL.1 começou a ser atacado pelos T6 da Base Aérea nº 3, sendo atingidas as casernas dos soldados e os principais edifícios do aquartelamento. Morreu o soldado Joaquim Carvalho Luís e houve 15 feridos e muitos estragos nas instalações da unidade. Neste, ataque foram consumidas 220 munições de metralhadoras calibre 7,7mm e 99 foguetes Sneb 37mm anti-pessoal dos T-6 e 318 munições de MG-151 de 20mm dos helicanhões.

11:50 – Na base do Montijo aterraram dois helicópteros Alouette III, estando um armado. O héli desarmado aterrou numa das ruas de acesso à placa, tendo deixado um pára-quedista ferido e cujo piloto, o alferes Chinita, também ferido, viria a ser recuperado pelo heli-canhão uns metros mais à frente.

12:00 – Tropas pára-quedistas, do Regimento de Pára-quedistas de Tancos, sob o comando do major Mensurado cercaram o RAL 1. À mesma hora o COPCON iniciara a movimentação para neutralizar o golpe, ocupando o Aeroporto e encerrando-o ao tráfego civil No Quartel do Carmo, oficiais da G.N.R. no activo e outros afastados do serviço, comandados pelo major Freire Damião, prenderam o comandante-geral e outros oficiais fiéis ao MFA.

12:05 – As forças do RAL 1, comandadas pelo capitão Diniz de Almeida, tomaram posições de combate e estabeleceram um perímetro de segurança, ocupando prédios em frente do quartel.

12:20 – Da Base de Tancos descolaram três helicópteros Allouette, com 12 elementos para sabotar as antenas do Rádio Clube Português, em Porto Alto. Um deles estava armado com canhão, sendo pilotado pelo segundo-sargento Leitão, tendo ao canhão o segundo-sargento Bernardo de Sousa Holstein. Os outros dois eram pilotados pelo alferes Laurent e segundo-sargento Serra. A esta hora, da Base do Montijo descolaram cinco helicópteros com destino a Tancos tendo um deles levado o pára-quedista ferido ao Hospital da Força Aérea no Lumiar e juntando-se aos outros na Chamusca.

12.45 – No exterior do RAL 1 ocorreu o diálogo entre o capitão Diniz de Almeida e o capitão pára-quedista Sebastião Martins gravado pelas câmaras da RTP: “Diniz de Almeida: – porque é que o camarada não vem comigo ao COPCON? Reconhece ou não a autoridade do COPCON? o General Carlos Fabião, o Chefe do Estado Maior do Exército? Os nossos chefes deram-nos ordens contrárias…A si de atacar…a mim de me defender…Porque não deixamos que eles discutam o assunto? Sebastião Martins: – As Forças Armadas não estão consigo. Diniz de Almeida: – Se assim for, não terei a mínima dúvida em me render à maioria. Mas, que eu saiba, o Exército está connosco, a Marinha está connosco, só vocês é que não. Sebastião Martins: – Vamos ver. Vamos então esperar que os nossos chefes decidam.” Os dois comandantes, Coronel Mourisca do RAL 1 e Major Mensurado dos pára-quedistas deslocam-se ao Estado Maior da Força Aérea para esclarecer a situação e tentar um acordo, o que só foi obtido pelas 14.30 horas.

12.45 – Lançados apelos à mobilização popular pela Intersindical. Levantaram-se barricadas nas estradas de Vila Franca e Setúbal. Organizaram-se piquetes de trabalhadores em locais estratégicos: Bancos, Emissora Nacional, etc. A população, em diversos pontos do país, acorreu aos quartéis, pedindo armas e colocando-se à disposição dos militares.

12:50 – Começaram as reacções oficiais ao golpe. A 5.a Divisão emitiu um comunicado a todas as Unidades do Exército, Armada, Força Aérea, G.N.R., P.S.P. e G.F.: “O COPCON, a Comissão Coordenadora do M.F.A. e a 5.a Divisão do E.M.G.F.A. alertam todas as unidades para se colocarem em estado de mobilização para destruir forças rebeldes contra-revolucionárias que neste momento atacam unidades do M.F.A..” Este rádio foi seguido de outro semelhante enviado para comandos militares das Ilhas Adjacentes e de África. Vendo o golpe fracassar, Spínola tentou aliciar, pelo telefone, o major Jaime Neves, comandante do Batalhão de Comandos nº 11. Este respondeu que só obedeceria à hierarquia a que estava sujeito. O general ligou depois para o tenente-coronel Almeida Bruno que se recusou a atender. Desesperado, ligou ao tenente-coronel Ricardo Durão tentando obter deste e do capitão Salgueiro Maia, a adesão da Escola Prática de Cavalaria. Durão e Maia não atenderam.

