A EUROPA DOS DEDOS DE HONRA – JOGO DE MÃO, JOGO DE VILÃO. E O JOGO DE DEDOS, JOGO DE EMOÇÕES – por CORALIE DELAUME

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A Europa dos dedos de honra – jogo de mão, jogo de vilão. E o jogo de dedos, jogo de emoções

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Coralie Delaume*, L’EUROPE DES DOIGTS D’HONNEUR, Jeu de mains, jeu de vilains. Et jeu de doigts, beaucoup d’émoi

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Revista Metamag, 19 de Março de 2015

Desinformação - II

Resumidamente, soube-se esta manhã que na sequência de sucessivos desmentidos do interessado, o vídeo que data de 2013 e em que se mostra Yanis Varoufakis em vias de fazer um dedo de honra à Alemanha era uma montagem. Uma partida imaginada por um humorista alemão, Jan Böhmermann, e que se lhe perdoa sem problemas e de boa vontade. Só faltaria que na França de “Eu sou Charlie” e “do espírito do 11 de Janeiro”, se estabelecessem fatwas contra os autores de brincadeiras de mão gosto. !

Mais dificilmente perdoável em contrapartida é a maneira como certa imprensa alemã de boa reputação, considerada como séria, retransmitiu esta questão. Certamente, como se explica aqui, o diário Frankfurter Allgemeine Zeitung teve a presença de espírito de se mostrar surpreendido. Porque o vídeo onde se vê aparecer saltar o dedo do desacordo apareceu de repente no Youtube em Fevereiro passado, enquanto que a conferência de Varoufakis incriminada  já foi há dois anos. No entanto, é uma emissão política que tem tudo o que há de mais “respeitável” difundida pela cadeia ARD que deu ao FAKE o seu mais largo eco. E, desta vez, sem estarem a pôr demasiadas perguntas. Ou então, não as boas…

É necessário acreditar que considerar de tanto interesse esta – decididamente muito digna – questão do dedo apresentava para alguns um certo interesse. Com efeito e como o explica Romaric Godin em La Tribune, esforçando-se por “fazer passar o governo grego para uma equipa de palhaços dignos do circo Bouglione (…) confirma a encenação da informação comprometida desde o 25 de Janeiro: Syriza não tem um programa realista, a prova final da ausência de alternativas à política da Troika”. E se, de passagem, fazer crer na ideia de que os Gregos são uns grosseirões, é melhor ainda! Incompetentes, está bem. Incompetentes e mal-educados, é ainda melhor. Como assim, se viesse a dar-se um “Grexident” de acordo com a fórmula de Wolfgang Schäuble, ou dito de forma diferente uma escorregadela infeliz pela parte da Grécia para fora da zona euro, poder-se-ia dizer quem são os toscos a arrasar!

É necessário dizer também que um muito velho hábito do dedo de honra pode deixar vestígios. Parece que quando se experimenta, nunca mais se deixa de utilizar.

Ora, parece que os meios de comunicação social alemães são agora utilizadores habituais.

Desinformação - I

Recorde-se o semanário Focus tinha publicado, em 2010, um número especial acompanhado  de uma “Une” excepcionalmente delicada a pretender revelar as “traições na família do euro”. A ilustração era uma Vénus de Milo a levantar o dedo maior. Então, quem começou?

Em todo caso, nunca se deixa de nos espantar a capacidade da “Europa- é – a – paz” em promover a compreensão mútua, a tolerância e a amizade entre os povos.

Não se acaba também de constatar, e com que vigor, que as nações da Europa que se tinha querido fazer desaparecer, enterrando-as sobre montões de regras e procedimentos pseudo federais, estão a reaparecer? Porque, da Europa não se vê nenhum vestígio nesta questão tão simbólica. Há de uma lado a nação alemã, defendendo com muita agressividade os seus interesses, ou o que considera como tal, e há, do outro lado, a nação grega que passou a agitar-se fortemente contra a corrente depois de estar anos e anos sob tutela e a debater-se fortemente porque aspira ao mesmo tempo a recuperar a sua soberania e muito da sua dignidade como país.

Enquanto se espera que alcance esses nobres objectivos – e em que tem poucas possibilidades de o conseguir enquanto não pretender o Grexit – teremos muitos dedos de honra. Não de uma parte ou da outra, mas todos de bem perto. Porque é necessário insistir : todos os dedos grandes que se têm visto esticados até agora, o de Jan Böhmermann como o de Focus eram made in Germany.

Seja como for, pode-se apenas esperar que se chegue rapidamente ao fim. Depois da Europa da massa, a última coisa de que se tem necessidade é de uma Europa a ser pelas costas totalmente massacrada pelos alemães.

Coralie Delaume, Revista Metamag, L’EUROPE DES DOIGTS D’HONNEUR – Jeu de mains, jeu de vilains. Et jeu de doigts, beaucoup d’émoi.Texto disponível em:

http://metamag.fr/metamag-2764-L-EUROPE-DES-DOIGTS-D-HONNEUR–Jeu-de-mains–jeu-de-vilains.-Et-jeu-de-doigts–beaucoup-d-emoi.html

* Ver também em:

http://l-arene-nue.blogspot.fr/search?updated-max=2015-03-28T02:24:00-07:00&max-results=7

1 Comment

  1. Imprensa de “boa reputação, considerada como séria” é uma espécie em vias de extinção, na Alemanha e em todo o lado. A reputação e seriedade das antigas “referências” da comunicação social ficam-se, hoje, pelo círculo de fiéis ao “pensamento dominante” a que a maioria delas se foi confinando.
    Para além disso, há que ter em conta, sempre, a crescente importância da estupidez (cujo domínio é muito mais vasto do que se vai, com optimismo mas escasso fundamento, sustentando), da ignorância e da distracção que a aparente “velocidade do Mundo moderno” incrementa.
    Eles não viram porque são estúpidos, ignorantes (tanto mais, quanto mais especializados se apresentam…), ideologicamente condicionados e destituídos de qualquer capacidade para a observação atenta das coisas. O Mundo não está mais veloz, o pessoal é que roda, por inércia, a velocidade tal que a realidade lhe causa vertigens. Não tenhamos receio de enfrentar esta realidade. Tenhamos, sim, alguma pena e muita preocupação. Porque o futuro tende a ser pior…

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