Era necessário tomar também em mãos a reapropriação da natureza. Um grande número de objectos expostos foi montado a partir de restos abandonados por um mar generoso nas intermináveis praias dos arredores. E mais uma vez a sociedade branca era forçada a estabelecer uma conexão com esta natureza desprezada e sobretudo desfigurada. O crescimento de Luanda podia medir-se pelo número de embondeiros abatidos para dar lugar às casas dos brancos, ao capital branco, ao capitalismo branco. A relação directa entre o embondeiro e a população negra era destilada no texto de apresentação da exposição; através duma tradução de Lautréamont punha-se em relevo a qualidade mágica do embondeiro. Isto era uma outra forma de provocação, pois esta árvore, que fornecia frutos comestíveis, madeira para construções e até água, já que armazenava este líquido no momento das chuvas, assim se enraizando de forma incontornável na vida dos negros africanos, era tomada pelo homem europeu apenas como uma árvore exótica e por isso insignificante. De novo a visão que nós, surrealistas, tínhamos da África era diferente da concepção utilitarista da colónia branca.
A operação de recuperação dos detritos litorais funcionou às maravilhas no sentido desejado pelos surrealistas. Na natureza – e era isto que se procurava dar a entender – não há desperdícios; a natureza, em cada fase, apenas propõe formas novas, ao contrário de tudo o que acontece na sociedade branca e aos objectos que ela produz. Um albatroz morto pelos caçadores europeus, caído no mar e restituído às praias reduzido a esqueleto devido à voracidade dos peixes e dos crustáceos transformava-se logo num concentrado de propostas plásticas, que bastava deixar sedimentar para que pudessem ser usadas na reconstrução do universo. De forma improvisada o desperdício autonomizava-se, propunha-se como exemplo e incitava a criticar o gosto destrutivo da sociedade branca, incapaz de compreender a subtileza das proposições da natureza. Neste campo acontecia o nosso encontro com a sociedade africana: porque ao mesmo tempo que os brancos denunciavam sistematicamente a nossa acção, os africanos vinham visitar a exposição misturando-se com os brancos e encontrando nela motivos de adesão e de entusiasmo. Também nesta reagir os africanos se opuseram ao snobismo dos brancos: ou aprovavam, compreendendo e amando, ou reprovavam, mas sem falsos argumentos intelectuais, privados de afecto.
A nossa mostra, e fora dela de toda a nossa actividade criativa e provocatória, não prescindia, é verdade, de construção intelectual, mas exigia também uma dimensão afectiva, dimensão esta quase inexistente no mundo branco, absorto de todo na procura do lucro. Na verdade a denúncia do espírito comercial de Luanda continha a denúncia de todo o sistema baseado na venda da força de trabalho e na venda da terra. A África de expressão portuguesa, como as outras regiões do continente, havia sido vítima desta transformação essencial da economia liberal. Assalariados submetidos ao código urbano, os africanos estavam excluídos da natureza e todavia entendiam a essência da nossa proposta, que refutava antes de mais os elementos urbanos puros. Não alinhando por inteiro com a denúncia da cidade que havia sido feita pelos expressionistas alemães ou por alguns poetas portugueses, como Gomes Leal e Teixeira de Pascoaes, não podíamos ainda assim aceitar a topografia de Luanda, rigidamente dividida num espaço branco e num espaço negro. Nisto os surrealistas eram mais coerentes que a oposição política, já que denunciavam o desfasamento existencial entre a proposta europeia e a qualidade da vida, enquanto os segundos não iam além dum discurso formal que elogiava os valores duma oposição política formalmente vaga, promovida de resto por homens que pertenciam ao escol dominante e controlavam alavancas essenciais da economia angolana. Ao invés os surrealistas apresentavam-se sem suportes oficiais ou oficiosos e não se serviam das instituições para encontrarem uma razão deles, que de resto não queriam alcançar, nem elaborar, nem programar, admitindo deste modo uma a-razão e sobretudo uma não-razão, isto é a possibilidade de construir formas livres dos modos razoáveis em que se estruturava o mundo português e europeu no seu conspecto.
É necessário desde já desfazer qualquer engano: os surrealistas não fizeram tudo aquilo que devia ou podia ser feito. Ainda assim, para se entender a importância da sua acção, e fora de qualquer intenção de canonização hagiográfica, que está longe dos meus propósitos, bastará reflectir no facto de, num ambiente no qual os brancos calavam entre si as discórdias para fazerem frente comum contra os negros, terem aparecido alguns brancos que não só desertavam do bloco português como afirmavam a radical superioridade dos valores africanos sobre a miséria dos projectos europeus. A sociedade branca foi forçada a interrogar-se, ainda que pouco e por pouco. Tratou-se, é claro, duma auto-crítica difícil, para não dizer impossível, porque teria comportado um mal-estar que obrigaria a pôr em causa o próprio colonialismo. Por esse motivo a reacção da imprensa foi tão violenta e fechada a qualquer tipo de diálogo: se um branco se afasta, pouco ou muito, dos modelos da sociedade colonial, deve ser de imediato condenado e marginalizado, se não mesmo erradicado e expulso.
