QUANTITATIVE EASING, MOEDA DE SONHO – O BCE CRIA MACIÇAMENTE MOEDA SEM CONTRAPARTIDA ECONÓMICA, por JEAN-LUC GRÉAU, que a seguir responde a perguntas formuladas por JÚLIO MARQUES MOTA

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota, que também formulou as perguntas para a segunda parte

Mario Draghi - líder do banco central europeu

 

Quantitative Easing, moeda de sonho

O BCE cria maciçamente moeda sem contrapartida económica

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Jean-Luc Gréau, Quantitative Easing, monnaie de songe – La BCE crée massivement de la monnaie sans contrepartie économique

Revista Causeur.fr, 5 de Março de 2015 

Mario Draghi capitulou. Em 22 de Janeiro, cedendo às  sirenes dos mercados financeiros de  ambos os lados do Atlântico, procurando colar-se  ao Banco central da Inglaterra, dos Estados Unidos e do Japão, apresentou o seu programa  de flexibilização quantitativa, ou seja, de recompra programada de obrigações públicas e privadas da zona euro, por um período de  18 meses, para um total de 1 160 bilhões de euros.

A personalidade de Mario Draghi é controversa desde a sua participação na primeira  e grande falsificação das contas do Estado grego, há quinze anos atrás, quando era ele quem dirigia a filial europeia de  Goldman Sachs. Esta mentira permitiu então que Atenas acedesse a  esta nova terra de Canaã, representada  pela zona euro. Não é no entanto necessário tomar o nosso homem por  um jogador às cartas e do jogo do monte. A sua capacidade técnica, precisamente adquirida na Goldman Sachs, fez deles  um grande perito dos mercados, das suas técnicas e da sua psicologia. E a sua acção na direcção do Banco Central Europeu, desde o final de 2011, durante a crise dos países da zona Sul, permitiu ver tudo  o que separa  um homem da arte do pato-coelheiro  que o antecedeu. O crédito dos Estados, dos bancos e das empresas dos países em apuros é restabelecido, a perspectiva de um fracasso definitivo é afastada e, com isso, a ideia também  de que se iria desfazer, por implosão, a zona euro.

Mas o triunfo foi-lhe  recusado. A zona euro manteve-se na calmaria durante todo o ano de 2014 e a própria Alemanha sofre uma situação de  estagnação. Ao mesmo tempo, a recuperação económica retardada durante muito tempo nos Estados Unidos e na  Inglaterra terá eventualmente  começado a  ocorrer. Estas duas economias muito diferentes, de resto,  produzem agora mais do que o que elas  produziam antes da crise (1). No entanto, elas foram quem primeiro conheceu – a partir de 2009 – esta incrível mudança na política de bancos centrais, conhecida como “quantitative easing” (literalmente “flexibilização quantitativa”). E as inúmeras rãs que habitam no pântano mediático  e político começaram logo a coaxar em uníssono em   direcção ao banco de Frankfurt: «Flexibilização quantitativa, flexibilização quantitativa!»

Mas porque é que Mario Draghi resistiu tanto tempo à  chamada para o “QE”, ele que sabe bem que este mecanismo não é nenhuma uma inovação como tantos outros, que  este modifica a estrutura do sistema financeiro? Proponho que  funcionem  aqui, mentalmente, como um  banqueiro central, como se fôssemos uns  Mario Draghi para dizer dizer-nos o que ele não é o QE, em primeiro lugar e, depois, o que de facto significa.

O que não é o  Quantitative Easing

O QE não é monetarizar a dívida. O primeiro instinto de alguns políticos ou economistas foi o de relacionar a nova política dos bancos centrais, de Washington, Londres ou Tóquio, com uma  monetarização da dívida pública ou privada. Monetarizar a dívida, isto  significa que o governo contrai empréstimos  directamente junto do Banco Central, ou seja,  que o Banco Central  compra directamente ao Tesouro  as obrigações do Estado. Ora, os  4 500 mil milhões de dólares de dívida privada e pública, comprada pelo Federal Reserve, os  375  mil milhões de dívidas do Tesouro  inglês comprados pelo  Banco da Inglaterra figuram sempre no cálculo das dívidas dos mutuários afectados. Os Bancos centrais cobram os juros devidos, como se fossem credores comuns.

O QE não se destina a regulamentar o crédito. Os principais bancos centrais têm entre um século e três séculos e meio de existência. Ora, desde a sua criação que  os bancos centrais praticam uma política de regulamentação  de crédito para apoiar a actividade económica ou, pelo contrário, para combater o excesso de crédito e a  inflação que muitas vezes o acompanha. Para esses fins, eles agem junto dos bancos comerciais, fornecendo dinheiro fresco ou pelo contrário reduzindo a liquidez. Como? Modulando à alta ou à baixa  o montante dos créditos aos  referidos bancos – flexibilização quantitativa ou redução quantitativa – e  baixando ou aumentando as taxas  sobre o dinheiro que eles emprestaram  – flexibilização qualitativa ou endurecimento qualitativo.

