A IDEIA – “A Revolução Poética postulada no ensaio de Natália Correia: Poesia de Arte e Realismo Poético” – por Cristina Dias

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[o texto de Natália Correia Poesia de arte e realismo poético foi publicado por Mário Cesariny numa colecção em que deu a lume, entre 1958 e 1963, textos de António Maria Lisboa, de Luiz Pacheco, de António José Forte, de Virgílio Martinho, de Manuel de Lima e dele próprio. Deu origem de seguida a um curioso comentário de António Telmo, “Arte Poético e Surrealismo” (1966). Desafiámos uma doutoranda que prepara a sua dissertação sobre a obra de Natália Correia a voltar ao texto. Depois da sua leitura uma coisa parece segura: o realismo poético é o da imaginação não o do real]

 Imagem1O ensaio de Natália Correia Poesia de Arte e Realismo Poético, publicado (em 1958?) por Mário Cesariny de Vasconcelos na coleção A Antologia em 1958, visa essencialmente demonstrar qual o espaço consagrado aos poetas e aos líricos. Esta distinção revela-se logo no capa do ensaio, onde se diz: Os poetas faz descer ao vil terreno e os líricos subir ao céu sereno. Aqui verificamos que a intencionalidade do estudo nataliano se prende com a diferenciação entre a poesia de arte, a que se encontram ligados os líricos e o realismo poético, a que se unem os poetas. Resta perceber a qual dos dois pertence a escritora Natália Correia. Com o desenrolar da nossa leitura crítica facilmente se perceberá.

A abrir o ensaio a autora refere: Cada homem que nasce é um ser que perdeu o mundo. (p.6) Como entender esta premissa? Natália Correia dá-nos a sua orientação: o pensamento na sua força criadora unifica-se na poesia e na filosofia. Mas quando o homem busca a revelação de si mesmo observa-se uma separação dos campos poético e filosófico, devido sobretudo à constante histórica que o envolve. Por sua parte facilmente o poeta recupera o mundo, construindo uma realidade sob a imaginação.

Continua a vontade de reflexão da autora, levantando a premissa: O homem só toma consciência de si mesmo quando insatisfeito. Entre filósofo e poeta essa tomada de consciência relativiza-se, dado que o primeiro consciencializa a existência e o segundo assume a consciência da vida. Esta insatisfação preconiza toda a reflexão que Natália Correia enceta no ensaio, quando inicia a decifração do título do seu estudo: Poesia de Arte e Realismo Poético. Diferencia o princípio conservador, que se liga à poesia de arte, do princípio libertador, potenciado pelo realismo poético, que segundo a escritora transfigura a vida (p. 9).

Que visam, então uma e outra espécies de poesia, se assim as podermos apreender?

A “poesia de arte tem o propósito de conservar o mundo tal como está” (p. 10), ou seja, resulta numa forma facilitada de adaptação, sem qualquer pretensão de renovar. Contudo, o realismo poético propõe a desmistificação dos arquétipos que pela força da inércia ainda regem a conduta humana, torturada pela ambiguidade de fazer concessões a dois mundos que se chocam no ser [real e imaginário] (p.10).

Natália destaca no seu texto a poética de Fernando Pessoa, quando refere que [o] que há de mais profundo e oculto na poesia deImagem2 Fernando Pessoa é esta chama alimentada pela esperança da liberdade cósmica (pp.18-19). Anseio de libertação muito próximo da intencionalidade da poética nataliana, podemos dizer. Ainda assim, a escritora revela que [o] lume subversivo que o poeta [Fernando Pessoa] trazia na ponta da espada, esse não queimou as muralhas do lirismo retrocessivo. Fica aqui bem patente a crítica de Natália Correia à poesia de arte que assume nova fórmula (p. 19), mas prossegue na subserviência a o princípio conservador. A autora irá igualmente acrescentar que o que debilita a poesia de arte é a sua desistência à priori da imaginação (p. 25) Como o mundo é imperfeito, torna-se imprescindível a imaginação.

Quase a concluir o seu texto reflexivo, Natália Correia convoca-nos a percecionar a necessidade de existência de um poeta demiurgo para quem só o belo é que é o ideal (p. 26). Este é o lugar que a escritora ocupa, construindo-se sob o realismo poético, procurando libertar a imaginação do intelecto (…) [para desencantar] o fio de Ariadne (…) [e deste modo] sair do labirinto da existência.

A Beleza será, pois, o ideal do poeta, e também de Natália Correia.

 

Cristina Dias

 

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