A CRISE NÃO EXPLICA TUDO! Por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Escrevo esta reflexão ainda com os olhos e ouvidos feridos por mais uma notícia de extrema violência ” um pai matou o filho ainda bebé com uma faca”.

Muitas pessoas falam sobre este caso e terminam dizendo “Isto é o fim do mundo” ou “o mundo enlouqueceu”.

Vizinhos e familiares dizem que este pai era meigo com o seu filho e que parecia uma pessoa normal…outros referem que já havia muitas discussões entre o casal…

A pessoa que agride, mata, não é capaz de enfrentar os problemas (?) consigo própria ou com os outros. É mais fácil, naquele momento, descarregar o seu furor passional sobre quem não se defende…

O Relatório Anual de Segurança Interna refere que os homicídios estão a diminuir, mas que os crimes conjugais representam um terço dos homicídios.. Em 2014 houve 100 homicídios sendo que 35% foram crimes conjugais.

Sabe-se que em 2013 houve 10 vítimas masculinas, mas não há referência a esta informação no Relatório de 2014.

Porquê? Não se sabe, por exemplo, se estes crimes são cometidos por ex-maridos, ex-namorados ou por casados ou unidos de facto.

Os dados sobre estes crimes muitas vezes diferem conforme as instituições que os fazem, porque cada uma tem os seus próprios parâmetros. A UMAR reporta-se aos crimes que aparecem na comunicação social. A classificação do crime também diverge, pode ser violência doméstica com “dano de morte” ou “homicídio voluntário consumado”.

Pondo de lado este preciosismo de classificação jurídica, o que importa é que o número de mulheres mortas por homens está a aumentar, assim como o contrário.

Em 2013 foram presos 510 homens e em 2014 passaram para 618.

Este tema é de difícil análise pela complexidade na sua abordagem, por falta de dados, por critérios diferentes de o avaliar, pelas causas endógenas e, ou, pela pressão económica, social, pela falta de integração cultural, pelas diferentes maneiras de encarar a vida a dois, ou seja, pelo desfasamento cultural de liberdades e de distribuição de tarefas domésticas, pela falsa ilusão de que o homem é ainda o “chefe da Família”.

Neste momento de crise, muitas separações têm acontecido porque o marido está desempregado e, supostamente, deverá fazer o que a mulher faria em casa. Arrumar, limpar, cozinhar, dar atenção aos filhos…..

Quando a pressão social é maior, mais facilmente se encontram comportamentos de ruptura por incapacidade de reacção construtiva. Abandonar, matar parece ser a única maneira de se sair dessa pressão que por vezes é também acompanhada pela pressão conjugal.

Que preconceitos, que incertezas, que medos, que infâncias viverão nestas pessoas que matam mulheres, filhos e pais??

Supostamente, este homem que matou o filho foi para castigar a mulher que se queria separar. Como terá sido este(s) homem enquanto criança? Como lhe terá sido ensinado os Direitos e Deveres dos homens e das mulheres? Como lhe terá sido ensinado que homem ou mulher têm a mesma liberdade, a mesma força?

Como será de facto este homem? Quem está interessado em perceber, caso a caso, porque os homicídios conjugais estão a aumentar? A crise não explica tudo!

“A crise é ver os meus pais menos sorridentes..” criança de 9 anos.

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