PRESS LEAKS MADE IN GERMANY – OS JORNAIS NÃO GOSTAM QUE SE SAIBA SOBRE OS SEUS PRÓPRIOS SEGREDOS – por SYLVIA BOURDON

europe_pol_1993Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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 Press leaks made in Germany

Os jornais não gostam que se saiba nada sobre os seus próprios segredos

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Sylvia Bourdon, Press leaks made in Germany – Les journaux n’aiment pas qu’on déballe leurs propres secrets

Revista Causeur.fr, 19 de Março de 2015

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Após Julian Assange, Edward Snowden para “os leaks” políticos mundiais, Swissleaks de Hervé Falciani sobre o HSBC, temos hoje um enorme “pressleaks” na Alemanha, na  pessoa do Dr. Udo Ulfkotte, 53 anos, que colaborou durante dezoito anos no mais prestigiado diário alemão, o FAZ (Frankfurter Allgemeine Zeitung), até ser o chefe de redacção.  Ulfkotte foi igualmente conselheiro  do Chanceler Kohl. Em 2003, é distinguido com o prémio  da Fundação Annette Barthelt.

Num testemunho, Gekaufte Journalisten (Jornalistas comprados), revela os nomes dos seus colegas mais famosos na Alemanha, instrumentalizados pelos serviços de informações americanos e alemães. Ulfkotte considera que a Alemanha é “uma colónia americana”. Afirma ter sido manipulado como os outros. Hoje, arrependido  declara “ter vergonha de ter feito parte deste sistema de corrupção”. Apesar do silêncio sobre o seu testemunho, o livro é um bestseller. “Nenhum jornalista é autorizado a  falar do meu livro com o risco de vir a ser despedido. Temos por conseguinte um bestseller, sobre o qual os mainstreams não têm nem autorização nem  de  escrever, nem a  autorização de falar. ” diz ele à televisão Russa, RT.

Ulfkotte considera, que o objectivo dos serviços secretos é o de conduzir as nações para a guerra e que a corrupção de jornalistas dos grandes   jornais de  informações no  Ocidente é uma rotina para a CIA. Entre “as histórias” que o Dr. Ulfkotte devia escrever sobre ordem, encontrava-se a lendária informação  segunda a qual o Coronel Kadhafi construía fábricas de produção de venenos. Declara igualmente ter visto com os seus próprios  olhos a utilização de gás contra os Iranianos por ordem de  Saddam Hussein, durante a guerra o Irão-Iraque. Os responsáveis editoriais da época não estavam  interessados por este facto, porque o Iraque era aliado dos  EUA. O antigo jornalista considera estar melhor colocado que os seus colegas  para denunciar este sistema, pois não é casado, não tem filhos que possam  ser postos em perigo pelas suas divulgações. “Quando confiei ao meu jornal, o FAZ, que ia publicar o meu livro, os seus advogados ameaçaram-me, dizendo-me que eu deveria extrair daí todas  as consequências, sobretudo se publicasse nomes ou segredos, mas é-me indiferente.  Veja-se,  não tenho crianças com que me incomodar. Deve-se  também saber que fui ferido  gravemente durante os ataques de gás de que fui testemunho no Irão em 1988. Sou o único jornalista alemão que sobreviveu a estes ataques de  gás. Sofro sempre. Fui vítima de três ataques cardíacos. Não penso viver mais de alguns  anos. ” Lamenta “ter mentido” aos leitores todos estes  anos.

E Ulfkotte acrescenta: “Publiquei artigos sob a minha assinatura redigidos pelos agentes da CIA e por outros serviços secretos, em especial os serviços alemães. ” Ulfkotte descreve as mentiras e  a corrupção de que foi  objecto pela CIA e por outros serviços de informações aliados, com o objectivo de fazer avançar as suas agendas políticas. Ulfkotte conta que organizações próximas do governo oferecem viagens,  com todas as despesas incluídas, aos jornalistas. Por outro lado, é exigido deles, que escrevam favoravelmente sobre os seus “patrocinadores”. Retoma o caso do gás sobre os  Iranianos do qual foi testemunha, nos  anos 80 e precisa: “pediram-me que entregasse  as fotografias que tirei  à associação alemã das companhias químicas em  Francoforte – Verband der Chemischen Indústria -. Este veneno que matou tantos Iranianos era made dentro Germany

No seu livro a CIA e os meios de comunicação social, o repórter  do Watergate, Carl Bernstein cita o testemunho de William B. Bader, antigo  oficial da CIA, face ao  Comité de investigação do Senado: “espantosas relações estão  em vigor. Não se  tem necessidade de manipular Time Magazine,  por exemplo, porque ao nível da direcção já estão instalados agentes da CIA. ” Eis o que Bernstein escreveu: “A relação da agência com  Time era a mais viável entre os jornais, de acordo com os oficiais da CIA. De 1950 à 1966, são cerca de dez empregados da CIA que forneceram ao Time  coberturas aprovadas pelo editor Arthur Hays Sulzberger. Os arranjos sobre as coberturas faziam parte da política geral de  Time Magazine, posta em prática  por Sulzberger, que consistia a dar  assistência à CIA sempre que fosse possível. ” Várias décadas depois de  Bernstein, o Alemão Ulfkotte diz-nos por sua vez o seu lote de informações .

Ulfkotte ultimamente tem apoiado Pegida. Não é de  surpreender  que “os caminhantes” de Pegida, em toda a Alemanha, gritem  incessantemente: “Lügenpresse! ” Imprensa mentirosa… O seu corajoso editor, Kopp, declara que nenhuma personalidade levantou  queixa contra ele. Mas Ulfkotte precisa: “Desejo que levam queixa porque, então será tudo  desempacotado em frente  da justiça e levado ao conhecimento do público”

Quantos jornalistas, aqui, em  França, são eles  objecto desta corrupção? O jornal Libération publicou recentemente um artigo sobre “os leakers”, considerando que deviam ser protegidos para revelar ao grande público os bastidores escuros da política ou da finança. Escreveria o jornal  a mesma coisa, se um dos seus revelasse comportamentos do género dos agora denunciados ? Pois bem, é o Dr. Udo Ulfkotte! Apostar-se-á  que se o livro vier a ser publicado em  França que Libération  passá-lo-á  sobre um enorme e espesso  manto  de  silêncio.

Sylvia Bourdon,  Revista Causeur, Press leaks made in Germany-Les journaux n’aiment pas qu’on déballe leurs propres secrets. Março  de 2015. Texto disponível em:

http://www.causeur.fr/press-leaks-made-in-germany-31940.html

 

*Photo : wikicommons.

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