CRÓNICAS DO QUOTIDIANO – PANTEÃO? PREFIRO A VALA COMUM! – por Mário de Oliveira

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Morreu ontem a caminho dos 107 anos e já se pergunta, nos círculos do poder político, se o cadáver de Manoel de Oliveira, o mestre que nunca deixou de ser menino-aprendiz de Cinema, virá a ter honras de panteão nacional. A inversa seria, certamente, muito mais conforme à originalidade da sua arte de nos apontar o insondável Mistério da Vida, que o poder mentiroso, assassino, jamais (re)conhece: – Merece, o corpo vivente que é, definitivamente, Manoel de Oliveira, a humilhação de ver o seu cadáver no covil de ladrões panteão nacional? A simples existência do panteão nacional não é uma escusada agressão aos seres humanos, na sua diversidade de povos, incluídos aqueles poucos, cujos cadáveres, o poder de turno, na sua estrutural demência-vaidade, condena a serem trasladados para lá? Só mesmo o poder é capaz de semelhante discriminação que, objectivamente, constitui o maior insulto às pessoas, cujos cadáveres lá deposita. É tão analfabeto/cego em questões de Vida-e-de-Morte, que nem vê que, com esse seu agir, mata definitivamente essas pessoas. Só na comunhão-relação, somos. Todo o privilégio discrimina-mata. A este propósito, é fecundamente revelador sublinhar que, precisamente, em Abril, mas do ano 30, numa sexta-feira como a de hoje, o poder, no pleno dos três poderes, ordena que o cadáver de Jesus, assassinado por ele na cruz como o maldito, seja lançado à vala comum. Assim se faz, apesar do registo de certas narrativas evangélicas. Não a negarem o facto, mas a interpretá-lo, em dimensão antropológica-teológica-outra, que o poder jamais pode entender. A saber: Nada mata tão definitivamente a vida-Ruah-Liberdade, como o panteão, o privilégio. Nada a afirma tanto, como a vala comum. Felizes, pois, quantas-quantos o poder despreza e, depois de morrerem, jamais pronuncia o seu nome. É esta felicidade que mais desejo para mim! Apenas as vítimas do poder pronunciem o meu nome, quando, na intimidade/clandestinidade, partilharem umas com as outras a mesma Mesa politicamente conspirativa.

3 Abril 2015

 

 

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