A IDEIA – Para um Estudo mais Aprofundado de Paul Goodman – por João Freire

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Imagem1Paul Goodman é um autor anarquista americano que eu dificilmente consigo dissociar do individualismo libertário inglês de meados do século passado. E aqui são, para mim, referentes fortes as deliberações do congresso anarquista internacional que teve lugar em Londres em 1958, a obra literária e criativa deixada por Herbert Read, o caminho trilhado pela revista Anarchy ao longo da década de 60 e um dos militantes que aí se evidenciou (e dela se projectou como ensaísta), Colin Ward, o qual tive ainda a oportunidade e o gosto de conhecer pessoalmente.

O livro que lhe dedicou Bernard Vincent – Paul Goodman e a Reconquista do Presente – abre com a seguinte frase: Um olhar novo, uma linguagem nova: a voz de Paul Goodman é daquelas que, uma vez escutadas, não mais se esquecem. Essa voz – ora canto, ora grito, umas vezes defesa de uma causa, outras riso ou oração – retira o seu poder e, paradoxalmente, a sua novidade do facto de vir do fundo dos tempos, ou, o que vai dar no mesmo, do fundo do homem. Ela é actual porque é ‘neolítica’; fala à nossa época instável e ao nosso futuro incerto porque é o eco do que se mantém, do que Lau-Tseu chamava a constante da vida. Nesta era de artifício, de maquinismo selvagem e de alienação, em que o homem já não sabe quem é nem para onde vai, Goodman tenta fazê-lo lembrar-se disso […]. Dado este mote, vejamos brevemente alguns traços essenciais do seu pensamento.

Embora activo na escrita e na intervenção social desde os anos 30, é na década de 1960 que os seus livros encontram grande aceitação nas minorias contestatárias da juventude americana que não se reconhecem no way of life dominante, participando no movimento dos direitos civis para retirar os negros do gheto onde ainda se encontravam e em seguida na oposição à guerra no Vietname. Mas, mais do que causas que afrontavam directamente o poder político, os seus livros de sucesso Growing Up Absurd (de 1960) ou Drawing The Line (1962) constituem um convite à introspecção e à rebeldia de atitudes, sem nunca se prenderem a objectivos colectivos muito concretos ou deixarem levar para derivas radicais que, por exemplo, conduzissem à auto-destruição ou à violência.

Mas compreende-se bem que a tecnologia e a organização social imperantes nessa época tivessem ocupado parte substancial da sua reflexão. Ao culto do sistema social que a acção política interna elege como prioritário (apoiado nas novas ciências da economia e da gestão, da sociologia e da psicologia), atribui Goodman o epíteto de “sociolatria” (parece que já empregue por Comte), uma espécie de religião que ele vê como comum tanto ao capitalismo como ao socialismo de Estado. E aos cientistas, recrimina a sua demissão moral quando se colocam na dependência absoluta dos financiadores governamentais ou das grandes empresas que perseguem o maior lucro possível para os seus accionistas, sem atender a considerações de humanidade ou bem comum, incluindo o respeito pela própria natureza. Vê, pois, a ciência e a tecnologia modernas numa situação de ambiguidade, nascida do divórcio entre a filosofia e a ciência e do namoro prioritário desta com as técnicas e com a razão prática dos interesses económicos.

A acção governamental externa, baseada nos interesses geoestratégicos, e a tecnologização da guerra moderna foi outro dos temas do seu activismo militante, chamando a atenção para a desumanização latente quando, em vez do combate agónico, face a face, o militar de hoje é capaz de lidar apenas com painéis de instrumentos onde o “carregar no botão” poderá corresponder a uma capacidade de destruição impensável há meio século atrás, ou mesmo a um holocausto nuclear.

Estas posições conjugam-se com uma atitude espiritual que denota talvez algum sentimento de perda com a secularização do mundo moderno, que Goodman tenta preencher com um convite à reflexão filosófica, partindo da proposição de uma anterioridade da natureza humana, relativamente os efeitos da socialização. Porém, está longe de qualquer sentido religioso ou criacionista, e antes assenta no que seriam as suas funções naturais fundamentais: a função criadora; a função sexual; e a função comunitária. Para tornar livres e realizadas plenamente estas funções, Goodman reclama a necessidade de um meio social simultaneamente científico e humanista, através do uso de uma ciência e uma tecnologia moralizadas. O oposto possível do “Sistema Organizado” é uma sociedade descentralizada, comunitária e convivencial. Não é por acaso que muito consideram Ivan Illich como um seu discípulo.

