A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL- O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO[1] – III – A ECONOMIA ALEMÃ, O SEU CRESCIMENTO, UMA DINÂMICA À AMERICANA? – por ONUBRE EINZ – 2

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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A Alemanha, o seu papel nos desequilíbrios da economia real- o outro lado da crise de que não se fala

Uma análise assente na divisão internacional do trabalho[1]

Uma colecção de artigos de Onubre Einz.

III- A economia alemã, o seu crescimento, uma dinâmica à americana?

Onubre Einz, L’économie allemande, une croissance à l’américaine customisée ?

Criseusa.blog.lemonde.fr., 29 avril 2013

(continuação)

A – O coeficiente de Gini e a repartição do rendimento

Onubre Einz - XVII

O coeficiente de Gini da Alemanha indica efectivamente uma ruptura. De 25,8 em 2001, a partir de 2002 este coeficiente iniciou um aumento crescente até 2007. Estagna depois a um nível elevado (cerca de 29).

O que é notável na evolução do coeficiente de Gini, é a velocidade do aumento das desigualdades de distribuição do rendimento entre os alemães. Entre 2000 e 2007-2008, o aumento do coeficiente é de mais de cinco pontos.

A subida nas desigualdades na Alemanha por conseguinte foi forte e rápida. Por memória, este coeficiente tinha-se estabelecido entre 1984 e 2000 em redor de 24-26 pontos.

(http://www.inequalitywatch.eu/spip.php?article114&lang=en).

Para desenvolvimentos ulteriores, usamos dados do Eurostat. Estes dados são incompletos para os anos 2002-2004. É neste momento que a agenda 2000 foi implementada e que os seus primeiros efeitos se começam a fazer sentir. Pode-se também lamentar que o Eurostat não dê os rendimentos em valor quintil por quintil (os Top 20% das famílias mais ricas), o décimo decil (os 10% das famílias mais ricas) e o 100º percentil (os 1% das famílias mais ricas). Afirmamos que Eurostat oculta voluntariamente os resultados económicos de 20 anos de política europeia na Alemanha e na Europa. Um escândalo! Utilizando as partes de rendimento expressas em percentagem, pode-se ter algum sucesso em responder as perguntas que levantámos.

Onubre Einz - XVIII

O exame por quartil do rendimento mostra a lógica geral da evolução dos rendimentos.

Até 2001, a repartição das partes de rendimento indica uma progressão do primeiro quartil das famílias (11 a 13% entre 1995 e 2001) e a estabilidade do segundo quartil (cerca de 25-26%). O terceiro quartil também é estável pelo menos até 2001 (20%). É o 4º quartil que recua muito ligeiramente entre 1995 e 2000 (-2%).

O resultado da política de reformas de Schröder foi então o de modificar muito significativamente a repartição do rendimento entre os alemães. O 4º quartil apropria-se de uma parte crescente do rendimento: + 3,8% entre 2001 e 2008. Não se trata de um processo de convergência pois um processo de convergência teria sido o de retornar à percentagem de 1995 (43%) e retomando uma parte do rendimento adicional de 2%, trata-se antes de um crescimento acelerado que é pelo menos de 1,8%, dedução feita sobre a captura de 1995 (+ 2%). Os outros quartis sofrem perdas de rendimento, inversamente proporcionais à sua riqueza: de -0.4 / – 1% para o terceiro quartil, entre 1995 e 2008, de -1,1/1,3% para o terceiro quartil (2000 / 2007-2008) e de – 2,1% / 1,9% para o quarto quartil (2001-2007-2008). A situação existente antes de 2000-2001, portanto, inverteu-se a favor do enriquecimento das camadas superiores da população.

Portanto, houve uma rápida transferência de rendimento, dos três primeiros quartis (75% dos alemães) para o quarto quartil. No final, houve portanto de um lado enriquecimento e, do outro lado, houve uma queda na parte dos rendimentos.

Onubre Einz - XIX

A análise por quintil é interessante, porque nos permite fazer uma comparação com os EUA. Entre 1975 e 2007, as famílias americanas dos quatro primeiros quintis (percentil 1-80) cederam quase 7 pontos de rendimento para o quintil superior (Top 20). O quintil 81-100 foi literalmente o sorvedouro das partes de rendimento das famílias dos 4 quintis inferiores: 0,20- 0,21% da quota de rendimento por ano durante 32 anos.

Nós não iremos refazer o estudo gráfico em detalhe. Não o repetiremos. Preferimos concentrarmo-nos nos tempos e nas velocidades de transmissão das partes de rendimento entre quintis para os comparar aos dados dos EUA.

Podem-se defender duas teses diferentes.

1ª tese: o 5º quintil perdeu 2% da parcela do rendimento na década de 1990 e recuperou‑os na década de 2000. Um pequeno problema, sendo de 37% a participação no rendimento em 1995, o 5º decil conseguiu mais do que recuperar a parte entretanto perdida, a sua posição de 1995. Este quintil aumentou para 38,5 em 2007 e para 38,6, ou seja, estamos perante um aumento sobre 6 a 7 anos de 1, 5 a 1, 6%, e isto por confronto com os 37% de 1995. A taxa de progresso, para além do processo da reposição da situação anterior (2%) foi de 0, 20-0,22% ao ano.

