A zona euro tornou-se uma simples prisão de devedores
Philippe Legrain, The Eurozone Has Become A Glorified Debtors’ Prison
Social Europe Journal, 17 de Março de 2015
Sem se ter ainda encontrado nenhuma solução durável para tratar a dívida grega, e as economias na zona euro a continuar a sofrer dum fraco crescimento, como é que pode a Europa finalmente resolver os problemas trazidos pela crise financeira? Numa uma entrevista com o editor Stuart Brown da EUROPP, Philippe Legrain discute as falhas políticas que estão na raiz da crise, a necessidade de estimular a procura nestas economias e porque é que a atenção da Alemanha centrada apenas em cortar os salários para melhorar a competitividade está simplesmente a agravar os problemas existentes.
Têm sido boas as lições aprendidas com a crise na zona euro?
A resposta imediata é não. Têm sido praticados erros catastróficos pelos decisores das políticas seguidas na zona euro – principalmente o governo de Angela Merkel em Berlim, o Banco Central Europeu em Frankfurt e a Comissão Europeia em Bruxelas – que transformaram uma crise financeira numa crise económica e política bem mais profunda.
Há mais de sete anos em crise, a zona euro está a fazer muito pior do que os Estados Unidos, muito pior do que o Japão durante a década perdida nos anos de 1990 e pior ainda do que a Europa na década de 1930. A economia, que está ainda cerca de 2 por cento abaixo do PIB de 2008, está a estagnar. O país que se tem portado menos-mal, a Alemanha, tem crescido menos do que a Grã-Bretanha ao longo desse período e menos da metade do que cresceram a Suécia, Suíça e Estados Unidos.
O pior, a Grécia, reduziu o seu PIB em mais de um quarto e está-se a sair pior do que a Alemanha durante a Grande Depressão. Os padrões de vida de muitas pessoas caíram a pique e o desemprego está dolorosamente alto: 11,4 por cento em geral, na zona euro, uma taxa muito mais elevada no sul da Europa, assustadoramente elevada entre os jovens. Uma geração perdida é o que se está a fazer. Em poucas palavras, a zona euro está-se a afundar numa armadilha de deflação da dívida, com trágicas consequências sociais ede imprevisíveis consequências de natureza política.
De forma já esperada, os eleitores são alimentados por anos de miséria que parecem não acabar mais. As tensões sociais dentro dos países estão-se a multiplicar, assim como o estão as fricções políticas entre eles. A raiva compreensível dada a injustiça dos resgates financeiros aos banqueiros ricos e os cortes nos orçamentos para alunos pobres sobrepõe-se com uma desprezível culpabilização dos estrangeiros, em especial dos imigrantes. Os velhos estereótipos foram revisitados e novas razões de queixas foram criadas. Os europeus do norte insultam os europeus do Sul como sendo sujeitos sem valor e preguiçosos, enquanto os gregos chamam aos alemães de nazis. O nacionalismo desagradável está em marcha outra vez e o apoio para a União Europeia nunca esteve tão baixo.
A maioria dos europeus associam agora a UE com a austeridade, a recessão com a dominação alemão, com constrangimentos não-democráticos sobre o que podem fazer, mais do que como podemos nós todos conseguir estar melhor em conjunto. E os europeus estão irritados e ressentidos com os políticos incompetentes e muitas vezes com a corrupção da velha classe política e com os tecnocratas da UE que parecem incapazes de resolver a crise e têm estado apenas a impor a miséria aos eleitores normais (mas não neles próprios). Na ausência das alternativas dentro do si9stema , os eleitores estão a mudar para os partidos radicais e extremistas: a esquerda radical na Grécia e Espanha (os separatistas na Catalunha), a extrema-direita em França e Itália, Sinn Fein na Irlanda.
Se bem que o primeiro-ministro reformista de Itália Matteo Renzi permaneça por enquanto com apoio popular, todos os três principais partidos de oposição – a Liga Norte de extrema-direita, o anti-establishment Movimento Cinco Estrelas e o partido de Silvio Berlusconi Forza Italia – são agora todos anti-euro. O ressentimento no sul da Europa também apoia o movimento anti-euro, além da extrema-direita na Holanda, Finlândia e Alemanha. Assim, os políticos podem ainda alcançar o que os mercados passivos já não estão a conseguir: com sorte, forçar a que haja uma mudança política desejável, mas mesmo que isso potencialmente possa quebrar o euro. Esta é a grande questão.
Apesar da natureza prolongada da crise, ainda há pouco consenso entre os políticos e os economistas sobre as principais causas que estão na raiz dos problemas da zona euro. Como é que definiria a situação actual?
