Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Nazis por todo o lado, moral em lado nenhum
Os infortúnios do ponto Godwin
Marie Céhère, Nazis partout, morale nulle part – Les infortunes du point Godwin
Revista Causeur,fr, 28 de Dezembro de 2014
Para além das controvérsias e dos vazios legislativos sobre a liberdade de expressão, de opinião e sobre os seus perigos sobre Internet, das notas de Dieudonné no Tweeter aos sítios de recrutamento djihadistes, sobre esta terra de liberdade que no entanto é suposto de ser a web, está a pairar o espectro de uma proibição universal. Terá sido formulada a partir dos balbuciares da WEB, em 1990 sobre um antepassado das redes sociais, a “lei de Godwin” conheceu um sucesso viral imediato e – mais raro – perene.
Retomando por sua própria conta a ideia que Leo Strauss resumia pela locução reductio ad hitlerum, Mike Godwin, jovem advogado do Estado de Nova Iorque, tinha observado que quanto “mais uma discussão durasse, mais altas eram as possibilidades de ver um interlocutor referir-se aos nazis”, contando que ultrapassar este limite lança imediatamente o descrédito sobre quem se torna culpado.
O ensaio de François de Smet apoia-se sobre a constatação seguinte: a lei de Godwin tem entrado nos costumes e no vocabulário dos internautas, é apenas o painel indicador de um ponto sensível inultrapassável, de um não-dito absoluto, de uma parte da sombra que mancha um pouco o brilho das nossas sociedades engalanadas com os seus Direitos do Homem. O autor trata-a como um sintoma, o de um fenómeno social e de uma questão filosófica, um implícito na estrutura mental dos frequentadores assíduos das discussões em linha de todos os quadrantes.
Com a seriedade de um ensaio de filosofia moral, compreendendo as questões de fundo como a autonomia do sujeito pensante, a insociável sociabilidade, o papel da identidade na construção e a prosperidade das nossas democracias, misturadas à sólidas recordações históricas e elementos de cultura web, Reductio ad hitlerum, uma teoria do ponto Godwin propõe-se explicar todo o reino dos acontecimentos da Segunda guerra mundial sobre a nossa concepção do mal.
A nossa escala de valores, primeiramente, está completamente desregulada: há razões de nos interrogarmos constatando que a referência axiológica universal permanece inalterada desde há mais de setenta anos e tantos horrores a serem colocados na conta da humanidade. Outros episódios teriam podido impor-se ou reaparecer das malas da História, levantarem-se nas nossas cabeças, a nível da Shoah para mais a maior felicidade dos defensores dos complots anti-semitas. Mas nada disto.
A relação de sinónimos entre o Mal e Shoah é inabalável e exclusiva. Pior, François de Smet sublinha que o qualificativo “mau” foi desvalorizado nas nossas consciências até se tornar inaudível para proveito “dos nazis”, cuja esfera semântica se estende para além dos elementos históricos relativos ao Terceiro Reich. “O nazi” não é apenas este homem de aspecto austero, calçado de botas e vociferando em alemão, do mesmo modo que a Shoah não designa prioritariamente o massacre dos Judeus da Europa pelo regime de Hitler; não se trata mais ou ainda não, por enquanto de História mas do que nós fazemos, de factos sociológicos.
A lei de Godwin mostra que sobre a Internet particularmente, somos todos mais ou menos o nazi de um alguém qualquer. Ela reenvia-nos ao medo de nós mesmos, do que qualquer homem é capaz de fazer ao outro, sobre o modelo da experiência de Milgram.
O ostracismo de que é imediatamente vítima todo aquele que excede o ponto Godwin não é pois somente uma repreensão intelectual – a comparação com o nazismo é frequentemente imprópria – é uma reacção securitária: os lugares da colectividade virtual encarregam-se de se precaver contra “a recordação da matilha”.
A evocação dos crimes nazis reenvia com efeito à evidência segundo a qual o mal não se faz nunca sozinho mas à vários, preferivelmente sobre um modo multi – escalar como foi o caso nos anos 1930-1940.
A lembrança destes acontecimentos é “uma caixa de Pandora saturada de anxiolíticos”, nenhuma outra instituição é susceptível de fazer a unanimidade – nem mesmo os direitos do homem – uma má experiência vale mil vezes um bom conselho.
Esta história fascine quase tanto quanto ela horroriza, de modo que não sabemos mais onde está o mal, o bem, como combater o primeiro e fazer triunfar o segundo. Repetir todos os dias de quanto o homem é mau não tornará ninguém bom. O destino da lei de Godwin reflecte o malogro da Memória em fazer barragem à uma ressurgência potencial do nazismo e/ou que é um exercício a que nos temos muito que nos entregar.
O nazismo é a imagem do mal escondido em cada um de nós, aqui está porque é que os lacrimejares com que os Franceses se regam diariamente, entre filmes, telefilmes, testemunhos e outros best-sellers não chegam para bloquear nenhuma violência identitária.
O que nós precisaríamos, com efeito, é de uma boa guerra. Teríamos com que reactualizar de uma vez por todas as nossas disposições morais: nós vemos nazis por toda a parte mas não vemos o mal em nenhum lado.
Reductio ad Hitlerum, une théorie du point Godwin, Francois de Smet, PUF.
*Photo : pixabay.
________



