CONTOS & CRÓNICAS – HELOÍSA CONTA UMA HISTÓRIA A MAURÍCIO VILAR – por João Machado

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Pois, tendo em conta o seu insistente pedido, vou tentar descrever-lhe a minha reacção, no outro dia, à pergunta da minha mãe, sobre se tinha dormido bem em casa da Maria da Luz. Peço-lhe que compreenda que fiquei muito chocado. Acreditei que ela não tinha percebido que eu tinha chegado já às oito da manhã, e que tinha passado a noite fora. Na véspera, no sábado à noite, tinha dado a entender que não iria esperar por mim, que se iria deitar logo. E como costuma adormecer logo, fiquei convencido de que não daria por nada. Por isso, fiquei muito surpreendido com a pergunta, assim de repente, já ao fim do dia, depois de uma tarde no café. Enfim, o que lhe fui dizendo foi mais ou menos o seguinte:

– Desculpa mãe. Sabes, era tarde quando chegámos a casa dela…

Ela apertou-me o braço, fez um gesto no ar como a dizer deixa-te disso. E continuou:

– Vais fazer quarenta e oito anos. Já tens idade para dormires fora de vez e quando. E tenho a certeza que com uma rapariga digna como a Maria da Luz, tudo correu com o maior respeito. – Falava com um ar tal que, de repente, me assaltou uma dúvida. Estaria ela a fazer pouco de mim? Deve ter sentido o meu sobressalto, por que continuou assim:

– Nunca te falei destas coisas, e às vezes, ultimamente, tenho pensado que fiz mal. Eu era muito mais nova do que tu, a primeira vez que passei uma noite fora de casa. Já lá vão tantos anos… Era tudo muito diferente.

Muito hesitante, avancei uma pergunta:

– Que idade tinhas?

A Heloísa, ao ouvir a minha voz, empertigou-se. Pensei que ia acabar a conversa, e que eu ficaria sem saber como decorreu a primeira noite da minha mãe fora de casa. Mas ela arfou um pouco e retomou o fio da história:

– Foi há tanto tempo – Suspirou, olhou para mim e lá se convenceu a responder à minha pergunta – Eu tinha doze anos – deu uma gargalhadinha. Estávamos no Verão, com um calor terrível. Todos os dias ia ter com as minhas amigas à praia, e ficávamos por lá até à noite. Houve uma vez que fomos jantar a casa de uma delas, que telefonou para casa de todas nós, a pedir autorização. Ainda me lembro que comemos bacalhau à brás, e bebemos gasosa muito fresquinha. Depois, voltámos para a praia… Passava das dez da noite, molhávamos os pés. As ondas eram grandes, e nós fugíamos praia acima, a dar gritos.

A Heloísa parecia transfigurada. Olhava em frente, a recordar. Eu não me atrevia a fazer mais perguntas.

– Fizemos corridas ao longo de toda a praia. Jogámos badminton, que estava muito na moda naquele tempo. Era quase meia noite quando voltámos para casa. Os nossos pais passaram por lá, e acharam bem que ficássemos em casa da Elvira, a miúda que nos tinha convidado. Os pais dela é que tiveram uma trabalheira. Comemos tanto! E depois, quem é que conseguia dormir? No dia seguinte, quando voltei para casa, caí na cama e só acordei à noite.

Senti-me muito estranho ao ouvir toda esta história. Imagine que fiquei com dúvidas sobre se a tal festa terá mesmo acontecido. Subimos a escada, entrámos em casa e fomos para a sala. A Heloísa continuava como que enlevada. Sentámo-nos no sofá. E sabe o que fez a minha mãe? Recostou-se, deu mais um suspiro, deitou a mão ao comando da televisão e carregou. Devo dizer que ainda olhou para mim, e esboçou um sorriso. Como era domingo, na CINCO, não havia telenovela da tarde, mas uma série semanal, alemã, com uns indivíduos de cabelos compridos, grandes bigodes e muito mal penteados, que se apresentavam como polícias.   Os bem penteados eram os maus, sempre a fazerem planos para roubarem as pessoas indefesas. As secretárias deles, muito louras, sempre que tinham oportunidade, faziam queixas aos polícias, que assim tinham o trabalho muito facilitado. Os episódios acabam todos em grandes festas. Vimos aquilo até à hora do jantar.

Acha que devia ter feito mais perguntas? Sinceramente, pensei em fazê-las, mas não me atrevi. A minha mãe, que me lembre, comigo, nunca falou sobre os pais dela, mais de cinco ou seis vezes. Ainda bem que não fiz mais perguntas. Ela ainda se zangava comigo a sério. Como já não havia frango, comemos umas sardinhas assadas. Ela fá-las tão bem!

 

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