Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
A catástrofe do A320: a queda do mundo moderno -A actualidade revista por Dostoïevski
Nunzio Casalaspro, Catastrophe de l’A320: la chute du monde moderne; L’actualité revue par Dostoïevski
Revista Causeur, 27 de Março de 2015
“O mundo moderno degrada, escrevia Charles Péguy. O mundo moderno degrada mesmo, teve êxito em degradar o que há talvez de mais difícil de degradar no mundo, porque é qualquer coisa que lhe é intrínseco, como se fizesse parte da sua textura, uma espécie específica de dignidade, como uma incapacidade específica em ser degradada: degrada a própria morte. ” Há muitos meios, hoje, para degradar a morte. De desprezar, de tornar indigno ou de gozar com a morte dos homens. Das pessoas. Certos enterros desenrolam-se muito bem. Certas cerimónias fúnebres. Sabem muito bem reduzir a morte a nada. Ainda há pouco, enterrava-se uma jovem rapariga. Conhecemos os seus pais. Igreja católica, ir à missa. Tudo parece estar em ordem. E o padre, de repente: “Deus é o nosso GPS.” O padre queria encontrar palavras para ele próprio, o padre, palavras que não o desqualificariam entre os vivos, entre os seus contemporâneos, palavras pelas quais desejava inscrever-se na sua época. Queria dizer o sofrimento e a esperança em termos que todos pudessem compreender. Palavras que fazem moderna a leitura da situação. Palavras modernas. Procurava um caminho para chegar até aos corações. Mas procurando os corações, encontrou apenas o ridículo. E a vergonha. E era necessário sair da igreja com esta vergonha. A sua, a nossa.
E todas estas cerimónias indignas. A senhora G. morreu, diz-me um dia a minha mãe. Foi-me buscar o pequeno fascículo que tinha sido distribuído na igreja, durante o enterro da nossa amiga. Dou uma olhadela. Já sabia o que aí ia encontrar. Ou antes, já sabia o que aí não encontraria.. Vejo que se leu um poema . Que se cantou, não se cantou mesmo, passou-se o disco de uma canção de um dado cantor . Não há nenhum texto bíblico. Numa igreja católica por conseguinte: uma cerimónia de enterro sem nenhum texto bíblico. Quero efectivamente pensar que não se seja cristão. Isso não se encomenda. Mas então deve ser dito. Tanto mais, deve-se fazê-lo saber. Não é a mesma coisa que estar a jogar a comédia de um cristianismo desritualizado. Uma comédia representada com o aval, representada com a cumplicidade dos padres. Uma comédia sentimental e vil.
Mas são tantas as comédias vis que estão mesmo a ser representadas neste momento. Um avião acaba de se esmagar nos Alpes franceses. Um Airbus A320. 150 homens, mulheres e crianças acabam de morrer. Então, corre-se para o local, todos se apressam para ir aí prestar-lhes a última homenagem. Alguns sim, estão no local para prestarem uma homenagem a estes mortos. Há as famílias. É necessário pensar nas famílias. Pensar que poderíamos ser uma destas famílias. Mas há também, há, sobretudo, o exército assim como os curiosos e os jornalistas. Dezenas, centena de câmaras de jornalistas que nos oferecem imagens do drama. Vê-se. Vê-se que não há nada a ver. Dezenas de câmaras destinadas a interporem-se entre o que nós poderíamos imaginar e o nosso olhar. O que nos mostram as câmaras, é o que será necessário ver. É-nos proibido ver por nós mesmos, ou seja, finalmente, não ver nada. De guardar no nosso foro íntimo a imagem de um drama à nossa maneira. O que seria bem mais modesto. Bem menos espectacular. Bem mais generoso, talvez. De mais empatia, quem sabe. É necessário ver. É necessário olhar. Diz-se muito – fazem-se muitas queixas sobre estes nossos tempos – de todas estas câmaras que permanentemente estão viradas para nós. Dizem-nos menos