A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL- O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO[1] – V – SERÁ A ALEMANHA O MODELO PARA UMA SAÍDA DA CRISE ATRAVÉS DAS EXPORTAÇÕES: UMA ANÁLISE DESMISTIFICADORA – por ONUBRE EINZ – 5

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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A Alemanha, o seu papel nos desequilíbrios da economia real- o outro lado da crise de que não se fala

Uma análise assente na divisão internacional do trabalho[1]

Uma colecção de artigos de Onubre Einz.

V – Será a Alemanha  o modelo para uma saída da crise através das exportações: uma análise desmistificadora.

 Onubre Einz, L’Allemagne est-elle le modèle d’une sortie de crise par les exportations: Une analyse démythificatrice 

Criseusa.blog.lemonde.fr., 23 de Maio de 2013

(CONTINUAÇÃO)

B – As performances alemãs por continentes

A análise das performances comerciais por subconjuntos geográficos continentais tende a enfraquecer significativamente a ideia de que a Alemanha encontrou na exportação um motor alternativo a um crescimento económico europeu em dificuldade.

3.° Exportações comerciais na Europa

O enorme delta entre o comércio da Alemanha com a Europa, por um lado, a Ásia e a América, por outro lado, continua conferir a esta última o papel motor essencial no comércio da Alemanha. A penetração alemã nos mercados não europeus está sujeita a caução.

LII

As exportações para a Europa mostram, em primeiro lugar, uma baixa das exportações para os países da zona euro composta dos 17 países que adoptaram o euro como moeda comum (UE17). Em comparação, as exportações para os países da União Europeia que não fazem parte da zona euro (Azul = Exportações comerciais para a Europa comunitária que não estão na zona euro) e para os países externos à UE (Verde = Exportações comerciais para a Europa extra-comunitária) parecem desenvolver-se muito rapidamente.

A Alemanha parece ter estado a desenvolver as suas exportações em direcção aos países que se encontram fora da zona euro.

LIII

Um exame das balanças comerciais — permitindo medir o enriquecimento líquido realizado sobre os outros países ou a parte de crescimento que estes perderam a favor da Alemanha — permite ter então uma medida do desequilíbrio das trocas entre a Alemanha e os seus vizinhos.

Primeira constatação: o saldo da balança comercial com os países que pertencem à Europa extra-comunitária é relativamente modesto (Verde = saldo da balança comercial Europa extra-comunitária). Segunda constatação: o saldo da balança comercial da Alemanha com a Europa a 27 é cada vez mais excedentário. O enriquecimento líquido da Alemanha fez-se no essencial sobre as costas dos países da União Europeia. E entre os países europeus, são os países da UE17 que mais têm estado a contribuir para esse enriquecimento líquido.

LIV

 

LV

Se se considerar a parte dos países da zona euro e os países da UE que não aderiram ao euro no total dos excedentes comerciais da Alemanha com o resto da Europa, as reformas Schröder associadas à moeda europeia ganham um outro relevo. Antes da chegada de Schröder ao poder, a parte dos excedentes comerciais da Alemanha com a zona euro no total de excedentes comerciais da Alemanha com a Europa estava em queda regular. A parte da balança comercial com os países da Europa comunitária fora da zona euro tendia a aumentar.

Os anos Schröder e as reformas destinadas a moderar os custos do trabalho tiveram o efeito de inverter as tendências verificadas até 1999. Os excedentes com os países da Europa comunitária fora da zona euro caíram enquanto os excedentes com os países da zona euro dispararam e mantiveram-se depois em níveis elevados. A moeda comum e as reformas Schröder amoleceram o ventre dos outros países da UE que sofreram frontalmente a concorrência preço-qualidade dos produtos alemães particularmente terrível.

Os anos de Schröder, portanto, foram marcados pelo acabar de um período de trocas mais ou menos reequilibradas entre a Alemanha e a UE17. A Alemanha, ao moderar fortemente os seus custos salariais num espaço monetário homogéneo, conseguiu assim fazer com que funcionassem a seu favor e ao máximo as suas vantagens competitivas e assim acentuando os desequilíbrios que se tinham reabsorvido na zona euro antes da chegada ao poder de Schröder, tendo depois estes desequilíbrios permanecido fortemente elevados, apesar da crise. Por outro lado, inversamente, o desequilíbrio das trocas comerciais que foi sendo constituído com os países da Europa comunitária fora da zona euro foi reduzido e estabilizado.

É, portanto, sobre as costas e às custas dos países da zona euro que a Alemanha conseguiu criar a maior parte dos seus excedentes comerciais desde o início do novo século, a moeda única transformou os países da zona euro numa zona mole permeável à penetração de produtos alemães. Os países da Europa comunitária que não fazem parte da zona euro viram a sua quota no total dos excedentes diminuir. O euro tem assim facilitado a penetração nos mercados da UE17, o que ajudou a Alemanha a ganhar uma proporção crescente do seu crescimento às custas destes mesmos países. A Alemanha privou-os assim de uma parte do crescimento europeu de que ela própria se apropriou.

Portanto não surpreenderá vermos que a única área onde as reformas Schröder desempenharam um papel claramente positivo foi na Europa comunitária. Os Estados-membros da UE17, privados de qualquer liberdade de manobra em termos de política monetária, encontram-se assim convidados a cultivar um modelo de crescimento através de exportações inspirados pela Alemanha, quando este modelo lhes tem sido prejudicial. O passe de mágica que consistiu em substituir a crise orçamental pela questão dos efeitos da concorrência pela competitividade-custo do trabalho tem aqui a sua origem. Este passe de mágica, na incapacidade de escamotear a crise, acaba por estar a alargá-la pelo jogo das restrições orçamentais que são uma forma de esconder o tipo de relações de forças económicas que se desenrolam na Europa.

(continua)

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[1] O título dado à  colecção é da responsabilidade do tradutor.

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Ver o original em:

http://criseusa.blog.lemonde.fr/2013/05/23/lallemagne-est-elle-le-modele-dune-sortie-de-crise-par-les-exportations-une-analyse-demythificatrice/

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Para ler a Parte 4 de Será a Alemanha  o modelo para uma saída da crise através das exportações: uma análise desmistificadora, de Onubre Einz, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A ALEMANHA, O SEU PAPEL NOS DESEQUILÍBRIOS DA ECONOMIA REAL- O OUTRO LADO DA CRISE DE QUE NÃO SE FALA UMA ANÁLISE ASSENTE NA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO[1] – V – SERÁ A ALEMANHA O MODELO PARA UMA SAÍDA DA CRISE ATRAVÉS DAS EXPORTAÇÕES: UMA ANÁLISE DESMISTIFICADORA – por ONUBRE EINZ – 4

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