Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Eleições Departamentais: a esquerda em farrapos -o socialismo ao nível das Regiões está morto em França
Régis de Castelnau, Départementales: la gauche en lambeaux – Le socialisme départemental est mort
Revista Causeur.fr, 30 de Março de 2015
“Ceterum censeo autem, Carthaginem esse delendam.” Todos aqueles que tiveram a oportunidade de aprender um pouco de latim antes da próxima proibição do seu ensino recordarão que, segundo a tradição, Catão, o velho, pronunciava sempre esta fórmula em cada discurso no Senado Romano, qualquer que fosse o tópico. “Na minha opinião, Cartago deve ser destruída”. A expressão é hoje utilizada para se referir a uma ideia fixa, mantida até à sua conclusão. O ditado também significa a necessidade de destruir uma instituição ou uma estrutura que se tenha tornado nefasta mas que persiste.
O Partido Socialista está moribundo. Já nos referimos nesta revista a esta problemática há um ano, depois do resultado das eleições municipais. O final do ano que ainda há pouco tempo terminou confirmou, se necessário, que o mal era incurável. E, mais grave ainda, é o facto de que esta morte tenha contaminado toda a esquerda. E mais grave ainda, que o PS tinha levado este país por caminhos bem perigosos. O processo eleitoral para as eleições departamentais e os seus resultados só o podem mergulhar na angústia. Uma campanha absurda, qualquer que seja o ponto de vista, uma nova derrota em campo aberto e uma atitude após os resultados que reflecte a sua passagem de uma situação de pânico para uma situação de autismo.
Desde a década de 1970, o Partido Socialista tinha conseguido construir um socialismo departamental, ou seja, tinha grande peso eleitoral ao nível dos departamentos de França. Este dispositivo, com base na eficiência local e na protecção social, pode apresentar um balanço lisonjeiro. Esta coabitação estranha que fazia com que os franceses quisessem (papá) no palácio do Eliseu e a (mãe) nas Câmaras e nas prefeitura, pelo menos em parte porque a esquerda era hegemónica em quase 60% das comunidades territoriais significativas. Poderia ter sido relevante valorizar este balanço e a acção dos que agora saem com um trabalho digno realizado. Não, no palácio do Eliseu, pratica-se o ditado “porquê ser eficaz quando muito mais facilmente se pode ser desastroso.” E isto é de antologia. Um ataque absurdo a uma instituição a que os franceses ainda estão muito ligados. Uma promessa (ameaça) de a suprimir e uma indefinição total sobre as competências que terão de assumir as instituições que somos chamados a eleger. O estabelecimento em nome da paridade, de um modo de eleição verdadeiramente delirante. Permitia-se assim que se pudessem fazer saír os eleitos populares em fim de mandato em benefício de perfeitas incógnitas recrutados para esta ocasião. Enviar em primeira linha o primeiro-ministro “nacionalizar” a eleição ao mesmo tempo que diabolizava aquele que se considera hoje justamente como “o primeiro partido de França”, rejeitando de passagem o seu eleitorado fora da República. A esquerda, que tinha todos os poderes em Maio de 2012, com eleitos em fim de mandado em 61 departamentos sobre 100, está hoje reduzida à seguinte palavra de ordem: “barrar o caminho à FN”. Patético.
Isto era assim antes da primeira volta. Conclusão, os resultados foram consistentes com as previsões. Primeiro, a coligação de direita, e depois a FN com a percentagem eleitoral mais alta até hoje alcançada[1]. Então, foi preciso montar uma operação de comunicação lamentável. Pretender que a FN recuava comparando a sua taxa efectiva de votantes com a taxa que se previa na votação à boca das urnas! Afirma-se contra toda a evidência, que o PS resistiu bem, somando couves com cenouras. Até o episódio do charuto de Manuel Valls.
Com amarras tão grandes, tão insultuosas, que foram rapidamente abandonadas pelos media facilmente complacentes. Pode-se ser ainda mais cego e surdo? Não se trata verdadeiramente de cinismo mas sim de autismo ao extremo. A segunda volta não passou de ser a confirmação da primeira.
O socialismo municipal morreu em Março de 2014 e desta vez é o socialismo departamental. Depois da perda de cerca de quatro mil trabalhadores permanentes municipais (notáveis eleitos, empregos de gabinetes, militantes de associações subsidiadas), o défice deve ser aproximadamente de mil e duzentos. Nova carnificina nas regionais em Dezembro próximo.
Não vamos aqui enumerar todos os desastres, erros, inconsistências, gafes, que ritmam esta corrida para o abismo. Isto exigiria um registo permanente, diário. E agora, o ridículo leva tudo. Sociólogos, cientistas políticos, demógrafos, filósofos, auscultam a sociedade francesa para perceberem o que está a acontecer. Aqueles que são sérios convergem na observação de que se assiste agora ao aparecimento de uma França culturalmente à direita. Um oligopólio cultural gramsciano comportando os valores de direita é o que se está a instituir em França. A isso se acresce a fraqueza política do aparelho do PS . Que não estava do ponto de vista político, cultural e profissional equipado para garantir o exercício do poder de Estado.