que estas câmaras fazem dos nossos olhos umas câmaras permanentes, que nos concentrámos de modo quase permanente sobre os outros. É a nossa própria vista que está prestes a tornar-se uma câmara perene. Chama-se a isto o progresso, dir-nos-ia Péguy. Pessoalmente considero, com Peguy, tudo isto aviltante. Porque é necessário pensar nas famílias. E mesmo sem estar a pensar nas famílias, chamemos a isto aviltante. Estas imagens em malha que todos iremos olhar, de todos estes destroços lançados por todo lado sobre a montanha. É quase impossível resistir. Mas eu diria que isso é quase o menos grave. Trata-se do voyeurismo habitual, inevitável. Daquele que faz parar o mais frio dos burgueses à beira das auto-estradas, quando há um acidente da circulação. O mais grave, são as palavras. Degrada-se pelas palavras, na linha directa dos artigos escritos, das conversas de bar , de tagarelices. Fala-se de corpos em pedaços. De pedaços de corpos. De destroços. Assimila-se o corpo humano, ou seja o ser humano, é ainda a pessoa, às máquinas. Aos destroços de máquina. É necessário colocarmo-nos no lugar das famílias, dos parentes, dos amigos. Imaginem, dado que tem tanto que imaginar, ou seja tanto a ver, que o que estas câmaras nos mostram, o que estas câmaras conseguem enfim captar, à força de procurar na paisagem, seja o nosso filho ou a nossa filha. E nós reconhecê-los-íamos. Reconheceríamos qualquer coisa que fosse deles. Qualquer coisa que fosse deles. Imaginemos seguidamente que o nosso filho ou a nossa filha morreu no acidente e que artigos falam de pedaços de corpos, de destroços. Imaginemos por fim que a nossa filha ou o nosso filho, neste mundo moderno, não valha mais nada , aos olhos do mundo, que uma máquina, um avião. Que as mesmas palavras servem para designar uns e outros – os nossos filhos e um avião. Aviltante. E tentação.
Escrevo tentação enquanto penso num capítulo dos Irmãos Karamazov, de Dostoïevski. Recordemo-nos. Aliocha sabe da morte do seu bem amado guia espiritual, o pai Zosime. Esta morte apanha Aliocha de surpresa. Encontra-se em deplorável situação. Na situação de dúvida a propósito da sua vocação. Então está como os outros, da mesma maneira que a comunidade em redor do guia Zosime: quer ver. Quer chegar e com urgência junto daquele de quem se dizia ser, enquanto vivo, um santo. Um santo, então espera-se dele um milagre. Mas o milagre é uma tentação, aí está o que sabe, o que nos diz Dostoïevski neste capítulo genial. O que quer ver, não verá. Ou antes, verá o que ele quererá ver. Porque o ardor para encontrar um milagre é já sinal que o olhar se perverteu, que se entrou em tentação. E a tentação faz-nos ver o contrário do que se acreditava andar à procura. Em vez de um milagre, vê-se a morte no que esta pode ter de mais sórdido. E este carácter sórdido, esta tentação, é uma monge ciumento que a anuncia a todos, Guérassime: em vez de exalar um perfume, Zosime tresanda e de que maneira. Cheira muito mal e, no entanto, o seu corpo não teve ainda tempo de apodrecer…
Todos nós somos, hoje, graças ao mundo moderno, múltiplos Aliocha e Guérassime. Vemos e falamos sem razão e através, para aviltar. A tentação precede-nos, por toda a parte. Porque as imagens nos precedem por toda a parte, elas são a metáfora do nosso olhar degradado. E as palavras aviltantes seguem-nos por toda a parte. Estas palavras que nos evocam o que podemos ter de mais caro, a nossa morte, os nossas mortos, como sendo destroços.
Nunzio Casalaspro, Revista Causeur, Catastrophe de l’A320 : la chute du monde moderne ; L’actualité revue par Dostoïevski.
Texto disponível em :
http://www.causeur.fr/a320-accident-avion-dostoievski-32025.html