E se a sociedade colonial aceitava os casos de africanização de brancos isolados na floresta que adoptavam usos e costumes africanos, era porque se tratavam de casos esporádicos, sem contacto com o mundo urbano e dizendo respeito a indivíduos de estratos sociais modestos, desprovidos da bagagem cultural indispensável para resistir com eficácia à pressão do contexto social. Tais acidentes, condenáveis em si, tinham porém uma larga utilidade, já que serviam de pretexto para impor normas severas de comportamento, em especial aos africanos, que deviam resguardar-se nos seus espaços, preservando a sociedade europeia de qualquer contaminação. Ora os surrealistas podiam ser culpabilizados de tudo ou de quase tudo, mas nunca podiam ser acusados de analfabetismo e de irresponsabilidade no plano cultural e social. As suas actividades profissionais, os seus percursos académicos não deixavam qualquer espaço para este género de argumentos. A africanização que eles propunham não só era inédita como a sua exposição, a sua teorização impunham argumentos diversos, que os ideólogos do colonialismo não eram capazes de contraditar. Por esse motivo viram-se constrangidos a recorrer à repressão.
NOTA FINAL
O texto de Alfredo Margarido (1928-2010) que aqui se apresenta por gentileza de Isabel de Castro Henriques, a quem muito se agradece, foi publicado pela primeira vez em língua italiana, Surrealismo in Colonia (Quaderni Portoghesi, Pisa, Giardini Editori, Primavera de 1978, pp. 53-64), com separata. No mesmo número, Jorge de Sena publicou o texto “Notas acerca do surrealismo em Portugal”, datado de Santa Bárbara, 16 de Abril de 1978, por certo um dos derradeiros que escreveu, se não mesmo o último, visto que morria muito pouco tempo depois. Na reedição do texto em livro, em Estudos de Literatura Portuguesa – III (1988), a organizadora do volume, Mécia de Sena, em nota bibliográfica final, esclarece que o texto foi solicitado por Luciana Stegagno-Picchio e levado por esta ao italiano. O mesmo por certo sucedeu com o de Alfredo Margarido, cuja versão original, em língua portuguesa, hoje se desconhece. Optei pois por uma tradução a partir do italiano, com título livre, mas próximo do texto, dando a conhecer pela primeira vez, tanto quanto sei, o conjunto em português. Tendo sido um dos protagonistas da acção surrealista em Luanda, Margarido, que acabou expulso de Angola por causa dela, pagando caro o atrevimento, deixa nestas linhas um contributo de monta para se começar a entender um segmento quase desconhecido do surrealismo em Portugal, a intervenção que ele teve na Luanda colonial da década de 50 do século passado. No livro A Intervenção Surrealista (1966), Mário Cesariny recolheu a propósito desta extensão alguns trechos jornalísticos, centrados todos nas duas exposições de Cruzeiro Seixas na cidade, a primeira em Novembro de 1953, a segunda em Janeiro de 1957, esta largamente tratada no trabalho de Margarido. Entre os extractos relativos à segunda mostra, Cesariny recolhe um do jornal O Comércio de Angola (23-1-57), da autoria de Jaime de Amorim, referido por Margarido como um dos contraditores da exposição. Cito passo, que dá a ver a medida do escândalo que a mostra provocou na sociedade branca angolana: Também eu, depois de engolir um sapo, cobrei ânimo para ir até o antigo “covil dos ladrões”, ver uma coisa a que impropriamente chamaram exposição de pintura… Fui evidentemente logrado, porque ali não há pintura, não há cor; há cheiro… fétido. (…) Não vi pintura, mas vi lixo; não vi arte, mas vi imundície; não vi originalidade, mas sim… ! Um dos interesses do texto de Margarido está em fornecer elementos sobre a existência dum grupo surrealista organizado em Luanda na segunda metade da década de 50 e que terá acabado por causa da dispersão dos seus membros – Cruzeiro Seixas regressou a Lisboa no início da década seguinte e Margarido foi expulso de Angola, pelo governador-geral, ainda em 1957, e proibido de aí regressar, tendo-se exilado em Paris no início da década seguinte, não sem antes passar pelas mesas do café Gelo, vindo a colaborar nas mais importantes publicações desta geração, Folhas de Poesia, Pirâmide e KWY. [ACF]