É necessário  lembrar aqui  uma coisa essencial. Os créditos bancários  em torno dos quais gravitam as operações de política monetária  são de  curto prazo: dias, semanas, meses, (o Banco Central da China está com um horizonte máximo de um ano). Assim,  a acção do Banco Central permanece em contacto directo com a actividade e as decisões de rotina dos agentes económicos. Ousemos  esta metáfora: o banqueiro central é como o motorista ao volante de um carro que utiliza a caixa de velocidades para regular a acção do motor.

A violência da crise em 2008 levou bancos centrais ocidentais a inundarem o sistema bancário   com dinheiro criado aos seus balcões, concedido gratuitamente pela primeira vez na história económica. Assim, eles esgotaram os recursos de política monetária. E  os mais ousados deles, em Tóquio, Washington ou Londres, resignaram-se a sair dos caminhos balizados da sua  política tradicional. Portanto, foi assim que o QE entrou em cena.

O que é a flexibilização quantitativa

O QE consiste em retirar os títulos de crédito  do mercado. As obrigações públicas e privadas, emitidas num qualquer momento estão sempre, de uma maneira ou de outra, no mercado: seja, na verdade, quando eles são objecto de transacções do dia a dia (2)  seja   virtualmente, na medida em que os seus titulares — bancos, companhias de seguros, fundos de investimento — podem a qualquer momento colocá-los em venda. Mas quando este operador específico que é o Banco Central compra esses títulos como parte de sua política de QE, é de uma vez por todas. O QE é um ir sem retorno.  Com este resultado, que é provavelmente o primeiro objectivo procurado pelos bancos centrais: desobstruir os mercados de crédito. Espera-se assim fazer uma cura temporária para as bolhas de  crédito que, em ambos os lados do Atlântico, permitiram  apoiar artificialmente a actividade.

A QE é uma operação de criação monetária  pura. O dinheiro  criado pelo Banco Central, que resulta da QE não tem nenhuma contrapartida económica na medida em que as dívidas correspondem, como já foi dito, as decisões do passado. Para nos fazermos  compreender melhor,  podemos compará-lo para a emissão de assignats emitidos pela França revolucionária de 1790. Esta criação altamente inflacionária tem sido comparada à emissão de uma moeda de macaco, [isto é, sem nenhum valor.] Mas isto  não é inteiramente verdade. Esta emissão de assignats apoiou também a actividade, mesmo à margem,  através do financiamento de gastos militares. Não foi uma criação de dinheiro puro.

Enquanto que os milhares de milhões injectados a  título da QE podem ser considerados como tal, como moeda pura. Eles não se espalham na esfera económica, mas sim sobre os  mercados especulativos, sobre os mercados cambiais  primeiro que tudo. É assim que todas as operações de QE foram acompanhadas por uma diminuição significativa da moeda em questão: iene, dólar e libra esterlina. E  é assim que os traders,  antecipando a acção anunciada por Mario Draghi em 22 de Janeiro, fizeram  baixar fortemente o euro. Tudo muito simplesmente porque os operadores sabem que terão mais euros em troca contra outras moedas no mercado cambial.

Menos dívidas e mais moeda nos mercados, isto é a originalidade da  flexibilização quantitativa.

Nós ignoramos onde  nos leva  a política QE decidida  em Frankfurt. O seu  resultado indiscutível será o de apoiar as exportações da área depois da  substancial queda no valor da  moeda única. Na condição, no entanto, que outros factores negativos não venham contrariar este efeito positivo.

Mas a acção de  Mario Draghi deveria  abrir os olhos aos cegos. Toda a experiência que vivemos, desde há trinta anos, baseia-se na criação de dinheiro! O QE é a manifestação final e grotesca desta mesma política.

Ninguém  dúvida porém que os detentores de  capital vão inventar maneiras para se aproveitarem das oportunidades da Quantitative Easing. Para o  melhor ou para o pior.

  1. Mas não a economia japonesa,  uma vez que esta tem estado  sempre mergulhada  na estagnação  .

  2. Como uma recidiva da dívida grega sempre pendente a 13 de Fevereiro de 2015.

Jean-Luc Gréau, Quantitative Easing, monnaie de songe- La BCE crée massivement de la monnaie sans contrepartie économique, texto editado pela revista Causeur

Questões  por mim colocadas ao autor do texto aqui apresentado, até porque não saber, como pode ser aqui o meu caso, não é vergonha nenhuma desde que se queira aprender. 

