FRATERNIZAR, Jerusalém, ano 30, Abril A entrada é de Jesus Nazaré, ou do Cristo imperial? – por Mário de Oliveira

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 Nunca no-lo disseram. Nunca no-lo dirão. Mas a verdade é que a bênção dos ramos e o respectivo cortejo, pretensamente litúrgico, com os ramos levantados ao alto, em sinal de triunfo, por algumas pessoas que ainda persistem em alinhar neste tipo de iniciativas sem um pingo de dignidade humana, em suposta memória do cortejo ocorrido em Abril do ano 30, no primeiro dia da semana da Páscoa dos chefes dos judeus, não tem praticamente nada a ver com a entrada de Jesus na cidade de Jerusalém, entendida por ele em sentido laico/profano, não em sentido sagrado/santo. Tem, sim, tudo a ver com a entrada solene, militarizada, fortemente armada, do procurador de Roma, Põncio Pilatos, representante do Cristo imperial da altura, Tibério, de seu nome histórico. Todos os anos, nesse dia, Pilatos, alter-ego de Tibério na Palestina, mudava a sua residência para lá, a fim de melhor poder controlar/reprimir, se necessário, qualquer tentativa de levantamento político subversivo, conspirativo, por sinal, prática frequente, por esses dias da festa.

É verdade que, segundo Marcos, indubitavelmente, o mais antigo dos 4 Evangelhos em 5 volumes, também Jesus Nazaré faz questão de entrar, nesse mesmo dia, em Jerusalém, naquele que acabou por ser o primeiro dia da sua última semana de visibilidade histórica. Uma vez que, inesperadamente, tudo se irá precipitar contra ele, em consequência da alta traição do grupo dos Doze que, através de Judas, o último da lista, negoceia a entrega dele aos sumos-sacerdotes, em troca da sobrevivência política de todo o grupo em Jerusalém, a mesma cidade que, graças a essa sua traição, o vai prender, julgar, condenar à morte, executar na cruz do império, na véspera da Páscoa dos chefes dos judeus, a páscoa do regime. A qual mais não era do que o cume da exploração da multidão dos judeus, do massacre ideológico-teológico que esses mesmos chefes, seus concidadãos, realizavam sobre as mentes-consciências de todo o povo, numa tirania de fazer chorar as próprias pedras. Só que a propositada entrada de Jesus, nesse mesmo dia, faz-se pela porta leste da cidade, rumo ao Monte das Oliveiras, depois de uma discreta passagem pelo templo de Jerusalém, para poder observar tudo ao pormenor e, a partir daí, definir melhor o que, absolutamente sozinho, haveria de fazer, nos dias a seguir, sem dúvida, os de maior enchente de judeus, vindos de todas as partes do império de Roma, onde viviam como emigrantes, a chamada diáspora.

À mesma hora em que Jesus está a entrar como simples ser humano, na sua máxima fragilidade, sem o mais leve indício de ostentação, de poder, de domínio, de exploração das populações já de si escravizadas, oprimidas, exploradas pelos sumos-sacerdotes do templo e pelo império de Roma, o procurador Pôncio Pilatos está a entrar também, mas pela porta oeste da cidade, com a sua cavalaria e grande reforço de tropa. À sua espera, a recebê-lo, com a devida pompa e circunstância, estão lá todos os grandes dos judeus que vivem na capital. Como sempre acontece, quando, ainda hoje, o papa chefe de estado do Vaticano, deixa Roma e vai de visita a outro estado-país do mundo. Assim mandava, manda, o protocolo imperial, relativamente aos chefes nacionais de qualquer colónia, no caso e na altura, os chefes dos judeus, também eles, súbditos do imperador Tibério, de Roma, representado naquela colónia, por Pôncio Pilatos.

 O chamado domingo de ramos, das igrejas cristãs, com destaque para a católica romana, é sobretudo esta entrada triunfal-imperial que celebra. Não a entrada de Jesus, de todo vulgar, nos antípodas do Cristo/Messias davídico, naqueles dias, historicamente representado por Pilatos, o representante máximo do poder vencedor de Roma em Jerusalém. A acompanhar Jesus Nazaré, na sua entrada sem nada de especial, vão camponeses empobrecidos, à mistura com discípulas, discípulos clandestinos de Jesus, por isso, sem nenhum registo dos seus nomes, prosseguidores do seu Projecto político maiêutico, o mesmo de Deus Abba-Mãe, criador de todos os povos por igual, nenhum povo eleito, todos iguais, na multiplicidade de línguas, culturas, usos, tradições. Vão, também, os Doze, com Pedro a abrir-liderar, Judas, a fechar-executar as decisões tomadas por todos. Estes, completamente apanhados pela ideologia do cristo/messias davídico, por isso, nos antípodas de Jesus, ainda tentam ensaiar um levantamento político messiânico, com carácter violento, mas Jesus não lhes dá qualquer importância, concentrado que vai na missão política maiêutica que se propõe realizar naqueles dias com cada um dos vários grupos de dirigentes dos judeus.

