A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL- O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO[1] – I . A ALEMANHA: CONTAS EXTERNAS E FINANCEIRIZAÇÃO POR PROCURAÇÃO, por ONUBRE EINZ – II

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A Alemanha, o seu papel nos desequilíbrios da economia real- o outro lado da crise de que não se fala

Uma análise assente na divisão internacional do trabalho[1]

Uma colecção de artigos de Onubre Einz.

I . A Alemanha : contas externas e financeirização por procuração

(conclusão)

B – A balança financeira

1° Dados gerais

Onubre Einz - VI

Nós dividimos o saldo financeiro (A) medindo as saídas ou entradas de capital no primeiro gráfico deste texto em três conjuntos que o determinam:

– As operações do Banco Federal com o exterior e a formação das suas reservas cambiais (B)

– Os investimentos directos no exterior ou IDE (C)

-As operações financeiras privadas (D)

Não obstante as operações do Banco Federal e a formação de reservas cambiais, parece evidente que tem havido uma transformação profunda da lógica dos fluxos financeiros desde há mais de 20 anos. Desde o início de 2004, a Alemanha retomou com um saldo positivo os seus investimentos estrangeiros directos (C), como era igualmente a situação antes da crise do milénio. Mas o que é novo aqui  é que a Alemanha se tornou num exportador líquido de capital desde 2004, depois de ter sido um importador líquido durante a década anterior.

A comparação entre o saldo dos IDE e o saldo de transacções financeiras privadas mostra que a Alemanha é uma potência cada vez mais exportadora de capital-dinheiro e cada vez menos realizadora de investimento directo estrangeiro (IDE).

Uma lógica financeira está pois a sobrepor-se  a uma lógica produtiva nos movimentos financeiros da Alemanha com o resto do mundo.

Segue-se que a conversão dos excedentes da balança de pagamentos faz da Alemanha uma plataforma produtiva permitindo, através do saldo da balança de pagamentos, tornar possível uma exportação líquida de capital dominada por fluxos financeiros em detrimento dos fluxos de investimentos produtivos.

2° Componentes dos investimentos financeiros

Onubre Einz - VII

As componentes das aplicações financeiras permitem aflorar superficialmente o seu conteúdo. Os investimentos em carteiras compostas principalmente de acções e títulos têm sido um importante investimento financeiro da posição externa da Alemanha. A tendência geral é muito clara, ela afirma-se desde 1992 e o ano de 2001 marca a separação entre duas eras. Para os outros investimentos que combinam os produtos financeiros mais perigosos e uma série de investimentos de vários tipos, a tendência é ainda mais acentuada, e é desde meados da década de 1990 que a Alemanha exporta os seus capitais e participa na financeirização da economia com uma determinação que tem não abrandado até agora. Isto é o que certifica as linhas de tendência.

Tendo em conta a reunificação que pesa ao longo de toda a década de 1990, pode-se considerar que o saldo positivo dos investimentos em carteira se manteve positivo na década de 1990 devido às compras estrangeiras de títulos da dívida pública alemã que é contabilizado em aplicações em carteira. Pode-se pensar que, sem a reunificação, os investimentos em carteira se teriam moldado sobre outros investimentos.

Neste caso, a conversão dos excedentes da balança de pagamentos em produtos financeiros teria sido significativamente maior.

3° Operações do Bundesbank.

Onubre Einz - VIII

Nas suas saídas de capitais o Bundesbank não tem nada a invejar. Mas estas operações técnicas desenrolando-se entre os bancos centrais não podem ser relacionadas com a lógica de investimentos financeiros. No que diz respeito a formação de reservas, os seus saldos desde o final da década de 1990 indicam que a Alemanha não alterou em nada o seu nível. O que é bastante lógico, com a criação do euro e dado o papel do BCE.

Pequenas conclusões

A análise detalhada das contas externas alemãs permite tirar uma série de pequenas conclusões. Em primeiro lugar, a Alemanha não tem totalmente uma lógica de investimento de uma economia produtiva. Ela desliza lentamente para uma financeirização dos seus excedentes com o risco de colocar a nível secundário a própria economia produtiva.

A Alemanha tem-se estado a entregar a esta  financeirização, a que chamamos finaceirização por procuração. É a conduzir operações de investimentos financeiros no exterior que a economia alemã está a ficar envolvida na financeirização. A Alemanha  não é um motor activo neste processo, como os EUA, mas utiliza-o para modificar  a sua economia a pender mais para o   lado das finanças.

A organização económica da Alemanha continua a ser uma organização aparentemente dominada por forte produção e por considerações de investimentos. É dificilmente questionável. No entanto, essas contas externas podem bem fornecer para os excedentes da sua balança de pagamentos o combustível da sua financeirização. Por conseguinte, a economia alemã pode muito bem proporcionar pelos seus excedentes o combustível da sua financeirização porque a Alemanha não está tão claramente como isso numa lógica de produção.

Esta primeira análise permite-nos colocar uma questão : como explicar que a Alemanha esteja tentada pela financeirização dos excedentes fornecidos pela sua economia nacional. Este será o tema de um próximo texto.

Surge-nos a seguir uma série de perguntas: haverá outros sinais que denunciam uma apetência na economia alemã por uma esfera financeira que o exterior lhe oferece mas  que ela se recusa a construir em casa, pode-se encontrar uma relação entre a financeirização e a busca de um crescimento pela via da dinâmica das exportações? De facto,  são estas últimas que disponibilizam o capital dinheiro re-exportado sob a forma de investimentos financeiros? E será que não há nestes excedentes colocados no estrangeiro traços de uma mudança na distribuição da riqueza produzida na Alemanha?.

Uma financeirização por procuração, muito diferente de uma financeirização voluntária à americana pode anunciar um declínio a funcionar na Alemanha por vias enviesadas.

Esperamos que nos tenhamos feito compreender, a via estatística não é na nossa concepção de análise  como constituindo um caminho de ideias completamente feitas sobre a Alemanha. A nossa concepção de análise deve permitir levantar lebres, de correr atrás delas, para levantar questões e interrogações.

Seguiremos nos próximos textos  esta lebre que nos passou entre as pernas aquando da análise das contas externas da Alemanha. É uma lebre que corre muito na paisagem ideológica francesa. A Alemanha, agora é a terra da grande promessa: o esforço dos trabalhadores, a moderação salarial, a inovação e a competitividade, os produtos de forte valor acrescentado e de qualidade são as características da economia alemã. Este é o modelo a seguir…

O belo exemplo alemão não teria uma lógica muito diferente da que as nossas elites dominantes e os media coniventes nos apresentam para fazerem passar o rigor e a austeridade. Colocando-nos a nós mesmos esta questão, nós estamos no centro da questão do declínio e das poções amargas que as classes dominantes e sem nenhum projecto que valha nos fazem engolir.

A sondagem das estatísticas ao qual nos entregámos relembrou-nos a palavra de Madame de Staël: “A Alemanha, é exótica”, e nós acrescentaremos que ela é também um país cheio de surpresas.

Onubre Einz., L’Allemagne : Comptes extérieurs et financiarisation par procuration. Texto disponível em :

http://criseusa.blog.lemonde.fr/2013/04/11/lallemagne-comptes-exterieurs-et-financiarisation-par-procuration/

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[1] O título dado à  colecção é da responsabilidade do tradutor.

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A parte I deste trabalho de Onubre Einz, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, pode ser lida em:

A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL- O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO[1] – I . A ALEMANHA: CONTAS EXTERNAS E FINANCEIRIZAÇÃO POR PROCURAÇÃO, por ONUBRE EINZ – I

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