Texto da carta enviada:

 Cher Jean-Luc Gréau

Je viens de lire votre article  sur le QE de Draghi  que Gil Mihaely généreusement nous a mis à la disposition pour le  publier dans notre blog en portugais. Mais je aimerais à  vous poser des questions sur le QE, en partant de votre texte, pour en placer les réponses dans notre blog, à la fin de l’article:

D’abord, je dois ajouter que je ne défends pas le QE, la solution de la crise est, de mon point de vue, ailleurs, pas dans l’émission  de monnaie sans contrepartie future de nature économique. Pour moi, le QE est le Carnaval pour les banquiers ou même du Père Noel. Dit ceci  voilà donc mes questions:

  1. Vous dites au début de votre texte :

Mario Draghi a capitulé.

Capitulé par rapport à quel autre objectif possible ? De mon point de vue la QE est du Carnaval pour les banquiers. Mais étant donnée cette  votre phrase, de votre point de vue qu’est que Mario Draghi pouvait faire ?  Qu’est-ce qu’on peut attendre du BCE ?  Dit aussi par d’autres mots : qu’est-ce qu’on peut attendre  de la politique monétaire pour en sortir de la crise ?

  1. Vous me dites:

Or, les 4 500 milliards de dollars de dettes privées et publiques rachetées par la Réserve fédérale, les 375 milliards de dollars de dettes du Trésor anglais rachetées par la Bank of England figurent toujours dans le décompte des dettes des emprunteurs concernés. Les banques centrales perçoivent les intérêts dus, comme si elles étaient des créanciers ordinaires.

Donc les dettes sont toujours dans les livres de la Banque Centrale, même celles du QE, en payant des intérêts ? Si oui, la dette n’est pas annulée par le QE ?

  1. Vous dites :

Mais quand cet opérateur particulier qu’est la banque centrale achète ces obligations dans le cadre de sa politique de QE, c’est une fois pour toutes. Le QE est un aller sans retour.

Mais alors: Les titre sont sans retour.  Et dans les livres de la BCE?  Et les intérêts, or dans ce cas il n’a pas aussi des intérêts à payer ? S’il en a des intérêts à payer, et le titre est sans retour, on dira que le QE est la transformation des titres normaux de la dette est titres perpétuels ! Dans l’autre cas, s’ils sont  sans retour et pas d’intérêts à payer, il s’agit alors d’un effacement de la dette, mon Dieu !

 Est-ce que j’ai raison or il s’agit des questions sans aucun sens ?

Excusez-moi la liberté prise mais doutes sont des doutes et dans un pays en crise profonde on a besoin de savoir.

Très amicalement

 

Júlio Marques Mota

***

Resposta de Jean-Luc Gréau

 Caro Júlio Marques Mota

Eis os elementos de análise  suplementares desta grande inovação financeira que é o QE.

1°) Mario Draghi tinha explorado todos os recursos da política monetária clássica depois de ter conseguido descer  ao nível de  0,15% a taxa do refinanciamento bancário e de ter procedido a   várias e massivas adjudicações .

Acabou por recorrer ao QE ficando entre dois fogos, entre a ambição dos mercados que desejavam esta política e a pressão da Alemanha que não a queria. Daí esta estranha  decisão de comprar títulos de créditos públicos e privados e a um volume enorme  ao mesmo tempo que confiava esta  tarefa aos bancos nacionais que são filiados ao BCE.

Isto permite: primeiramente, conseguir alcançar uma injecção substancial de moeda a favor dos mercados  financeiros; em segundo lugar, permite não monetarizar  nem mutualizar  as dívidas. Ora, a recompra directa no seio das contas do BCE, em Frankfurt,  teria tido como efeito  iniciar a  mutualização  das dívidas, o  que é a obsessão dos dirigentes  alemães. Uma tal mutualização  teria podido servir de esboço para operações mais importantes  ainda  que pudessem levar a assentar, in fine,  o crédito dos tomadores de fundos, os devedores, da zona euro sobre a capacidade da Alemanha como garante de última instância desses mesmos fundos.  Era preciso não alinhar em tal processo.

2°) Os títulos de empréstimo recomprados permanecem nas contas do BCE. Isto  preserva a qualidade do crédito dos emprestadores interessados que uma monetarização, mesmo parcial, poderia pôr em perigo.

3°) os empréstimos recomprados serão reembolsados por etapas, excepto no caso de falência dos referidos devedores. Independentemente do tempo necessário, dez, vinte ou trinta anos. O essencial é que os títulos representativos tenham sido retirados do mercado!

Muito cordialmente.

Jean-Luc Gréau

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