A Alemanha, portanto, passou por uma aceleração das desigualdades de rendimento igual à média anual americana dos anos de 1975-2007.

A segunda tese considera apenas as evoluções recentes, ou seja, os anos de 2002 e seguintes. Nesta considera-se  que a agenda 2000 é uma ruptura a não permitir  apresentar a tese de recuperação para o quintil superior.

Parece que entre 2001 e 2007-2008, o 5º quintil ter-se-á apropriado de 3,5-3,6 por cento do rendimento ou seja quase 0,6% de rendimento adicional por ano. Isto representa três vezes o ritmo anual americano de parte dos rendimentos que foi deslocado para o quintil correspondente nos EUA entre 1975 e 2007. Portanto, a tese de uma marcada aceleração da desigualdade da distribuição da riqueza aparece assim provada, se considerarmos que a agenda 2000 marca uma mudança profunda na história alemã.

Tal como nos EUA, verificou-se que as transferências de rendimento tendem a aumentar à medida que se desce na escala social: o quarto quintil é poupado, mas são o terceiro quintil (-0, 4 /-0, 5%), o segundo quintil (-1,3 / – 1,4%) e o primeiro quintil (-1.6%) quem paga os tributos mais pesados. Como única diferença para com os EUA, o primeiro quintil foi mais atingido nos EUA.

As novas diferenças na repartição do rendimento estão a trazer uma confirmação antecipada quanto à tese de uma transformação insidiosa do modelo de crescimento de que apresentámos as características principais na nossa introdução.

Onubre Einz - XX

A análise revela uma característica de americanização no crescimento alemão. No modelo de crescimento dos EUA – passando pela subida dos rendimentos elevados e pela queda da parte relativa dos outros decis e também do investimento produtivo – mostrou-se uma verdadeira sobre‑reacção do último decil das famílias, os 10% de topo, que se apropriam de uma esmagadora parte dos rendimentos do quinto quintil, os top 20 das famílias. Acontece o mesmo na Alemanha: o top 10 tem estado a usufruir um aumento da sua parte de + 3,4% (2000-2008) e o decil de 81-90, têm tido um aumento muito pequeno (+ 0,3%).

Este fenómeno é típico de uma aceleração considerável de enriquecimento dos mais ricos e que é acompanhado dos fenómenos que assinalámos anteriormente. Para acompanhar a demonstração que se segue, deve ser lembrado que, em 1975, 80% dos lares americanos tinha 57% do rendimento e os 20% das famílias restantes tinham os outros 43%. A distribuição em 2007 era de cerca de 50-50.

As elites económicas alemãs parecem ter sido apanhadas por uma paixão, por uma avidez de rápido enriquecimento. À velocidade que é realizada a reestruturação da distribuição do rendimento, as elites económicas do décimo decil ter-se-iam apropriado de 6% de participação de rendimento por decénio, se não tivesse havido uma crise, o que é quase tanto como nos EUA em três décadas, e teriam ultrapassado a barra dos 30% de rendimento em 2017. O último quintil teria ao mesmo ritmo ultrapassado 40% em 2017 e chegaria a 45% em 2027. A situação americana – com tudo o que isso implica para a economia – estava já no fim de linha, em que o investimento produtivo teria acabado por pagar o preço desta sede de enriquecimento. Os elementos da americanização do crescimento de que realçamos a presença não existem  por acaso. Eles são a antecâmara do declínio…

A crise, crise duríssima, veio parar um processo que teria colocado a distribuição de rendimentos muito próxima da dos EUA em 2006. Poderão objectar-nos sem dúvida que este processo provavelmente não poderia chegar ao seu termo por razões sociais porque a Alemanha não são os EUA. É provável. Neste trabalho, queremos simplesmente mostrar que o processo foi desencadeado e com a crise ficou em suspenso.

Onubre Einz - XXI

A análise por decil mostra sob outra forma quem são os perdedores da repartição do rendimento e os vencedores da distribuição do rendimento. Os perdedores são os decis 1,2,3,4,5 ou seja 50% dos Alemães. Os decis 6º, 7º e o 8º conheceram evoluções contrastadas que lhes permitiram conservar grosseiramente a sua parte no rendimento.

Mas o mais importante é que a crise, na verdade, suspendeu um processo que a termo é negativo para a economia alemã, cujas elites económicas estão a destruir o modelo por espírito de acumulação e de avareza. É um traço bastante comum na zona Norte-Atlântico: a aceleração das transferências de rendimento e a acumulação dos patrimónios para o topo da pirâmide são a expressão de um salve-se quem puder das elites que organizam em seu proveito o naufrágio programado das economias nacionais que os suportam.

(continua)

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Ver o original em:

http://criseusa.blog.lemonde.fr/2013/04/29/leconomie-allemande-une-croissance-a-lamericaine-customisee/

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Para ler a parte I de A economia alemã, o seu crescimento, uma dinâmica à americana?, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL- O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO[1] – III – A ECONOMIA ALEMÃ, O SEU CRESCIMENTO, UMA DINÂMICA À AMERICANA? – por ONUBRE EINZ – 1

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[1] O título dado à  colecção é da responsabilidade do tradutor.

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