A zona euro está prisioneira de uma recessão dos défices orçamentais , com bancos falidos, com um enorme excesso de endividamento do sector privado e um grande défice na procura agregada. Famílias, empresas e bancos estão todos a tentarem reparar as suas posições financeiras ao mesmo tempo , enquanto os governos – em vez de se adaptarem aos desejos do sector privado que querem reduzir o seu nível de endividamento através de uma maior poupança, substituindo-se então ao sector privado contraindo ele mesmo empréstimos ou então acelerando a reparação da situação financeira pela reestruturação das dívidas – os governos estão então a agravar o problema tentando também reduzir os seus níveis de empréstimos.
Assim a economia está em estagnação, as dívidas do sector privado baixaram de muito pouco e as dívidas públicas dispararam todas elas simultaneamente. Uma maneira simplificada de o dizer é exactamente esta. Os agregados familiares não estão a gastar porque os seus salários estão a estagnar e eles estão ao mesmo tempo a tentar reduzir as suas dívidas. Uma vez que os consumidores não estão a gastar, as empresas não desejam investir. E os governos estão também a reduzir nas suas despesas. Assim a procura interna está em depressão.
E desde que as economias da zona euro exportam na sua maior parte entre si, a depressão na procura interna de cada país limita a procura de bens importados destes outros países, as exportações destes outros países, e vice-versa. Um círculo vicioso na capacidade de exportar de cada país. Assim a zona euro está a ficar totalmente dependente da procura do resto do mundo nos bens que a União produza a fim de crescer, mas a zona euro é demasiado grande e o crescimento algures é demasiado fraco para que seja capaz de gerar uma retoma suficientemente forte para ultrapassar a crise da dívida e atacar de frente o desemprego.
A zona euro tem também enormes e graves problemas ao nível da oferta e desde longa data: a falta de inovação e de espírito empresarial, mercados de produtos cartelizados, mercados de trabalho ossificados , manipuladas e subvencionadas mercados de terra, um sector público sobredimensionado e muitas vezes ineficiente. Na última década, o crescimento da produtividade média foi apenas de 0,9 por cento ao ano, metade do que cresceu nos Estados Unidos. Além disso, a zona euro tem uma demografia lamentável: a população em idade activa tem vindo a diminuir desde 2011.
Mas mesmo se assumirmos que a taxa de de crescimento tendencial da zona euro é tão pouco como 1 por cento ao ano, ainda deveria ter crescido cerca de 6,5 por cento nos últimos seis anos e meio. Em vez disso, o valor da sua produção global desceu cerca de 2 por cento. Claramente, então, o maior problema da zona do euro é a insuficiente procura. Então enquanto as reformas pelo lado da oferta para aumentar a produtividade são vitais para o crescimento futuro, eles não são um substituto para as políticas necessárias a impulsionarem a procura agora – na verdade não conseguirão ter sucesso a menos que sejam acompanhadas de medidas para corrigir o sistema bancário e impulsionarem o investimento.
Quais foram as principais falhas políticas que nos trouxeram para esta situação?
A narrativa oficial que foi assumida nos círculos de Alemanha e da UE coloca as culpas da crise apenas sobre os outros, nada menos que os europeus do Sul perdulários e imprudentes. Segunda esta narrativa, considera-se que uma vez que os outros, não a Alemanha, são os responsáveis pela crise, são eles que devem pagar o factura, por isso mesmo. A Alemanha não precisa de nenhuma mudança, os outros sim. Bem, tal como devem pagar as suas dívidas integralmente, estes países devem emular o que a Alemanha fez desde há uma década atrás: consolidar as finanças públicas e reduzir os salários para restabelecer a competitividade. Só assim é que eles podem ser tão bem sucedidos quanto a Alemanha supostamente o foi.
Só há aqui um problema com esta narrativa: ela é inteiramente falsa. A verdadeira história é a seguinte. Durante vários anos e até 2007, houve um enorme boom de crédito em todo o sistema financeiro ocidental, dos Estados Unidos até à Islândia. Envolveu uma grande expansão de empréstimos transnacionais concedidos por bancos disfuncionais e perigosamente subcapitalizados e nisso foram auxiliados pela complacência – e, às vezes, pela cumplicidade – de banqueiros centrais, reguladores, supervisores e os políticos. E os bancos da zona euro estiveram no coração deste boom.
Assim como a jogar sobre as hipotecas subprime americanas, os bancos alemães e franceses emprestaram muito, muitíssimo, e muitíssimo mal igualmente, aos compradores espanhóis e irlandesas de casas assim como aos promotores imobiliários, aos consumidores portugueses e ao governo grego, ambos quer directamente quer em conjunto com os bancos locais. Quando estouraram as bolhas e os bancos começaram a falir, os governos decidiram apoiá-los, protegendo os credores dos bancos. As perdas iniciais dos bancos foram muitas vezes relacionadas com as hipotecas subprime americanas, sobre a qual os governos europeus não tinham controle. Mas quando se tornou evidente no início de 2010 que a Grécia não poderia pagar as suas dívidas, Merkel – juntamente com um trio francês, de Jean-Claude Trichet do BCE, Dominique Strauss-Kahn do FMI e o presidente Nicolas Sarkozy – tomou uma abordagem diferente.
