
III
Como já disse, sou muito amigo do Baeta; mas, aqui para nós, achei que ele estava abusando um bocadinho da minha ingenuidade com aquela história dos velhinhos de miolos enxertados. Para mudar de assunto perguntei-lhe:
– Mas diz-me cá: que mania é essa de passar o Carnaval empoleirado em cima duma árvore de Avenida?
– Perdão, – explicou ele… – Isto parece uma árvore; mas não é. É a minha casa.
– A tua casa?
– Sim. Desde que saí da Penitenciária tenho andado à procura duma habitação que me convenha e, como não há meio de encontrá-la e detesto dormir nos bancos das praças públicas, resolvi instalar-me em cima desta olaia, até que apareça uma casa que me agrade.
– Não me fales nisso, – interrompi eu. – Essa história das casas ainda é mais arreliativa que a das velhas que vão tomar o rádio-fosfato. Tenho andado louco para encontrar nesta maldita Lisboa de gaioleiros e construtores absolutamente desprovidos de senso estático e de bom gosto, uma habitação que corresponda ao meu sonho. Como sabes, para mim o lar é tudo. Se pudesse, mandaria construir em lugar apropriado uma residência a meu jeito e reunindo todas as comodidades que me são indispensáveis. Como infelizmente não sou rico, tive que me contentar com o que me foi aparecendo aqui e acolá e assim, velho Baeta da minha estimação, encontrei no Largo das Chagas uma sobreloja, que tem uma antecâmara tal qual como a tinha sonhado em muitas noites de vigília. O quarto de cama, que me satisfaz, descobri-o, depois de muito procurar, num primeiro andar do Campo de Santana. É realmente um encanto: bom ar, bela vista, sossego. Mas, pelo que respeita à casa de banho, nenhuma me encheu as medidas como a que consegui alugar em Campo de Ourique. Como tenho entre mãos um drama marítimo para o Teatro Nacional, escolhi o meu gabinete de trabalho num prédio de esquina no Cais do Tojo. Sítio ideal: o Tejo a dois passos, o perfume da maresia, o silvo dos vapores, etc. Parece pintado pelo João Vaz. A propósito: hei de te ler o meu drama. Um dia destes vais almoçar comigo. Verás a minha casa de jantar; é em Santa Marta, num terceiro andar. Muito prática: tem carro à porta e uma varanda para o «dancing» das sopeiras. Agora a cozinha é que me desconsola um pouco…
– Porquê? – perguntou ingenuamente o Baeta. – Tem mau cheiro?
– Não. Nem por isso. Tem duas pias, é certo; mas com uma máscara contra os gases asfixiantes não se dá por elas. O caso é outro. Aqui para nós, o único defeito que lhe encontro é ficar um pouco fora de mão…
– Ah! sim?
– É verdade. Não consegui encontrar cozinha que me satisfizesse senão em Sacavém e compreendes… Quando se comem ovos estrelados, quase sempre chegam frios à casa de jantar. Mas deixa lá, Baeta!… Quando lá fores pastar, dou-te doce de ginja e sardinhas de Nantes.
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* *
O Baeta olhou-me de soslaio e voltou para cima da sua árvore sem me estender a mão. Ninguém me tira da ideia ele ter desconfiado que esta minha história era uma vingança da outra, a dos velhinhos com tosse convulsa. Mas V. Ex.as o que teriam feito no meu caso?…
18 de Fevereiro de 1923
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