E porque é que Jesus faz tanta questão de “subir a Jerusalém”, naquela páscoa dos chefes dos judeus? É que, após mais ou menos dois anos em missão fora de Jerusalém, Jesus acaba progressivamente a cair na conta de que é, lá, na capital, no templo, que está o núcleo duro judaico da opressão, da ideologia/teologia idolátrica, em nome da qual as populações são todos os dias esmagadas, trituradas com impostos de toda a ordem, sem qualquer hipótese de resistência, muito menos, de lhe pôr fim. Com a agravante de ainda serem obrigadas a olhar para Jerusalém como a cidade santa; para o templo, como a casa de Deus; para os sacrifícios de animais, pagos por elas a peso de ouro, como outros tantos meios de comunicar com Deus, sem os quais, seriam condenadas por ele sem remissão. Havia, pois, que denunciar este ninho de víboras institucional, que se alimentava da Mentira sistémica, chamada Lei de Moisés-Lei de Deus, da Bíblia -Escritura sagrada.

 Um facto objectivo hediondo demais, para poder ser tolerado por Jesus, o ser humano por antonomásia, consciente de que é habitado em permanência por Deus Abba-Mae que nunca ninguém viu, pelo que se experimenta, de dentro para fora, seu filho muito amado, ocupado a tempo integral com as mesmas obras/acções políticas que vê seu Abba-Mãe fazer. O que resulta num ser-viver histórico pessoal, em permanente duelo antropológico-teológico desarmado contra o Deus da Lei de Moisés, da Bíblia-Escritura Sagrada, contra a sua teologia idolátrica, utilizada/manipulada pelos sumos-sacerdotes, os escribas, os fariseus, os doutores da Lei. Custar-lhe-á o bom nome, a própria vida, mas, desse modo, a Mentira institucional fica definitivamente desmascarada, a nu. A partir de então, só não vê a Mentira institucional quem não quer mesmo ver.

Infelizmente, nem as igrejas cristãs, a começar pelos respectivos e sucessivos chefes, papa incluído, querem ver esta Mentira institucional. Pior que isso, recusam-se sistematicamente a vê-la. Acabam até a ensinar que a Mentira institucional é a Verdade! Aliás, o próprio cristianismo só é fundado pelo grupo dos Doze, recomposto à pressa, depois de ter implodido com a morte crucificada de Jesus, com o objectivo de o fazer esquecer para sempre, e ao seu Projecto político maiêutico. Como se Jesus nunca tivesse acontecido/ nascido/ integrado a Humanidade. Ao mesmo tempo, apagar da consciência dos povos a revelação de Deus Abba-Mãe e dos seres humanos, como suas filhas, seus filhos, definitivamente realizada/consumada nele, o filho de Maria, nos antípodas do mítico Cristo, o filho de David. O que, no seu conjunto, perfaz um crime/pecado de lesa-humanidade, sem perdão, uma vez que, com o passar dos séculos, a Mentira institucional formatou sucessivas gerações que acabaram politicamente infantilizadas, desmobilizadas, comidas pelas minorias espertalhonas, aparentemente, em guerra aberta umas com as outras, mas sempre de acordo no essencial, que é manter-se no topo da pirâmide, ao comando do mundo, as populações como escabelo dos seus pés.

 A páscoa do cristianismo, das igrejas cristãs, é na continuação desta páscoa dos chefes dos judeus que está, nos antípodas do ser-viver histórico de Jesus Nazaré. Tal como aquela, também a das igrejas cristãs acaba por ser a mais crassa exploração das populações, aterrorizadas/infantilizadas, à mercê do Mercado financeiro global, sem hipótese de autonomia, de liberdade, de dignidade, apenas consumidoras compulsivas, rumo ao desespero, ao suicídio, à demência, à depressão. Tudo mazelas que fazem delas pequenos assassinos, pequenos ladrões que enchem as cadeias, os hospitais, enquanto os grandes criminosos institucionais se banqueteiam todos os dias e ainda se fazem adorar/idolatrar por elas, suas vítimas. Uma infâmia sem nome, a que urge pôr fim. Outra coisa não faz, Jesus, hoje Jesus século XXI, Jesus terceiro milénio. Urge fazermos uma só carne com ele. Sermos outros Jesus. Que para isso nascemos, viemos ao mundo.

1 Comment

  1. Eu habituei-me a ouvir e ler as opiniões do padre Mário da Lixa….apesar da minha educação judaico/cristã imposta pelos meus progenitores, a vida, dura desde muito novo, ensinou-me que o mundo não se dividia entre crentes e não crentes, mas antes entre poderosos e humildes…..e, foi uma desilusão descobrir com 13 anos, já a trabalhar, que a hierarquia da religião que me impuseram apenas parecia importar-se com os poderosos. O descrédito sobre a religião católica bem cedo evoluiu para um sentir que as religiões, sejam elas quais forem, apenas procuram angariar e disputar eleitorado como se de partidos políticos ou clubes de futebol se tratassem.
    E, neste processo evolutivo, aprendi a respeitar e apreciar criticamente as opiniões francas e sinceras do cidadão Mário de Oliveira. E, quero deixar o meu testemunho de que o Mário Oliveira sempre tem estado ao lado dos pobres e humildes da sociedade e, eu procuro, consequentemente, ouvir com sentido crítico é certo, a sua opinião e, agradeço a forma de sem poeira da como opina sobre o mundo.

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