Para evitar perdas para os bancos franceses e alemães, eles decidiram fingir que a Grécia estava apenas a passar por dificuldades de financiamento temporárias. E sob o pretexto de que a estabilidade financeira da zona euro como um todo estava em risco, eles decidiram romper com a base jurídica em que a zona euro foi formada – a “regra do não-resgate” – e emprestar ao governo grego para que ele pudesse pagar a esses bancos estrangeiros e aos investidores. Seguiu-se-lhes mais empréstimos da UE para os governos da Irlanda, de Portugal e da Espanha, acompanhados, principalmente para resgatar os bancos locais que teriam, no caso contrário, entrado em situação de falência face aos seus empréstimos feitos sobre bancos alemães e franceses e por outros investidores financeiros.
Em consequência destes resgates, os maus empréstimos dos bancos privados tornaram‑se obrigações por parte dos governos. E uma crise que poderia ter unido a Europa num esforço colectivo para limitar e travar os bancos que nos meteram nesta confusão, pelo contrário dividiu-a, colocando os países credores– principalmente Alemanha – contra os países devedores, com as instituições europeias a tornarem-se instrumentos para que os credores impusessem a sua vontade aos devedores. A zona euro transformou-se, de facto, numa prisão de glorificados devedores.
É trágico – mas dificilmente surpreendente – que como resultado as instituições da União Europeia e a Alemanha estejam agora muito ressentidas face aos países devedores. É igualmente compreensível que os contribuintes europeus do norte estejam eles irritados com esta situação. Mas em vez de se ressentir contra os europeus do sul, devem canalizar o seu descontentamento para os bancos em que os seus empréstimos, de facto, foram resgatados e para com os responsáveis políticos que permitiram que assim fosse. E as consequências são que os contribuintes europeus têm agora um incentivo para resistir à amortização da dívida que a Grécia precisa de obter. Eles perderiam igualmente se a dívida da banca irlandesa no valor €64 mil milhões imposta injustamente aos contribuintes irlandeses fosse perdoada.
Colocando os interesses estreitos dos bancos acima dos interesses dos cidadãos comuns, Merkel e os outros responsáveis políticos da zona euro colocaram assim europeus contra europeus. Enquanto os governos resgataram os bancos, primeiro de forma directa e depois de forma indirecta através dos empréstimos da UE aos governos europeus do sul, não forçaram os bancos a limpar os seus balanços. Como resultado, a zona euro tem agora os bancos zombies suportados pelo Estado em que se utiliza a liquidez barata fornecida pelo BCE para renovar os seus maus empréstimos aos zombies devedores enquanto recusam o crédito aos outros.
E a contrapartida em não forçar os bancos a limparem os seus balanços é que os agregados familiares e as empresas ainda têm enormes dívidas e frequentemente não cobráveis. Até 2010, os governos pelo menos apoiavam o desejo do sector privado em pouparem mais pedindo eles mais, os governos. Mas depois que os problemas da dívida pública de Grécia apareceram e foram tomados como a questão prioritária, os responsáveis políticos decidiram erradamente considerar que a zona euro no seu conjunto enfrentava uma crise orçamental e embarcaram numa prematura e excessiva austeridade colectiva.
Ainda aqui a Grécia foi a excepção, não a regra. Os empréstimos públicos elevados não eram a causa dos problemas da zona euro, mas sim uma consequência da queda do consumo privado depois de rebentarem as bolhas, com os bancos a falirem e as dívidas privadas de repente a tornarem-se cada vez maiores. E uma vez que as famílias e as empresas não querem gastar, os bancos não querem emprestar e a procura externa não é suficientemente grande para preencher esta lacuna, a austeridade causou recessões de tal modo profundas que, perversamente, a dívida pública subiu fortemente.
Pior ainda, os sucessivos erros dos formuladores de políticas provocaram o pânico a que estes responderam exigindo cada vez maior austeridade até que, finalmente, o BCE – depois de andar muito tempo a insistir que lhe era legalmente impossível agir – interveio no verão de 2012. Agora que o pânico que os legisladores criaram já diminuiu e a austeridade tem sido menos rígida e as economias têm-se estabilizado. Mas estas não estão a recuperar porque as causas subjacentes da sua fraqueza – os bancos falidos, o excesso de dívida do sector privado e o défice da procura – têm estado até aqui por abordar.