É curioso transcrever o “programa libertário” que Goodman lançou em 1945, no rescaldo da guerra. Resume-se aos 6 pontos seguintes:

1 – É trair a sociedade livre, aceitar um emprego que não actualize e promova as nossas capacidades humanas nem transcenda a sistemática e irreflectida divisão do trabalho existente.

2 – É preciso reconsiderar o nosso nível de vida, distinguindo o que é verdadeiramente útil à nossa subsistência daquilo que nos submete à emulação, à insegurança emocional e ao sentimento de inferioridade engendrados por instituições exploradores e uma publicidade opressiva.

3 – É preciso permitir e encorajar a satisfação sexual dos jovens – crianças e adolescentes – a fim de os libertar da sua angústia e da sua submissão à autoridade.

4 – É necessário exercermos directamente, em pequenos grupos, o nosso direito de iniciativa em tudo o que, na vida comunitária, nos diz respeito em alto grau, como o alojamento, o arranjo dos bairros, a escolaridade, etc.

5 – Dado que vivemos num mundo alienado, temos que analisar e purgar mutuamente as nossas almas a fim de não mais nos considerarmos culpados ou instrumentos de conspiração ou actos ilegais ditados pela nossa natureza comum.

6- É preciso desembaraçarmo-nos progressivamente de tudo o que se ligue com a guerra.

Estes preceitos dariam para muita discussão e especulação. Em particular, no que toca ao ponto 3, sobre a sexualidade. Temos de atender ao facto de que Goodman tinha então trinta e tantos anos e provavelmente assumia condutas homossexuais muito difíceis de aceitar na época, mesmo em Nova Iorque e para um natural de Greenwich Village, mas filho de um pai judeu que abandonou o lar quando o negócio abriu falência. E no seu currículo profissional constavam já três expulsões dos colleges ou schools onde ensinava, por “motivos sexuais”. Mas também não há dúvidas que Goodman visava certeiro quando atingia criticamente o ponto nevrálgico – civilizacional, talvez – da educação autoritária e castradora de então, quer por parte do poder paternal, quer na forma como a exerciam os mestres escolares.

Não é por isso de estranhar que a juventude tenha sido um destinatário preferencial dos seus escritos – que incluem o romance e as novelas, teatro, crítica literária e outros géneros – e tenha procurado entender o significado profundo dos fenómenos hippie e da delinquência juvenil, bem como os movimentos mais radicais protagonizados por estudantes (SDS, refractários à conscrição militar, etc.).

Passando às vias alternativas para “desalienar” as populações e vê-las iniciarem uma trajectória em direcção a uma “sociedade livre”, Goodman aponta dois caminhos possíveis, eventualmente complementares. Por um lado, critica o “revolucionarismo” que então fascinava sectores mais empenhados da juventude (guevarismo, black power, etc.) dizendo provocatoriamente que “o sonho de todo o revolucionário é poder ser, enfim, um conservador na sociedade ideal!” e propondo antes um reformismo radical, partindo das instituições democráticas actuais e “reformando tudo o que é susceptível de ser reformado”. Nesta via, a acção libertadora deveria exercer-se em torno de três eixos principais: a mobilização popular inter-classista (em vez da fractura social estimulada pelo socialismo no último século); o papel transformador da juventude (como “contra-força” ou anti-poder); e o regresso a uma autenticidade profissional (com os valores éticos que lhe deviam ser inerentes, em prol do bem comum). Mas Goodman admite também a via a “revolução libertária”, desencadeada no seguimento de acções mobilizadoras de resistência cívica, aceitando então a ocorrência de violências espontâneas e naturais, mas não as formas de violência programada e organizada, que ele qualifica de “contra-natura”.

Goodman morreu em 1972, com 61 anos. Não é difícil descortinar aqui um pensamento antecipador dos novos movimentos sociais que vieram animar os países ocidentais nas décadas seguintes, de que o ecologismo é talvez o melhor exemplo. Mas não parece que Chomsky ou, sobretudo, Bookchin lhe sejam especialmente devedores, talvez porque ambos assimilaram partes ou provieram da tradição intelectual marxista.

Embora filiado na tradição simultaneamente individualista e comunitária do anarquismo americano, Goodman descende mais directamente de Henry-David Thoreau e de Walt Whitmann do que de Josiah Warren, Lysander Spooner ou Benjamin Tucker. Também não está longe do pensamento de Marcuse em O Homem Unidimensional, porém sem a disciplina mental trazida da filosofia crítica da “escola de Frankfurt” e com mais liberdade para, ao lado do exercício analítico e desconstrutor, ser também capaz de pensar poeticamente.

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