13:00 – O RCP deixou de transmitir em onda média, de Lisboa, continuando a emitir em frequência modulada e onda média do Porto. Um grupo de civis armados, comandados por dois militares atacou o emissor, transportados em dois helicópteros, seguindo num o major Silva Marques, António Simões de Almeida, João Alarcão Carvalho Branco e José Carlos Champalimaud e no outro o 1°tenente Nuno Barbieri, José Maria Vilar Gomes, Eurico José Vilar Gomes, António Ribeiro da Cunha e Miguel Champalimaud. Deste ataque resultou a paralisação da emissão e a destruição de material. De Tancos descolaram T-6, pilotados pelos segundo-sargento Gomes da Silva e furriel Falcão. Armados com metralhadoras e ninhos de foguetes anti-pessoal tinham por missão o ataque ao R.A.L.1. À mesma hora descolou um Allouette, armado com um canhão, pilotado pelo alferes Jofre, com o alferes Figueiredo ao canhão tendo por missão o ataque ao R.A.L.1. e outros possíveis objectivos.

13:10 – A Emissora Nacional interrompeu a programação normal, passando a transmitir do Centro de Esclarecimento de Informação Pública da 5.a Divisão, emitindo comunicados aconselhando a população de Lisboa a manter-se calma e vigilante em união com o M.F.A.

13:20 – O major Rosa Garoupa ligou ao major Casanova Ferreira comandante da P.S.P. de Lisboa, pedindo-lhe a ocupação da Rádio Renascença (em greve) e que pusesse “no ar” os comunicados dos golpistas. O que não foi feito.

13:22 – De Monte Real descolou a primeira parelha de F-86F, comandada pelo major Ayala, a qual cumpriu a missão que fora pedida ao coronel Velhinho, sendo os aviões alvejados no COPCON.

13:30 – Foi transmitido pelos estúdios de Lisboa da E.N. o primeiro comunicado da 5.a Divisão lido pelo capitão Duran Clemente. Protegida por forças do COPCON, a Rádio da Madeira começou a transmitir. De Tancos descolou um helicóptero Allouette III para transportar o brigadeiro Morais, de Tomar para a E.P.C. trazendo no regresso, além deste, o tenente-coronel Ricardo Durão e o capitão Salgueiro Maia. Aterraram cinco helicópteros Allouette IIl, vindos da B.A.6. Uma força da G.N.R. constituída por moto-blindados surgiu junto do G.D.A.C.I., tentando desactivar a antena da R.T.P. em Monsanto. Interceptada e intimada a retirar por forças do COPCON, obedeceu imediatamente.

13:50 – De Tancos descolou um helicóptero Allouette III, pilotado pelo tenente-coronel Quintanilha, acompanhado pelo major Cóias. Foram à B.A.5, seguidos por dois Aviocar com pára-quedistas. Tentou forçar a neutralidade da base, ameaçando que os pára-quedistas a ocupariam. Em seguida, quando alguns sargentos, alertados por Lisboa, tentaram prender Quintanilha, este evadiu-se no helicóptero seguido pelos Aviocar que se tinham mantido sobrevoando a base de Monte Real. As três aeronaves regressaram a Tancos.

14:00 – Em Monte Real, descolou a segunda parelha de F-86F, comandada pelo capitão Calhau, o qual acabaria por sobrevoar os mesmos pontos de Lisboa da primeira e a estrada Santarém-Lisboa. A ambas as parelhas foi dada ordem de não abrir fogo. A Rádio Renascença interrompeu a greve iniciada 22 dias antes, passando a transmitir em simultâneo com o RCP. A Rádio Ribatejo, a Rádio Alto Douro e a Rádio Altitude, transmitem ao mesmo tempo.

(Continua)

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