A IDEIA -SURREALISMO NEGRO – 1 – por Alfredo Margarido

 

Reflectir hoje sobre o que foi ou pode ter sido a intervenção dos surrealistas e do surrealismo na Luanda e na Angola dos anos 1954-1958 não é encargo fácil, dadas as múltiplas implicações políticas e culturais que antes e depois daquele momento assinalaram o desenvolvimento do colonialismo português. Por outro lado, relendo hoje a parte substancial do que naquela época escreveu a imprensa angolana, percebe-se de forma clara que aquela intervenção, cujo centro foi a exposição de Artur Cruzeiro Seixas em Janeiro de 1957, desempenhou um papel crucial como revelador dos fantasmas da sociedade colonialista portuguesa. Não me parece que todos estes factos possam ser analisados em clave puramente estética, visto que eles, como de resto todas as propostas de criação e invenção da época, apresentavam um aspecto ético essencial. Daí a inevitável diferença entre o ético e o estético, e a necessidade de considerar no seu conjunto uma acção que desencadeou reacções brutais na elite branca angolana. Mergulharemos assim numa estrutura social que, sendo vizinha no tempo, já hoje nos aparece como arcaica e ultrapassada, tendo já desaparecido as formas de relacionamento étnico que a caracterizavam e determinavam. Nem por isso deixam de ser menos úteis, algumas considerações sobre a intervenção surrealista que nela teve lugar; úteis e até reveladoras, pois que graças às reacções que provocou, a fechada sociedade dos colonialistas brancos pôs a nu a relativa insegurança em que vivia e o precário equilíbrio da sua autoridade. Se a acção surrealista de que falamos não teve, no plano das decisões, o mínimo efeito prático, parece-me que da releitura dos factos em causa se pode tirar uma proveitosa lição, que, posto que provisória, serve para fazer luz sobre a força de invenção nas sociedades onde por sistema é sufocada. Pode talvez surpreender a violência da reacção branca, mas também a mobilização de todos os meios de comunicação para comentarem aquela mostra, que se inseria, em plano mais limitado, no seio das actividades que o pequeno grupo surrealista havia realizado no meio luandense e mais largamente angolano. O grupo era formado por Artur Manuel do Cruzeiro Seixas, José Manuel Soares Guedes, Manuel António da Silva Júnior, Maria Manuela Margarido, de quem aqui assina e de Acácio Barradas, com intervenções mais ou menos localizados; à distância, porém, é necessário considerar também Alfredo Azevedo, Jorge Costa e um velho militante do Partido Comunista, que nos apoiou com teimosa persistência, o meu ex-camarada de prisão no Porto, Antero Moreira, que naquela época era contabilista em Luanda. O tempo não esclarece tudo, mas permite às vezes que os contornos se façam mais nítidos e que desapareça o cerrado véu que impede a leitura cristalina. A imprensa e a rádio não se mobilizaram apenas em torno da exposição de Cruzeiro Seixas e não responderam só às provocações surrealistas; defenderam, ademais, um conceito de hegemonia branca, inesperadamente atacada nos fundamentos por uma manifestação que não só transgredia os códigos estéticos vulgarmente praticados e aceites, como propunha a sua abolição, oferecendo em troca uma arte bárbara, apresentada como mais próxima da África do que da Europa. Esta posição aparecia então, e aparecerá ainda hoje a muitos, como inaceitável, já que alterava um dos pontos de referência do sistema: o belo não era branco mas negro. É fácil reconhecer aqui, embora talvez de forma involuntária, a vizinhança com certos segmentos da negritude: para nós, o essencial, porém, era romper o mais sistematicamente e coerentemente possível com o mundo de dominação dos brancos. Se a nossa actividade anterior e a mostra de Janeiro de 1957 pudessem ter deixado qualquer dúvida, algumas declarações ulteriores, as minhas em particular, se encarregaram de as eliminar. É verdade que elas hoje revelam claramente a falta dum claro enunciado político, que, mesmo nos momentos em que está presente, é muito confuso. E nenhuma surpresa há nisso: não havia naquela época em Portugal e menos ainda em Angola, tirando alguns minúsculos grupos africanos, quem tivesse um vocabulário político coerente. Demais, a censura era uma realidade e o grupo de censores em acção na Luanda do tempo cumpria com rigorosa e cega determinação a sua tarefa. Não vale a pena esmiuçar pormenores, mas numa sociedade branca extremamente minoritária e solidária, cada passo devia ser controlado: cautela compreensível do ponto de vista do aparelho repressivo. As nossas posições podiam ser também ingénuas, como ingénua seria a nossa acção, mas não por isso foram menos reveladoras.

 

 

 

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