Em Maio de 2012 dá-se um acidente histórico estranho. Um candidato socialista de substituição desconhecido cujos elefantes do PS sabiam os seus limites revelou-se um incompetente total para a função a que concorreu. Ganhou por uma estreita margem e ganhou não por causa dos votos de adesão mas sim por causa dos votos de rejeição do seu antecessor. A catástrofe era no entanto previsível. Emmanuel Todd ele mesmo não acreditava um segundo no seu “hollandisme revolucionário”. Ora a escolha não era com efeito para se ser contra ou a favor de Sarkozy. A escolha punha-se nos seguintes termos: será necessário levar a esquerda ao poder para fazer uma política de direita? Com o risco que esta se desfaça e por muito tempo. Ou antes: deve a esquerda permanecer, utilizando as suas bases sólidas, fazendo uma oposição de verdadeiro tribuno, indispensável numa democracia? Os Franceses escolheram a primeira das vias. Com o seu corolário, temos agora uma esquerda destruída, reduzida a nada. E, desafio inesperado, um partido de extrema-direita em plena ascensão que vai em breve representar um Francês em cada três…
A esquerda reduzida a nada porque, no seu naufrágio, o Partido Socialista arrastou consigo o resto da esquerda. Menção especial para o PCF, que esteve no coração da política francesa durante mais de sessenta anos. Hoje, é uma concha vazia despojada do que tinha sido a sua força e a sua razão de ser. Sistematicamente a reboque da esquerda social sofrendo sem vacilar quando não as aprova mesmo todas as distorções históricas que tem a ver com ele-mesmo enquanto Partido, que gere como um contabilista ansioso os pedaços da herança, salvando ali Val-de-Marne, perdendo acolá Allier. O seu legado inclui a direcção de centenas de comunidades locais, a que chega a exigir mais de uma vez que engulam cobras e lagartos. Com a forte redução ou até mesmo desaparecimento da aristocracia operária, os funcionários públicos e os funcionários eleitos fornecem as magras estruturas política que ainda lhes restam. E em termos de memória colectiva, contentar-se-ão com um punhado de comemorações tristes, onde mantém ainda alguns ornamentos já de tons amarelados que vêm de um passado já desaparecido. A Frente de Esquerda que ganhou 3% dos votos da classe trabalhadora (!), é um grupúsculo contra um outro grupúsculo, Melenchon versus Autain. E depois temos as inúteis e desnecessárias pequenas seitas de esquerdistas. Um pouco de caridade dispensar-nos-á de falarmos dos ecologistas, os EELV, condenados a desaparecer e cuja âncora situada à esquerda mais parece ser uma piada.
As eleições presidenciais de 2017 provavelmente verão o regresso aos negócios da direita e na pessoa de Nicolas Sarkozy. Marine Le Pen, conquistando na segunda volta entre 30% e 40% dos votos. As projecções actuais dão uma quarentena de membros socialistas (!), a salvarem os seus lugares. As colectividades locais nas mãos de uma direita revanchista. Uma esquerda na incapacidade política e material de desempenhar o seu papel de oposição democrática. ” Não propondo nenhum horizonte político emancipador”, tendo abandonado as camadas populares a favor da FN, a esquerda tem demonstrado a sua incapacidade para governar. Falta de dinheiro, de eleitos, de militantes, a crise é também material.
Então o que fazer? Escutemos o intelectual socialista, Gaël Brustier, antigo gaulista que não foi o último a tocar a campainha de alarme da esquerda: “o homem político não é um representante comercial, um caixeiro viajante. Dar uma visão do mundo que está correlacionada com a experiência diária dos cidadãos (em que esta é marcada pela desindustrialização, pela precariedade, por mutações diversas nas suas relações pessoais e sociais, a crise da escola ou a desclassificação profissional) é o ponto de passagem obrigatório de uma estratégia vencedora na política. Por enquanto, é o ângulo morto da estratégia da esquerda. »
Ângulo morto ou nó cego, o que esperar daqueles que manterão os poucos lugares para salvarem a sua gamela, aqueles que desde sempre só têm vivido das prebendas do aparelho, aqueles que sem nenhuma vergonha dão lições aos desempregados[2] 2? Como imaginar o início da remissão em causa? Quem destes que desde há trinta anos só se dirigiram às classes médias superiores do centro das grandes cidades, que ignoram as massas populares quando é que não as desprezam, pode de repente ser tocado pela graça?
É necessário, do passado, fazer tábula rasa. Saírem os que estão em fim de mandato. Qualquer reconstrução de uma esquerda necessária para este país passa por este requisito prévio: destruir esta esquerda, filha monstruosa de União da esquerda da década de 1970. Em diferentes contextos, a Grécia e a Espanha estão a tentar fazê-lo. Também aí, a destruição do PS foi um pré-requisito. As situações não são transponíveis, principalmente a partir de outro lugar, sobretudo a partir de França por causa da existência aqui de uma Frente Nacional forte. Uma das primeiras batalhas a fazer será contra a FN. E tudo isto para lhe retirar o que a Frente Nacional nos levou, o apoio das massas populares.
Em França há um pré-requisito: « Ceterum autem censeo, sinistram esse delendam ».
*Photo : Alain Robert/Apercu/SIPA. 00709135_000001.
Régis de Castelnau, Revista Causeur, Départementales : la gauche en lambeaux – Le socialisme départemental est mort, 30 de Março de 2015.
Texto disponível em :
http://www.causeur.fr/departementales-ps-gauche-valls-32072.html
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[1] Uma das espantosas lições da primeira volta era a de que em todas as comunas ganhas em Março de 2014, a Frente Nacional progrediu, podendo reivindicar e com justa razão uma legitimação da sua gestão.
[2] Interrogado por Jean-Jacques Bourdin, Emmanuel Macron gratificou os cinco milhões de desempregados com a seguinte afirmação : “Se estivesse desempregado, pessoalmente, eu lutaria e não estaria à espera de nada dos outros.” Sabendo muito bem que pode passar do sector público para o privado e ganhar muito dinheiro, sabe pois que nunca estará desempregado. Quando deixar o governo, será para ele uma medalha dourada da República, ou um banco de negócios, tipo Goldman Sachs, para rentabilizar o seu caderno de endereços.





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NOSSA !!!! COMO A FRANÇA ESTÁ DIVIDIDA!